Finlândia – A Cultura de Consumo: Parte 1

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Já é do conhecimento de muitos que a Finlândia apoia o desenvolvimento sustentável, mas o que também se sabe é o quanto o mundo em regra é consumista. O consumismo é geralmente interligado a um modo de vida que mostra status, em que normalmente se adquirem produtos supérfluos que, de certa forma, geram prazer e felicidade.

A cultura do consumo desenfreado tem agredido o meio ambiente de forma brusca, pois quanto mais se vende, mais se utilizam recursos naturais que nem sempre são renováveis. Através dessa cultura, também se criam patologias comportamentais nas pessoas, pois são instigadas a ter a necessidade de seguir padrões e a terem sempre o último produto da moda. É como uma bola de neve que não para de crescer, pois faz com que as indústrias tenham que desenvolver novidades a todo momento, as pessoas a comprarem sempre o último lançamento e a gerarem mais lixo que não tem mais lugar para ser colocado.

Hoje em dia, existe o conceito de slow fashion que nada mais é que um movimento inspirado no slow food para incentivar o consumo consciente. O termo foi criado em 2008 pela inglesa Kate Fletcher, uma consultora em design sustentável. Esses termos de slow/devagar demonstram uma realidade que o mundo atual enfrenta ao perceber que é necessário diminuir o ritmo de consumo em geral para salvar o meio ambiente e, consequentemente, a nós mesmos.

Mas, por que falei sobre isso? Bom, é que quando resolvemos nos mudar, sabíamos que teríamos que mobiliar uma nova casa e queríamos ter uma estimativa de quanto isso iria nos custar, além da preocupação com o conforto no nosso novo lar. Começamos a pesquisar e, ao entrar em diversos grupos relacionados à Finlândia, descobrimos uma cultura muito forte de venda de segunda mão. São inúmeros ‘mercados de pulgas’, brechós, grupos de Facebook, empresas online e organizações não-governamentais por todo o país.

Para entender um pouco de como se formou a cultura de consumo daqui, precisei pesquisar bastante já que não conheço muito sobre a história! Acabei descobrindo que o país foi muito pobre até a década de 80 e que vivia basicamente da economia camponesa, que vem a ser o consumo apenas daquilo que é necessário e que se baseia na produção simples de mercadorias, pois se produz aquilo que será consumido. Também descobri que tiveram influências da religião Luterana, pois esta desaprova o uso desnecessário do dinheiro e a extravagância em si.

Até a década de 70, também havia níveis baixíssimos de industrialização. A Finlândia nem sempre foi esse mar de rosas que as capas de sites no Brasil adoram estampar. Sofreram muito com a pobreza e também com a falta de recursos naturais. Portanto, era preciso encontrar soluções em como desenvolver a sustentabilidade e a Igreja Luterana foi uma das maiores defensoras da universalização da educação e também da inclusão das mulheres no trabalho. Sempre acreditaram que para melhorar o país, era necessário educar toda sua população e, eram tão convictos nisso que, mesmo antes da independência do país, impuseram dois pré-requisitos para quem quisesse se casar na Igreja: deveriam ser batizados e alfabetizados.

Assim sendo, a influência religiosa em conjunto com a situação do país na época e a escassez de recursos, principalmente devido ao clima, incentivou o desenvolvimento sustentável.

Com essa pesquisa inclusive, me dei conta de como mantiveram seu idioma mesmo as escolas ensinando apenas sueco por muitos anos. Como a maioria da população era camponesa e a Igreja era a responsável por alfabetizá-la em finlandês, conseguiram manter vivo seu próprio idioma!

Portanto, trazendo toda a história para os dias de hoje, a Finlândia melhorou muito economicamente e mesmo passando por uma crise no momento, o perfil do consumidor continua sendo diferente de vários outros países. São pessoas que não se prendem aos modismos e só adquirem um produto se precisarem ou se acharem que tem melhor custo-benefício. E não é uma questão só de preço. A maioria se preocupa de onde vem esse produto, em como foi feito, se afetou uma sociedade ou o meio ambiente. É uma questão maior por trás de uma simples compra e está tão dentro de suas rotinas que o comércio de Fair Trade tem crescido cada vez mais aqui.

Vejo isso também pela falta de marcas disponíveis no mercado. Ao chegar, e me deparar com o fato de que para alguns produtos existe uma quantidade mínima de concorrentes, foi bastante espantoso. No Brasil, temos milhares de marcas para tudo que se pode imaginar. São marcas nacionais e estrangeiras que abrem lojas e mais lojas país afora. Porém na Finlândia, não existe mercado para toda essa variedade e, com isso muitas marcas grandes, infelizmente, não chegam até aqui.

Voltando ao consumo de segunda mão, essa consciência que eles têm faz com que valorizem a reciclagem de mercadorias através da venda ou doação das mesmas. Existem duas redes de lojas que são muito famosas: a UFF e a FIDA. Na região de Helsinki, ainda também temos o Kieratyskeskus que na tradução significa Kieratys = Reciclagem e Keskus = Centro, ou seja, é o Centro de Reciclagem. Falarei sobre eles no nosso próximo post!

Confesso que no início, eu tinha um pouco de estranhamento ao pensar em comprar produtos usados. No Brasil, eu ainda tenho lojinhas em alguns sites aonde vendo minhas roupas e onde praticamente vendemos tudo da nossa casa, além dos bazares que fizemos.

Hoje, ao lembrar desse estranhamento sinto até vergonha. Eu que sempre fui adepta a reciclar coisas, que tenho uma preocupação com o meio ambiente, como o consumo orgânico e local! Como não aceitar que a compra de roupas ou coisas de casa não pode ser para mim também?

É engraçado parar para analisar e descobrir que, mesmo acreditando não ser consumista, nós temos a cultura do consumismo embutido em algum lugar. É algo que faz parte da cultura do brasileiro e o fato de ter um certo preconceito em comprar coisas usadas, penso ser porque nós simplesmente fomos acostumados a ter o novo e é como se ter algo usado fosse uma vergonha.

Aqui ninguém tem esse preconceito. Todo mundo tem coisas novas e coisas usadas em suas casas. Nas lojas como a FIDA, UFF e até no Kyeratyskeskus, ninguém doa aquela roupa rasgada já em mau estado ou aquele utensílio que não tem mais uso. Doam aquilo que ainda pode ser muito útil ao próximo e o que gostariam de encontrar nas lojas para comprar!

Eu percebo que já existe uma mudança grande de pensamento no Brasil. Temos muito que aprender e nos desprender ainda, mas apesar de todo o meu receio inicial – e até confesso que era preconceito -, sou grata por estar inserida em uma cultura que preza a filosofia sustentável.

Muita gratidão às pessoas que compraram alguma coisa da nossa casa no Brasil. Porque, sinceramente, hoje vejo que não importa se esse produto é usado. O que importa é girar a energia que eles carregam, sempre focando que dessa energia nos ajudamos, ajudamos o próximo e o planeta!

Gostaria de aproveitar e agradecer a minha colega de BPM Maila-Kaarina que com sua sensibilidade e conhecimento sobre a história, me ajudou a construir um artigo muito mais rico!

Um beijo e até mês que vem!

2 Comentários

  1. Muito bom! É isso ai, bem o q vc falou mesmo!
    Adoro essa consciência, esse sistema onde quase tudo é possivel ser reciclado, reproveitado; reutilizado. Essa cultura onde não se tem problema algum em doar, vender, receber coisas de segunda mão; eu mesma na minha casa aqui não tenho NADA novo, tudo foi / veio doado, reciclado ou comprado de segunda mão e tenho orgulho de dizer isso.
    Temos ainda muito pra eveoluir e aprender no Brasil nessa area e nessa postura do só o novo é bom.
    Obrigada por escrever esse artigo. Abraços.

    • Oi Aime! Que legal, fico feliz em ver que outras pessoas compartem do mesmo pensamento na prática! Eu achava que tinha essa consciência bem estabelecida na minha cabeça quando estava no Brasil e fui perceber aqui, quanto receio eu ainda tinha a respeito disso! Ainda bem que sempre temos a oportunidade de refletir e melhorar, né?! Muito obrigada pelo carinho! Um beijo!

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