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Verlan, um jeitinho bem francês de falar

Verlan, um jeitinho de falar bem francês.

Eu tenho uma relação toda especial com a língua francesa. Foi durante meu trajeto de descoberta dessa língua que construí muita coisa, tanto a nível pessoal quanto intelectual. Resolvi encarar o risco de aprendê-la em vez de estudar outra que eu já conhecia, mesmo sem ter tanto suporte para isso na época e mesmo sabendo que se desse esse passo de forma errada ele poderia comprometer minha formação e talvez minha futura carreira.

Mas, cá estou eu, alguns anos depois de ter tomado essa decisão, casada com um francês, vivendo na França e por vezes até esquecendo como era quando eu não tinha a língua francesa como uma das minhas ferramentas de comunicação.

Digo tudo isso para dizer que, quando adotamos uma nova língua, por melhor que seja nosso domínio dela, seguimos aprendendo, afinal, ela segue evoluindo e passando por mudanças. E quando falo de seguir aprendendo, não falo só a nível de vocabulário ou de ortografia. Falo de criar intimidade com a língua e de ir compreendendo como o dinamismo dos falantes dela a transformam.

Nos cursos de língua estrangeira que fazemos, geralmente aprendemos basicamente gramática e vocabulário. Só depois, principalmente quando temos a ocasião de passar um tempo em algum lugar onde a língua é falada, vamos aprendendo gírias, jargões, expressões e outras particularidades. Hoje vou falar um pouquinho sobre uma das formas de se comunicar em francês muito comum no dia a dia aqui, mas não tão conhecida por todos: o verlan.

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O nome em si já explica em que consiste essa prática linguística. Verlan vem de l’envers (pronuncia-se lãvér) que quer disse o inverso, o contrário. Ou seja, a grosso modo, o verlan é uma prática que consiste em inverter as sílabas das palavras.

Ao que parece, o verlan não é uma prática assim tão recente quanto costuma se pensar. Suas primeiras aparições devem datar do século XIX. E mesmo não tendo sido oficialmente estudado ou levado em conta na época, o verlan seguiu existindo e ganhou força nas periferias francesas entre as décadas de 70 e 80.

Diz-se que, entre 1970 e 1980, o jargão era utilizado como forma de expressão pela população marginalizada a fim de não se fazer entender por pessoas de fora da região. Muitas vezes os falantes do verlan queriam evitar que fossem compreendidos por policiais, por exemplo.

Porém, se engana quem pensa que o verlan segue sendo uma linguagem “marginal” (e digo marginal sem nenhuma carga de preconceito ou julgamento, e sim no sentido literal da palavra, no que diz respeito ao que ou a quem está à margem da sociedade, aos que estão inseridos na zona marginal, periférica). Essa forma de expressão se popularizou tanto e já está tão entranhada na sociedade francesa que muitas vezes aderimos a ela sem nem perceber. Vamos falando, adicionando a nosso vocabulário novas palavras e depois descobrimos que na verdade ela deriva de outra que tem as sílabas dispostas em uma ordem distinta.

A maioria dos amigos do meu marido, por exemplo, são pessoas de classe média e eu ainda não conheci nenhum que não use palavras em verlan. Já vi, inclusive, meus sogros falando algumas (poucas) palavras verlanisées (verlanizadas). O que também derruba o mito de que é uma forma de expressão exclusiva de jovens.

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Resumindo, o verlan é uma prática de comunicação utilizada diariamente pelos franceses, em sua maioria jovens – mas não exclusivamente,  em situações informais e geralmente de forma falada. A única situação em que eu sei que o verlan pode ser utilizado de forma escrita são em mensagens trocadas entre amigos ou com pessoas com quem se tem um pouco de intimidade. É inclusive prático escrever algumas palavras em verlan, já que quando elas são formadas pode haver a supressão de algumas letras, o que na linguagem cibernética é interessante, pois a diminuição de caracteres a digitar agiliza a comunicação.

Pois é, como eu disse antes, a grosso modo, o verlan se realiza através a inversão de sílabas de palavras. Mas não é só isso, já que outro princípio básico dele é a questão fonética. A “nova” palavra sendo gerada a partir da que já existe precisa soar bem ou pelo menos ser pronunciável em francês. É aí que pode haver a remoção de algumas letras.

Para ilustrar melhor, mostro aqui algumas das palavras verlanizadas que sei que são usadas cotidianamente:

ouffou (louco, usada também para dizer que algo é incrível – no sentido negativo ou positivo, ou super legal, irado)

cheloulouche (estranho)

reloulourd (literalmente significa pesado, mas quando a palavra está em verlan é usada para falar de algo irritante, chato)

beuhherbe (maconha)

vénèreénervé (irritado)

teuffête (festa, balada)

renoinoir (negro)

mifafamille (família)

meuffemme (mulher, também usado no sentido de namorada)

E a prova de como o verlan é popular no meio artístico, sobretudo no meio da música, é que podemos encontrar formas verlanizadas em várias canções e até mesmo em nomes de artistas.

O cantor belga Paul Van Harve, por exemplo, é mais conhecido como Stromae, um verlan de maestro. Ele é, inclusive, conhecido por gostar muito de usar jogos de palavras em suas músicas.

A música que pode ter sido uma das responsáveis pela popularização do verlan é Laisse béton, de Renaud. O cantor brincou com a expressão francesa Laisse tomber (Deixa pra lá) e, ao inverter a palavra tomber, acabou usando béton (concreto).

E uma música bem popular nesse momento com uma palavra em verlan no título é Bonne Meuf, do novo cd do rapper Orelsan.

Bom, espero que os que ainda não conheciam o verlan tenham gostado desse mini guia introdutório.

Cimer et à la prochaine!

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