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Vencendo a dificuldade de se adaptar à cultura americana

Muitos brasileiros que vem morar nos Estados Unidos se adaptam facilmente à nova cultura. Contudo, alguns passam por um período um tanto depressivo até poder chamar o novo país de “lar”. Compartilho com vocês quais foram as três maiores dificuldades que tive aqui em Columbus, Ohio, e como fiz para voltar a me sentir bem – o que ocorreu, de fato, um ano e meio depois que me mudei para cá.

1. Amizades
Cheguei com grandes expectativas de fazer amigos no doutorado, mas isso não aconteceu. Primeiramente, senti que as pessoas competiam muito por notas e futuros orientadores, de maneira que ninguém compartilhava qualquer informação que pudesse beneficiar o outro. Um segundo ponto foi perceber que as pessoas falavam mal uma das outras (mais frequentemente e descaradamente do que no Brasil, onde eu já não gostava do hábito). Também riram muito do meu sotaque.

Decidi me afastar de quem não me fazia bem e, ao mesmo tempo, expandir o meu conceito de amizade. Nos EUA as amizades tendem a ser mais distantes: as pessoas se veem menos, têm menos contato físico (raros abraços) e conversam sobre assuntos menos pessoais. Inicialmente eu não considerava certas relações como amizade, mas depois percebi que eram “amizades americanas”.

O ponto chave foi ter paciência e buscar grupos de pessoas fora do doutorado. Conheci brasileiros incríveis – um tanto por acaso. Descobri o aplicativo Meetup para conhecer pessoas em eventos de interesses diversos. E por falar em grupo de pessoas, se você tem alguma religião, um grande dica é encontrar a sua igreja nos EUA.

2. Xenofobia
Eu e meu marido fomos tratados muito mal em alguns bares e estabelecimentos – claramente por estarmos com o nosso passaporte brasileiro na mão. A solução foi evitar esses lugares e também denunciar. A xenofobia tende a acontecer com imigrantes não brancos e não europeus. Se você passar por alguma situação de maus-tratos, humilhação ou ameaça de violência, contate a polícia ou preencha uma reclamação de discriminação estadual (exemplo aqui).

3. Valores
O choque de alguns valores americanos com os meus foi a parte mais sutil e, ao mesmo tempo, mais difícil. Destaco três elementos do modo de vida americano: a cultura de violência, o consumo desenfreado e o patriotismo excessivo.

A cultura de violência americana tem algumas semelhanças com a brasileira no que diz respeito ao assassinato de pessoas negras e LGBTQ, principalmente travestis. Contudo, uma particularidade dos EUA é o culto à guerra: cartazes que convocam veteranos, homenagens a veteranos em aeroportos, armas por todos os lados, e, especialmente, a ideia generalizada de que a violência é natural do ser humano, de que precisamos de guerra, de que o mundo jamais viverá em paz.

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Homenagem aos estudantes da Ohio State University que morreram em guerras.

O consumo desenfreado é aquela ideia de que você precisa de certo item para ser feliz – que às vezes vem disfarçada de “você merece tal item”. É comprar mil coisas desnecessárias, jogá-las no lixo e comprá-las novamente. Isso tudo é bastante conectado ao estilo de vida americano em que pouquíssimos tem férias e até mesmo licença quando se fica doente ou quando se tem um filho. As pessoas trabalham, no geral, longas horas – e há um certo orgulho nisso. Quem não gasta com férias, viagens, ou atividades de lazer gasta com objetos, com coisas.

O patriotismo excessivo às vezes alimenta a cultura de guerra, e às vezes se apresenta na forma de arrogância – “os americanos são melhores que todas as outras pessoas do mundo”, ou “os EUA são o melhor país são mundo”. Essa ideia também se conecta à xenofobia.

Pois bem, esses elementos foram um soco no meu estômago. Reconheci esses elementos em diversas pessoas e situações. Foi difícil e sofrido, mas esse choque me levou a revisar os meus próprios valores e a entrar em ação.

Refletir sobre o mundo em paz, que é possível sim e que eu quero para as próximas gerações, me levou a voluntariar para uma organização, ensinando inglês de sobrevivência para refugiados. Foi uma experiência incrível e foi lá que conheci meus melhores amigos americanos. Decidi também doar para caridades e organizações que visam o fim do sofrimento humano, como a Anistia Internacional. Aprendi também sobre a violência imensa que os animais sofrem na produção de carnes, ovos e laticínios – me tornei vegana e passei a voluntariar para organizações maravilhosas como a Mercy for Animals. Passei a evitar produtos que venham de trabalho escravo ou infantil e empresas que poluam o ambiente e que tenham práticas antiéticas (um bom aplicativo para isso é o GoodGuide). E, por fim, passei a praticar meditação (com o Headspace ) e empatia, para entender que somos muito influenciados pelo nosso meio social. Daí concluí que não é que somos pessoas ruins, mas que fomos educados para pensar de certas formas negativas. Ainda assim, podemos todos pensar, aprender, evoluir.

Note que em momento algum falei que tudo é ruim nos EUA. Na verdade, estou muito feliz aqui! Agora que superei minhas dificuldades, posso aproveitar muitas coisas boas que eu não tinha no Brasil, como segurança, infraestrutura e estabilidade econômica. Se você está passando por dificuldades de adaptação, lembre-se de que isso é normal e parte de sair da zona de conforto. Boa sorte na sua caminhada!

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10 comentários

vera Abril 13, 2016 at 8:05 pm

gostei do seu relato Paula e a unica coisa que ia dizer era que embora voce tenha falado do choque cultural e de certa maneira negativo (com o qual concordo) que voce nao estava vendo que tambem ha na cultura esses elementos fantasticos aos quais voce aderiu, e que formam tambem a sociedade americana. Mas, voce concluiu seu comentario afirmando isso, entao, deu uma visao balancada de sua experiencia. Valeu

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Paula Martins Abril 13, 2016 at 9:13 pm

Obrigada pelo seu comentário! Sim, eu foquei nas dificuldades mais pra ajudar quem está tendo dificuldades também, mas ainda vou escrever sobre as coisas que adoro aqui nos EUA em outros textos. Um abraço! 😀

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Regina Abril 13, 2016 at 11:15 pm

Oi Paula….
Gosto muito de viajar , mas nunca fui para os Estados Unidos …
Gostei muito do seu texto , que explica sobre as dificuldades para se adaptar e também das dicas que você deu que ajudam a entender mais o norte-americano.
Confesso que nunca tive vontade de ir aos Estados Unidos por encontrar sempre norte-americanos que pensam que são os melhores do mundo. Sei que aí tem coisas incríveis , como em todo lugar. Acho lindo a natureza , as estações do ano bem definidas .
Muito obrigada por compartilhar sua experiência aqui,
Vou continuar lendo sempre , pra aprender e conhecer melhor os EUA.
Um abração, e parabéns : você escreve muito bem !!!

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Paula Martins Abril 14, 2016 at 12:19 am

Oi Regina,
Muito obrigada pelas palavras! Se você tiver a oportunidade, não deixe de visitar os EUA. Tem muitas belezas naturais, e tem também cidades grandes – coisas para todos os gostos 🙂 Também tem pessoas boas e ruins, como em todos os lugares do mundo… eu também tive diversos encontros com pessoas que tiveram uma atitude como se fossem superiores aos demais, mas também conheci muita gente legal. Um super abraço, tudo de melhor pra você!

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Cintia Abril 14, 2016 at 6:07 pm

OI Paula,

Muito bacana seu texto. Também morei nos EUA e concordo com os itens mencionados,.
Sei que a xenofobia existe mas não cheguei a sentir talvez por ter morado num Estado mais mestiço e destino de férias. Mas, as questões do consumo excessivo e cultura da violência foram um baque. Mesmo assim adorei ter morado aí e considero que há muitas coisas bacanas no “american way of life”. Bjs

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Paula Martins Abril 15, 2016 at 12:53 am

Obrigada por ler o texto e comentar! Que bom que você teve uma experiência positiva! Tenho conversado com muitas pessoas agora sobre o assunto, e é impressionante como cada pessoa tem uma experiência diferente – e é muito legal ver isso 😀 Um super abraço!

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Sara Maio 2, 2016 at 9:39 pm

Oi Paula,

gostei muito do seu texto, me identifiquei bastante com ele, estou aqui há 20 dias fazendo curso de English e já pude sentir na pele esse choque cultural, principalmente em relação a amizades, cheguei com a mesma expectativa que você e já vi que por aqui é bem diferente no que diz respeito à fazer novos amigos, mas estou levando e tentando fazer dessa experiência única, apesar das minhas dificuldades, que não são poucas rsrsrs. Bjs e sucesso pra você.

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Paula Martins Maio 3, 2016 at 1:58 am

É isso aí Sara 🙂 Que bom que você também está buscando tirar o melhor daqui! Com o tempo só melhora! Um abraço e obrigada pelo comentário!

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Anderson da Silva Abril 5, 2017 at 3:11 am

Muito interessante seu texto Paula. Estou estudando em NY desde Dezembro e apesar de me planejar para esta decisão, esse período de adaptação esta muito difícil. Pelo menos o frio ja esta indo embora. Estou procurando estratégias como trabalho voluntariado onde eu possa ter mais contato com americanos. Todo dia eu penso em fazer minhas malas e voltar pra casa. Estou tentando não desistir antes de tentar todas as possibilidades. Foi bom ler seu discurso e perceber que e possível. Um abraço. Saúde e paz.

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Paula Martins Abril 5, 2017 at 11:53 am

Oi Anderson,

Geralmente esse período de adaptação leva um tempinho, mas é possível sim. Voluntariar é uma excelente ideia – e quaisquer outras atividades que você goste de fazer e que possam ajudar a conhecer pessoas. De repente até no lugar em que você está estudando existem grupos para diferentes atividades (aqui na OSU tem um monte dessas student organizations). Esse início é a parte mais difícil e a gente pensa em voltar correndo pro Brasil mesmo (com certeza é assim que eu me senti há alguns anos atrás), mas depois de um tempo a coisa começa a fluir. Tem um monte de brasileiros em NY também – e os brasileiros geralmente se ajudam.

Boa sorte em tudo!
Paula

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