Finlândia – Por que fiquei 5 anos sem ir ao cinema

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Este mês não escrevo exatamente sobre a Finlândia, mas sobre as mudanças radicais que acontecem quando decidimos recomeçar a vida, sobre o tempo que passa, o que se deixa para trás, o que se conquista. Um texto para você que sonha em imigrar e para você que já imigrou, não importa onde esteja.

Não decidi sair do Brasil por ter uma vida ruim. Apesar de minhas questões pessoais (já escrevi sobre isso aqui), eu tinha uma carreira estável. Trabalhava com três coisas que amava: era musicista, professora de inglês e editora-chefe de uma webmagazine. Minha rotina era normal: dar aulas, fazer shows e ensaiar com as bandas nos finais de semana, cobrir alguns eventos pela cidade, fazer entrevistas e escrever artigos. De duas coisas não abria mão: cervejinha com os amigos nos finais de semana livres e de ir ao cinema sempre que possível. Sempre amei cinema e costumava ir quase toda sexta-feira numa sessão à tardinha, sozinha mesmo, em algum cinema pelo centro da cidade, perto de onde eu dava aulas.

Em 2009 me mudei para a Finlândia para uma cidade pequena onde o cinema era uma das poucas opções de lazer. Mesmo assim passei meio ano sem ir porque era estudante e tinha uma renda bem baixa. Dividia um apartamento de quarto e sala com meu irmão; estávamos ambos no programa de adaptação do governo (leia mais sobre isso aqui) e recebíamos, exatamente, depois dos impostos, 620€ por mês cada um. Tínhamos o suficiente para pagar por nossas necessidades mas não sobrava muito. Eu preferia trocar o que gastaria no cinema economizando para ir a um show ou festival de música.

Estava na Finlândia há 6 meses quando conheci meu marido. No início do relacionamento o cinema era um programa que fazíamos sempre que possível. Voltei a rotina!

foto: finnkino.fi (o maior e, considerado por muitos, melhor cinema da Finlândia, em Helsinque)

O primeiro ano depois do fim do curso foi bem ruim. Deixei de ser estudante para ser desempregada e passei pela frustração de viver em uma cidade onde nem para serviços de limpeza me contratavam. Meu finlandês ainda não era bom o suficiente e é fato de que, na Finlândia, isso é um problema sério na vida de todos os estrangeiros, principalmente dos que moram em cidades pequenas. É quase impossível ser escolhido para um trabalho se você falar mal o idioma; mesmo que você seja o melhor candidato, mesmo que todos na empresa falem inglês fluentemente. Há exceções, principalmente na área de TI, mas para um pobre ser de humanas como eu, é muita cara na parede.

Em 2012 decidimos nos mudar para a capital. Meu até então namorado (nos casamos em 2013), em 10 dias conseguiu emprego na área dele. Eu, cento e tantos currículos enviados depois para cargos condizentes com minhas formações e experiência, arrumei um trabalho na feira, vendendo morangos. Fiquei tão feliz por conta da frustração de ter passado praticamente dois anos recebendo apenas “nãos”, que encarei minha nova experiência como feirante muito bem. Mas não dizem por aí que tudo o que é bom dura pouco? Pois é, essa carreira durou exatos 10 dias.

Fiz a besteira de falar sobre sobre minha experiência profissional numa conversa com o marido da dona da barraquinha. Claro que ele encarou aquilo como um sinal de que eu estava em busca de algo melhor e me demitiu alegando que eu era educada demais para trabalhar ali.

Fui embora me sentindo um lixo. Entrei num prédio público que ficava em frente à praça da feira, fui ao banheiro, me tranquei lá e chorei por 45 minutos contados no relógio. 4 anos numa faculdade de filosofia, 3 anos numa escola profissionalizante de música, 4 anos numa faculdade de Relações Internacionais, 7 anos como professora de inglês, 17 anos como musicista e 6 como editora chefe de uma webmagazine para quê? Para a primeira demissão de minha vida ser num trabalho como feirante.

Frustra qualquer um, não frustra?

Pois é. Questionei tudo. Foi certo largar minha vida? Aqui é o meu lugar? Devo voltar pro Brasil? Devo tentar outro país? O que fazer? E agora, apaixonada por um cara daqui o que me resta? Virar dona de casa? E ele vai querer me sustentar pra sempre? Foram mais 10 noites mal dormidas, choradeira, muito questionamento até que, lendo um site de empregos encontrei o que mudaria tudo e daria sentido, finalmente, à minha opção de vir para a Finlândia: o trabalho que exerço hoje, na área das Relações Internacionais.

Até eu começar a trabalhar de verdade passamos muito aperto financeiro. Mesmo meu marido trabalhando e eu recebendo 500€ de seguro-desemprego, não sobrava para sair nos finais de semana, ir a cinema e essas coisas. Guardávamos cada centavo possível pensando em ter uma reserva mínima para, pelo menos durante o verão, podermos nos divertir um pouco nos festivais que tanto amamos.

Mas e minhas outras carreiras?

Depois de ter sido musicista por 17 anos no Brasil, pensar em começar do zero foi tão frustrante que eu nem tentei muito. Eu também queria ser mãe e não é fácil trabalhar com música, normalmente a noite, e ser mãe. Além do que, começando do zero demoraria bastante para eu adquirir alguma estabilidade financeira nessa área. A carreira de professora de inglês também não se mostrou nada promissora em um país onde 78% da população fala inglês.

Mas por que eu continuei sem ir ao cinema?

Depois de estar empregada claro que não foi por falta de dinheiro. Começar a trabalhar e iniciar uma nova carreira também demanda adaptação. Por um bom tempo, todos os dias, tudo o que acontece é novo. O final de semana é muito curto para tudo o que precisamos fazer: faxina na casa, lavar a roupa, ir ao mercado, fazer comida. Eu e meu marido só temos tempo para cuidar da casa nos finais de semana. Sábado e domingo no fim da tarde, depois que acabam as obrigações, tudo o que você quer é tomar um banho e relaxar. E confesso que Netflix e similares contribuíram muito para a nossa preguiça de sair nos finais de semana.

Além disso também teve o casamento. Pagamos tudo sozinhos, foi um ano de economia que também transformou o cineminha de fim de semana em algo supérfluo. E para completar, há dois anos tivemos um filho.

A hora de trabalho de uma babá é algo em torno de 20€ e 30€, o que torna uma ida ao cinema bem carinha. Nossos familiares moram em outra cidade e eu não tenho muita coragem, exceto quando é algo muito especial, de pedir para que amigas fiquem com meu filho. Acho muito incômodo pedir a alguém que abdique de um dia precioso de final de semana para cuidar do meu filho enquanto eu me divirto.

Mas em 7 de janeiro de 2017, 5 anos depois, finalmente nos demos ao luxo. Viajamos 100km para deixar nosso filho com a avó e mais 45 km para ir ao cinema. Foi maravilhoso e me fez muito feliz. Mas desde este dia até o que me sentei para escrever este texto, não parei de pensar em minha vida, em tudo o que conquistei nestes pouco mais de 7 anos na Finlândia, nas dificuldades e frustrações que tive, em quantas vezes chorei de felicidade, de tristeza e de saudade, no quão difícil foi o começo, tanto pela questão financeira quanto pelo deixar para trás uma carreira sólida e toda uma vida. Ao final deu tudo certo, me considero uma mulher feliz e realizada, conquistei exatamente o que busquei. Mas olha, não foi fácil e vou dizer que continuo sem saber quando irei ao cinema de novo…

10 Comentários

  1. Admiravel a sua resilencia e propositos pessoal e professional. Parabens Maila, mesmo ainda jovem voce tem uma historia de vida interessante para contar.

  2. Você é sempre um sucesso! Graças ao bom Deus aos poucos está conquistando seu espaço no mundo e se realizando na vida.
    Parabéns filhota amada você é meu orgulho em ser mãe.
    Beijos.
    Lilian Hostyn Riippa

  3. Que texto maravilhoso! Identifiquei-me com cada passagem, inclusive com a crise de choro em banheiro público. Tive uma trajetória parecida aqui na Dinamarca, e também me entristecia por ter que contar as moedas pra ir ao cinema, que no Brasil era meu programa favorito, até porque eu tive uma longa carreira de estudante e, consequentemente, um longo tempo de vantagem com a meia-entrada. Parabéns pelo texto!

  4. Uau, sempre soube que você era batalhadora e tinha conquistado tudo com muito esforço e sacrifício. Mas não imaginava que era tanto! Parabéns pela persistência e pela capacidade de manter a cabeça no lugar diante de tantas dificuldades!

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