China – Não posso trabalhar no país, e agora?

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Esse é um tema bem comum nas rodas de amigas aqui na China. Mas entendo que é um assunto recorrente a todas as mulheres que resolveram abandonar seu trabalho, sua carreira no Brasil e acompanhar o marido nessa aventura pelo mundo, seja em que lugar for.

Isso aconteceu comigo e com centenas de outras mulheres que conheço, brasileiras ou não. No início se perde o chão, busca-se respostas e sentidos à nova realidade. É um período duro, de luta interna – questionamentos, sentimento de culpa e incertezas.

Aqui no BPM, esse assunto já foi tratado pela Silvia Marques, que vive na Suiça, e também em dois textos coletivos que você pode conferir nesses links: “Profissional no Brasil, dona de casa no exterior” parte 1 e parte 2.

Em todos esses artigos, cada uma das colunistas fala um pouco das suas experiências nos países onde estão vivendo. Podemos notar claramente que há diferenças em cada local – o tipo de visto, a recolocação no mercado local, a diferença do idioma e da cultura. Mas aqui, vamos falar especificamente sobre a China.

Vale lembrar que, nos últimos tempos, tem aumentado o número de mulheres que chegam com seu emprego e com sua própria Permissão de Trabalho (Work Permit) para o País do Meio, como é o caso da Ludmila Lima que veio para a China como professora em uma escola internacional.

A situação da esposa na China

A princípio o cônjuge do profissional que vem para a China não pode exercer atividade remunerada. O visto é claro: acompanhante. E, uma nova regulamentação aplicada em 2014, exige o casamento oficial no país de origem. No nosso caso, tínhamos uma certidão registrada em cartório de União Estável no Brasil, e à partir daquele ano, não foi aceita, por esse motivo tivemos que casar na China.

É interessante saber também, que, mesmo os filhos, só possuem esse visto familiar até os 18 anos. Depois disso, eles precisam aplicar individualmente para um visto de estudante, mesmo ainda frequentando escola, cursando o equivalente ao ensino médio, como foi o caso dos meus filhos. O mais novo, completou 18 anos em março e se formava em junho. Mesmo assim, teve que fazer todo o processo para o visto de estudante por 3 meses.

Voltando às esposas, além dessa restrição imposta pelo governo chinês, há o fator do idioma. Geralmente o profissional vem com um emprego, pacote de expatriação ou contratação local de estrangeiro, e a ciência da empresa que o idioma usado será o inglês. Já, vivendo aqui, arrumar uma colocação sem dominar o mandarim e encontrar uma empresa que queira ser responsável por uma “permissão de trabalho” é um pouco mais complicado.

Claro que há as excessões, e também já escrevi sobre um desses casos, que foi o da Vanessa Moulin. Apesar de ter mudado para acompanhar o marido, conseguiu seu emprego como fisioterapeuta num hospital internacional em Xangai. Só que Xangai é uma cidade muito internacional, a demanda por profissionais que atendam ao público estrangeiro é alta, o que torna todo o processo bem mais fácil. Nas cidades de interior, fora da bolha internacional que há na China, essa realidade já não é tão presente.

E como lidar com essa realidade?

Como disse no ínício desse texto, no começo tudo é muito confuso. A mistura de sentimentos entre a alegria de poder se dedicar mais aos filhos (quando os têm) e/ou ter tempo livre para pensar mais em si mesma, com a frustração de ter abandonado a carreira, muitas vezes, numa época de crescimento e consolidação no mercado.

Essa balança demora um pouco para estabilizar. Conheço dentistas, fonoaudiólogas, terapeutas, médicas, nutricionistas, advogadas que deixaram seus consultórios num momento em que haviam alcançado a confiança de muitos pacientes. Algumas simplesmente passaram adiante, já que não sabem quando, ou se, voltam. Outras ainda mantém os espaços através de sociedade mas sabem que na volta terão que reconstruir muita coisa.

Outras, como foi meu caso, que possuiam um emprego administrativo numa empresa, pediram demissão de fato. Há um pequeno grupo (que conheço) que, pela natureza do emprego, conseguiram acordos para trabalhar “online” ou de maneira remota.

E como lidar com isso? A melhor forma é buscando sentido para essa nova fase da vida. Encarar como um novo desafio. Aproveitar as oportunidades que a vida coloca em nossas mãos. Decidir enfrentar ou se lamentar é opção pessoal de cada um de nós.

A minha opção foi buscar por trabalho voluntário, estudar (inglês, mandarim, fiz um MBA e agora estou fazendo um curso sobre Tradicional Medicina Chinesa – TCM) e fazer o meu blog pessoal, que cresceu além do esperado e virou, realmente minha profissão, culminando num livro que será lançado esse ano. Além de encarar essa experiência como uma “oportunidade” de ter um tempo só para chamar de meu, de descobrir novos talentos, andar sem rumo, desbravar esse novo país. Sim, tem muita coisa boa para se fazer nesse mundo e quantas pessoas têm essa chance? Resolvi encarar como um presente da vida, e tudo ficou mais fácil. E, por mais estranho que possa parecer, foi nessa hora que mais opções de atividades apareceram.

Como em Xangai o número de brasileiros é muito grande e temos um grupo de quase 300 mulheres no wechat (um aplicativo chinês semelhante ao whatsapp), o que acaba acontecendo é uma rede de trabalho informal dentro da própria comunidade brasileira. As que tem o dom de cozinhar oferecem os quitutes brasileiros tão desejados por quem está do outro lado do mundo – coxinha, pão de queijo, feijoada… – Outras, que já trabalhavam no Brasil com prestação de serviço como cabeleiras, manicures, depiladoras, fazem a alegria de todas as demais brasileiras por aqui!

Há as que se reinventam de tal modo, que quando voltam ao Brasil não voltam à sua profissão original e abraçam a nova opção que a China lhes apresentou. Uma amiga que era dentista no Brasil largou a carreira para viver aqui (por 8 anos), começou a praticar Yoga e, hoje, depois do retorno, é professora de Yoga em São Paulo.

E assim, entre descobertas, períodos de luto, tentativas e erros, momentos de orgulho e desespero, vamos nos reinventando e percebendo que somos as únicas responsáveis pela nossa adaptação à nova realidade.

Muitas vezes as escolhas são poucas, eu sei. Mas é necessário respirar fundo e seguir em frente. Buscar o sopro de esperança que pode nos empurrar para frente. Mesmo sendo poucas, as escolhas existem. Cabe a cada um olhar de frente para sua realidade e escolher ser feliz com o que temos naquele momento ou se encolher numa bolha de sofrimento e desânimo.

E já que aceitamos esse desafio, porque não escolher o melhor para nosso novo estilo de vida?

Até a próxima!

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