Como entender a maneira direta dos holandeses

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Fonte: www.pexels.com
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Em minha primeira entrevista de trabalho na Holanda meu futuro chefe me pergunta “você já experimentou o homem holandês?”. Arregalei os olhos e pensei “socorro, estou na empresa certa?”, mas como uma lady, só consegui dizer: “sorry?”. Foi quando ele entendeu como a frase tinha soado em inglês, viu as outras entrevistadoras rindo e me pediu milhões de desculpas. O que ele realmente queria dizer era se eu já tinha experimentado um homem holandês sendo muito direto comigo, como eu tinha me sentido e se estava preparada para lidar com essa cultura. Ufa! Enfim, quebrou qualquer gelo que podia estar no ambiente.

Foi aí que comecei a pensar que sim, eu já tinha passado por isso. Não da mesma forma que uma guia turística de Amsterdam, que perguntou ao namorado se achava que ela estava um pouco gorda e ele prontamente disse que “sim”. Não contente, ao olhar a expressão dela de “sério mesmo?”, ele complementou “ah, mas se é algo que te incomoda porque você não começa a ir na academia?”

Eu tenho alguns exemplos: um amigo veio me questionar se meu pai aprovava o tamanho do vestido que eu estava usando; em outro caso, um outro colega me disse que minha pergunta era óbvia demais,  e já teve até uma pessoa que comentou que o queijo que eu estava comendo era muito fedido. Essas coisas nem me abalaram.

O ponto é, sabe aquele estereótipo dos europeus que diz que eles são mais diretos que nós, latinos? Então, aqui é “na lata” sem “papas na língua”, afinal, se você perguntou eles partem do pressuposto que você quer saber a verdade, não é mesmo?

Em um país que nem a vendedora da loja fala “nossa essa roupa caiu muito bem” precisamos de um tempinho para explicar como entender essa cultura.

Regra número um: se você não está preparado para ouvir a verdade, não pergunte. Simples assim, porque você irá ouvir. A questão é, nós não estamos acostumados com respostas honestas logo de cara. No Brasil, se você quer dizer algo ruim ou não tão agradável a alguém, primeiro você fica dias pensando em casa na melhor maneira de dizer. Você escolhe até o lugar e talvez um agrado para levar para a pessoa não ficar chateada.
Finalmente, você decide marcar o encontro e diz o que estava pensando, mas de uma forma tão elaborada e dando tantas voltas que você não tem certeza se conseguiu passar a mensagem que queria. Isso soa familiar? Não seria mais fácil simplesmente falar o que estamos pensando?

Regra número dois: saiba separar sinceridade de grosseria. É claro que nem todos os holandeses são simplesmente honestos, alguns são de fato grosseiros. Mas, o importante é saber interpretar as diferenças e estar aberto a isso. Uma maneira de avaliar é a relação que você tem com a pessoa. Se vocês estão tendo uma conversa tranquila e de repente você escuta uma frase que te parece totalmente grosseira, preste atenção na pessoa e veja a reação dela, dá para perceber que é a maneira natural de falar. Seja atento à isso e aos poucos você vai acostumando e sabendo interpretar os sinais.

Regra número três: não é errado dizer que não gostou, que não se sente bem, que não quer fazer algo. Você pode dizer “não” sem ofender alguém. Por um momento você pode pensar “Até parece!! Essa aí pirou”, mas na verdade o que você deveria estar pensando é “Calma, você quer dizer que se eu não quiser sair, eu não preciso inventar uma desculpa para explicar porque não vou pra pessoa não ficar chateada? Ou se eu não gostar
de alguma comida eu posso simplesmente dizer que não gostei?” Isso mesmo! E sabe do melhor? É totalmente normal! Claro que você não vai dizer “é, de fato, essa comida estava péssima”, mas vocês entenderam.

Regra número quatro: não julgue na primeira vez. Esse comportamento direto é totalmente novo para nós e isso pode nos levar a fazer pré-julgamentos. Dê uma chance para entender a pessoa, ver como ela se porta e aí realmente julgar se de fato o jeito de falar dessa pessoa te incomoda. E sabe do que mais? Se a resposta for “sim, me incomoda”, não leve desaforo para casa. A melhor maneira de resolver os problemas é conversando e tem coisa melhor que uma conversa honesta e sincera em que você pode expor todas as suas opiniões e se entender de uma vez por todas?

“Ok, eu entendi. As pessoas são sinceras, isso dói, eu tenho que aceitar e pronto?”. Não se desespere, agora vem a regra de ouro: você não é obrigado a gostar dessa maneira de ser, mas precisa saber que aqui é assim que funciona. E, sabendo disso, você vai conseguir transitar pelos ambientes, conversar com pessoas e não se estressar por coisas pequenas com muito mais facilidade. Os seus olhos cansam de se arregalar o tempo todo e depois de um tempo vira tão normal que você responde “ok”. Ah, essa é outra coisa.

Aqui se você pergunta se uma pessoa está bem, não espere ouvir “nossa, estou maravilhosa, sucesso absoluto, que dia!”. Se a pessoa está muito bem ela diz “estou ok”.

Como sobreviver a essa resposta? Hoje em dia no meu vocabulário “ok” significa “demais”. Isso faz meu coração mais feliz.

Tenha sempre em mente: não é pessoal, é só diferente!

Se você já passou por uma situação desse tipo “sem papas na língua”, deixe seu comentário aqui! Bedankt en tot ziens!!

2 Comentários

  1. Aqui na Estônia é igualzinho, haha! As vezes penso que já me acostumei, mas acho que tem hora que a gente até se surpreende com a sinceridade, né? Mas também aproveito para ser mais sincera também, dizer tudo na lata! (sem ser grosseira, claro.) Parece que eles gostam! 😀

  2. Sucesso! Gostei muito do seu poder, Rô! Já vivi não pele situações similares com nossos amigos holandeses e concordo: não é pessoal, apenas diferente! Saudades de você! Beijo

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