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Você também se sente estrangeiro quando volta ao Brasil?

Sentindo-se como um estrangeiro quando volta ao Brasil.

Mudar de país nunca é fácil. Tenho certeza que se você tiver a oportunidade de conversar com algum brasileiro que mora fora e perguntar quais são as coisas que ele mais sente falta, é provável que ele falará sobre a família, amigos, comida, festas, o clima, dentre outras coisas da terra “onde canta o sabiá”.

Moro há dois anos com meu marido nos EUA e, até o momento, para estranhamento de alguns, devo confessar que não tenho sentido nenhuma falta do Brasil a não ser de pessoas. Por favor, não me levem a mal e não me vejam como uma arrogante, mas devo ser honesta e admitir que, ao menos por enquanto, me sinto desta forma quando penso em meu país.

Não sei dizer se tal sentimento se deve ao fato de eu ter me adaptado muito rapidamente por aqui; se pela facilidade de acesso às redes sociais para falar com quem ficou; ou se por estar me sentindo muito bem onde moro agora.

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É muito comum ouvirmos que a gente se acostuma rápido com tudo o que é bom, pura verdade! Pensando nisso, duas das coisas que tenho desde que cheguei aqui e agradeço todos os dias são: segurança e conseguir ter um estilo de vida mais tranquilo se comparado ao que tinha – algo que eu gostaria que todo cidadão no mundo pudesse ter.

Desde o começo do ano passado eu já sabia que precisaria voltar ao Brasil em algum momento. Por isso, tiramos férias no final do ano para também aproveitarmos o período das festas, visitarmos nossas famílias, amigos, resolvermos algumas pendências e fugirmos um pouco do inverno.

Muita gente em meu lugar talvez estivesse dando pulinhos de alegria por ter a chance de voltar ao Brasil exatamente em um período festivo e no verão, mas, de fato, a única coisa que me empolgava eram as pessoas que eu iria reencontrar. E desde a minha chegada fui me certificando disso.

Durante o caminho do aeroporto para casa, fui observando algumas mudanças, isso é normal, não é? Prédios foram construídos, algumas estações de metrô finalmente foram inauguradas e a agressividade no trânsito, para mim, estava ainda mais evidente. Contudo, fui ficando incomodada com outras coisas que ia observando e sentindo ao longo dos dias em terras brasileiras.

Enquanto estive no Brasil me conscientizei de que alguns novos hábitos foram adquiridos – embora tenha me dado conta só depois de alguns dias de que precisava me policiar sobre alguns deles. Levei alguns segundos para me lembrar, por exemplo, que ao atravessar a rua mesmo estando na faixa para travessia para pedestres que os motoristas aceleram e não param para as pessoas atravessarem. Quase fui atropelada, mas eu realmente tinha me esquecido que, infelizmente, parte significativa dos motoristas também se esquecem que são pedestres.

Não dirijo há alguns anos porque comecei a sentir medo da violência no trânsito. As estreitas faixas desenhadas para o tráfego de veículos em ruas e avenidas paulistanas me fizeram ter certeza de que é preciso ter coragem para ser motorista na cidade. Entretanto, posso dizer que meu medo não diminuiu, mesmo como passageira.

Considerando a correria típica do final do ano, viajei com minha agenda organizada para conseguir fazer o que precisava, entretanto, eu também tinha me esquecido que algumas coisas, talvez até por questões culturais, não aconteceriam como mandam o figurino ou a agenda. Quer ver outro exemplo? Agendei com um mês de antecedência a consulta com uma médica que me atende há anos. Cheguei no consultório com 20 minutos de antecedência e fui atendida 1 hora e meia depois do horário marcado. Claro que imprevistos acontecem, mas isso é visto como “normal” e nada demais tinha acontecido naquele dia para que justificasse tamanho atraso.

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Falando especificamente de um hábito comum tanto aqui nos EUA como em vários países europeus é o de jogar o papel higiênico no vaso sanitário – ao contrário da lixeira – que é usada para descartar outros tipos de lixo, como cotonetes, algodão, fraldas descartáveis e absorventes. Eu havia me esquecido completamente e segui jogando o papel no vaso sanitário até ir a um bar e me deparar com a foto abaixo.

Foto: arquivo pessoal

Eu amo o verão. Saí dos EUA com a temperatura abaixo de zero e quando cheguei em São Paulo, os termômetros marcavam mais de trinta graus. Embora tudo estivesse normal para o período, achei até que o calor que senti já era diferente do que eu conhecia.

Cheguei uns dias antes do meu marido que me contou sua experiência (que chamarei de inusitada) no Uber que o levou do aeroporto para casa. Com o calor que fazia, o motorista usava uma toalha para secar o próprio suor e informou que não ligaria o ar-condicionado para economizar combustível. Por esse motivo, meu marido poderia abrir a janela do carro à vontade e sentir o vento para se refrescar. Eu não queria acreditar, mas, sim, foi verdade.

Relatei apenas algumas das situações pelas quais passei durante apenas um mês que estive no Brasil. E, de novo, assumo que por mais que eu tentasse abstrair de algumas situações, inevitavelmente, algum tipo de irritação vinha à tona.

Mesmo que estivesse ouvindo e falando minha língua 24 horas por dia, a verdade é que mesmo conhecendo os códigos, as piadas nas entrelinhas e escolhendo o melhor caminho para chegar a algum lugar me senti completamente desatualizada e deslocada. Em diversos momentos, eu passei a me sentir como um estrangeiro que chega a um local desconhecido, porém, neste caso, a diferença era que algumas coisas até então consideradas “normais” ou “familiares” se tornaram estranhas e confusas para mim.

Pude constatar algo que já vinha sentindo há algum tempo: eu estava me sentindo estranha no meu país, na minha cidade, na minha casa e assim tive plena certeza de que o sentimento de não pertencer nem lá e nem cá estava presente.

Um dos maiores aprendizados que ganhamos quando moramos fora é justamente a chance de conhecer novas culturas e vivenciar novas experiências. Penso que, por conta disso, acaba sendo impossível não olharmos para nosso país de outra forma.

Não vou negar que fiquei muito contente por ter me encontrado com as pessoas que gosto e que passei por bons momentos enquanto estive por lá. Porém, também reconheço que em um determinado momento tudo o que eu mais queria era voltar para o lugar que eu também não sinto como sendo meu, mas que pelo menos, por enquanto, é onde me deixa mais tranquila e feliz.

Até o próximo post!

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10 comentários

Claudia Fevereiro 18, 2019 at 8:31 pm

Eu super te entendo. Com 2 anos fora, tb só sentia falta das pessoas. Agora que tenho mais (já são 7 anos de idas e vindas, e quase 4 com a decisão de sem volta), os contrastes culturais e as desvantagens de morar fora ficam mais evidentes. Criar filhos longe da sua cultura, ter que viajar 18h pra estar com sua família, conviver pela câmera do celular, as dificuldades de se estabelecer profissionalmente de verdade em um país diferente, os problemas da cultura e da sociedade americana que no início a gente releva por causa das vantagens e da fascinação com o novo, tudo isso começa a ter um peso maior com o passar dos anos. Mas aí vc volta e vê a situação do país, a sujeira na rua, a falta de educação das pessoas, os serviços horrorosos, a pobreza, a violência, a insegurança e pensa que não consegue morar mais lá. É realmente uma sensação de não pertencer mais a lugar nenhum..m.

Resposta
Liliane Oliveira Fevereiro 20, 2019 at 3:35 pm

Olá Claudia,
Eu entendo perfeitamente o que você relatou. A sensação de “não pertencer” realmente é muito estranha. Contudo, o que venho pensando é que temos que aprender a lidar com esse caldeirão de sentimentos e seguir a vida, não tem muito jeito.
Obrigada pela sua mensagem.
Boa sorte!
Um abraço,
Liliane

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Maira Fevereiro 19, 2019 at 12:21 am

Oi Liliane conterrânea. Grata pelo texto.
Espero que com sua permissão, faço minhas tuas palavras. Vivi na España quase 12 anos, estamos no Rio a 3 anos e estou contando os dias para regressar para “minha casa”. Que sentimento mais desgarrador esse de não pertencer a nenhum lugar e ao mesmo tempo se sentir em casa num lugar a milhas de distancia de onde nascemos. Sim, faz parte da “dor e a delicia” na nossa condição de expatriadas. Beijos

Resposta
Liliane Oliveira Fevereiro 20, 2019 at 3:40 pm

Ola Maira,
Que bom saber que você voltará para o lugar que vc gosta e se sente bem. O sentimento de “nao pertencer” realmente é complicado, mas como você bem disse: “cada um sabe a dor e a delícia” de vivenciar isso.
Desejo que você seja feliz onde quer que seja.
Muito obrigada pela mensagem.
Bjs,
Liliane

Resposta
Jac Fevereiro 19, 2019 at 2:36 pm

Bom texto!

Resposta
Liliane Oliveira Fevereiro 20, 2019 at 3:45 pm

Olá Jac,
Muito obrigada pela sua mensagem.
Um abraço,
Liliane

Resposta
Luciana Fevereiro 20, 2019 at 10:11 am

Concordo em tudo! Sempre que chego ao Brasil, já no caminho do aeroporto para casa, me assusta os barulhos, a poluição auditiva e constante e me enlouquece! A partir disso, vai se somando a violência do trânsito, o individualismo das pessoas, a intromissão de conhecidos ( e às vezes até desconhecidos) em detalhes das nossas vidas, etc…
Amo meu amigos e familiares, mas volto bem feliz para O Canada.

Resposta
Liliane Oliveira Fevereiro 20, 2019 at 4:03 pm

Olá Luciana,
Pois foi exatamente assim que me senti enquanto estive no Brasil. Em várias situações me via como um peixe fora d’água, totalmente deslocada, mas o que vale mesmo, é rever e estar junto com as pessoas que gostamos. Isso realmente não tem preço!
Muito obrigada pela leitura e comentário.
Um abraço,
Liliane

Resposta
Gabi Fevereiro 21, 2019 at 1:07 am

Concordo com tudo. Morei 5 anos na Inglaterra e, por conta de estar com dois filhos pequenos, resolvi voltar pro Brasil. O primeiro ano foi um choque! E confesso que não abri mão de alguns hábitos ingleses que eu adoro! Enfim, tentamos seis anos por aqui, mas fica desanimador essa bagunça e falta de respeito com o cidadão. Estamos voltando pro UK. Brasil agora só pra passear e ver os amigos e família!

Resposta
Liliane Oliveira Fevereiro 22, 2019 at 12:50 am

Olá Gabi,
Eu posso imaginar o quanto deve ter sido difícil o seu retorno ao Brasil. A verdade é que quando nos mudamos, mudamos também o nosso jeito de ver, pensar e encarar muitas coisas, não é mesmo? E aí, quando a gente volta “para nossa terra” é inevitável não fazermos comparações e percebermos que “algumas coisas podem estar fora da ordem”.
Achei super legal saber que você adquiriu alguns hábitos ingleses e que gosta. Costumo dizer que esses aprendizados não tem preço apesar das “dores e delícias” que temos vivendo em outro país.
Te desejo boa sorte e agradeço pela leitura e mensagem.
Um abraço,
Liliane

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