EUA – A política do Fast-Fashion norte-americano e suas consequências

0
234
Advertisement

Então é Natal, outra vez! Junto com a data, vem também aquela longa lista de presentes que geralmente compramos para amigos, familiares e colegas de trabalho. Nos Estados Unidos, conforme explicado nesse texto sobre o Thanksgiving, a temporada de compras natalinas é oficialmente aberta no Black Friday, e os descontos e promoções a partir da data são tantos que, por menos consumista que a pessoa seja, se torna quase impossível resistir à tentação de aproveitar a época para fazer as compras do Natal. Marcas norte-americanas como a Forever 21, Aeropostale e American Eagle, além das europeias, também muito populares por aqui, H&M, Zara, Mango, Topshop, dentre muitas outras, estão entre as que mais vendem nessa época do ano devido aos seus preços extremamente atrativos! E é aqui, senhoras e senhores, que começa um problema que poucas pessoas se dão conta de que existe e de como contribuímos diariamente para o seu aumento: as consequências da política do “Fast-Fashion” norte-americano!

Fast-o quê?

Fast-Fashion, igual ao termo Fast-Food! O Fast-Fashion nada mais é que uma filosofia de fabricação de roupas e consumo que surgiu nos EUA na década de 1980. A ênfase está na otimização de certos aspectos da cadeia de abastecimento para estas tendências, isto é, roupas que são concebidas e fabricadas de forma rápida e barata, permitindo que o consumidor convencional possa estar sempre comprando roupas atuais a um preço baixo. Estudos mostram que, em meados da década de 1980, quando este o Fast-Fashion começou, os norte-americanos compravam 5 vezes menos a quantidade de roupas que consumem atualmente. E isso foi na época em que o famoso American Dream estava a todo o vapor e o poder aquisitivo do norte-americano era mais alto do que é atualmente! Hoje, os norte-americanos importam, de países como a China, mais de 1 bilhão de peças que são vendidas em lojas que seguem a política do Fast-Fashion. Atualmente, uma peça de roupa nos EUA, tem, em média, uma “vida útil” de apenas 35 dias. Sim, 35 dias!

Fonte: Ecouterre.com

Para responder a uma demanda tão agressiva, a indústria têxtil teve que se adaptar. Deixamos de usar peças de linho, couro e denim (jeans) puro, e passamos a vestir peças de algodão mais barato regado a muito agrotóxico, fibra de poliéster ou de nylon. Para isso, precisamos destinar cerca de 70 milhões de barris de petróleo anualmente para produção de fibra de poliéster que, atualmente, é o material que mais compõe nossas roupas. Com essa quantidade de petróleo, a indústria chega a produzir aproximadamente 150 bilhões de peças por ano. O problema é que cada peça de fibra de poliéster produzida leva até 200 anos para se decompor. Uma família norte-americana joga fora, em média, mais de 30Kg de roupas por ano. Se multiplicarmos esse valor pelo número de famílias que residem nos EUA, chegaremos a um total de mais de 10 milhões de toneladas de roupas descartadas anualmente. O que fazer com tanta roupa descartada? Pagamos pouco pelas peças de roupa em si, mas pagamos caro pelas consequências que acompanham o nosso alto consumo a “precinho de banana”.

Aumentamos o consumo do petróleo, de gases emitidos para transformar esse petróleo em poliéster, aumentamos a quantidade de agrotóxico utilizado nas plantações de algodão, poluímos rios jogando todo tipo de resíduo da indústria têxtil, destruímos pouco a pouco a indústria apicultora, que não consegue mais polinizar plantações devido às toxinas das sementes, e por aí vai. A alta velocidade desse consumo exacerbado não contribui negativamente apenas contra o meio ambiente, mas também para a exploração de serviços. Algumas empresas chegam a pagar menos de US$ 1,00 por dia para trabalhadores em países como Bangladesh, China, Vietnã, Camboja, dentre outros. São milhões de pessoas que trabalham em um regime de semi-escravidão, dia após dia, costurando as nossas blusas, calças, vestidos e shorts para que possamos comprá-las e descartá-las dentro dos próximos 35 dias… Queremos sempre mais. Mais produtos, de forma mais rápida e mais barata. E depois? Bem, depois pensamos nisso, certo?

E esse problema tem solução?

Ainda tem. Com a pressão de grupos ativistas que se dedicam a questões ambientais e/ou de direitos humanos, algumas marcas vêm criando campanhas de reciclagem de roupas e as chamadas coleções sustentáveis. Locais como a rede Goodwill, nos EUA, além dos brechós independentes, estão sempre aceitando doações. Quanto às coleções sustentáveis, as empresas vêm estimulando a criação de peças geralmente fabricadas com materiais orgânicos e “fair-trade”, ou seja, livre de exploração.

Nos EUA também vêm ganhando cena as campanhas virtuais que incentivam a troca de roupa entre blogueiras e fashionistas, ao invés da compra de peças novas e descarte de peças antigas. Uma pessoa separa peças de roupas que ainda estejam em bom estado, mas por algum motivo já não a queira mais, e envia para alguém que tenha interesse. A pessoa que receber essas peças irá fazer o mesmo. Desta forma, há mais troca e menos desperdício. Um desses programas se chama Hauternative, uma mistura das palavras haute (palavra francesa usada aqui para se referir à alta costura ou moda em geral) e alternative (alternativa, em inglês), ou seja, uma alternativa para as suas roupas. O Hauternative foi criado pelo movimento “Fashion Revolution”, um dos grupos que vem incentivando esse desaceleramento de produção e consumo da indústria têxtil. Este ano, houve, inclusive, a primeira Fashion Revolution Week da história. Nenhuma peça de roupa utilizada no desfile era de nova. E foi um verdadeiro sucesso!

Existem também empresas e start-ups, como a ThredUp, que funcionam como lojas virtuais de peças de segunda mão, ou até mesmo a Rent The Runway (já citada neste artigo aqui), onde, ao invés de comprar uma peça, o cliente pode alugar por um período de tempo e devolver. É só fazer o cadastro no site ou no aplicativo dessas empresas.

As alternativas existem, basta se conscientizar de que o problema existe, ter boa vontade e procurar a solução que melhor se aplica a você. O importante é contribuirmos de forma positiva de alguma maneira.

Deixo aqui um vídeo sobre o assunto para aqueles, que assim como eu, eram cúmplices da política Fast-Fashion, mas aprenderam sobre as consequências perigosas dessa filosofia e decidiram contribuir de forma positiva para o meio ambiente. Quem quiser saber mais, por favor, assista ao vídeo de Elizabeth Cline, autora do livro “Where Does Discarded Clothing Go?” (Para onde vão as roupas descartadas?)

Deixe um comentário

Por favor inclua o seu comentário
Por favor escreve o seu nome aqui