Os desafios de ser vegetariana no interior da Catalunha

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Eu e meu marido somos vegetarianos, ou lacto-ovo- vegetarianos, para diferenciar dos veganos que não comem nada de origem animal. Morávamos em São Paulo e sempre foi muito fácil ser vegetariano numa das maiores metrópoles do mundo.

Quando decidi vir para a Espanha sabia que a culinária local era famosa pelas carnes, os embutidos e os frutos-do- mar, mas esse não era meu foco, sempre cozinhei muito em casa e comemos pouco fora, então fiquei tranquila. Além disso a prefeita de Barcelona declarou a cidade a primeira cidade Veg-friendly do mundo, e estava curiosa para ver isso.

Porém não vim para morar em Barcelona, vim para o interior, nos Pirineus, em uma cidade pequena, na fronteira com Andorra, chamada La Seu D’Urgell.

Aqui, onde se fala predominantemente o catalão, as carnisserias (açougues) com seus embutits (embutidos, salsichas e linguiças) estão por todos os lados, e a cultura de consumir muitas carnes é grande. Meu primeiro passo foi identificar os diferentes mercados e supermercados da cidade.

Essa base excessiva da alimentação espanhola nas carnes não me assustou muito pois
sei que não é preciso suplementar para ter uma alimentação vegetariana completa, basta que ela seja diversificada e inclua bastante leguminosas, cereais e algumas castanhas e cogumelos.

Há hoje em dia uma preocupação muito grande, e infundada, com a fonte de proteínas das pessoas com alimentação exclusivamente vegetariana.

Segundo a Sociedade Vegetariana Brasileira (fonte: publicação Tudo o que você precisa
saber sobre alimentação vegetariana, Dr. Eric Slywitch, página 5, subtítulo proteínas) todas as proteínas são compostas de aminoácidos essenciais e não há nenhum que não seja adquirido através do consumo exclusivo de origem vegetal, em especial de cereais (arroz) e leguminosas (feijões, lentilha, ervilha, grão-de- bico, etc). Além disso, para uma dieta balanceada, as proteínas devem compor entre 10% e 15% do total do volume calórico diário da pessoa.

Os moradores da cidade valorizam muito a compra de produtos locais e por isso a fonte de alimentos número um da cidade é a feira, conhecida como mercat, que acontece nas ruas principais do centro velho duas vezes por semana, pela manhã. Na feira é possível achar uma grande variedade de frutas e verduras, além de cogumelos e castanhas de vários tipos, queijos, mel e embutidos, todos de produção local, ou de regiões próximas.

Eu, que estava acostumada a comprar tudo nas feiras de rua de São Paulo, fiquei logo animada, especialmente porque moro na praça onde a maior parte das barracas de feira se encontra. Mas logo descobri que aqui as feiras de rua são consideravelmente mais caras que os supermercados. Os produtos são mais frescos e bonitos, mas a diferença de preço é sensível.

Por exemplo, um pé de alface na feira custa entre 1,50 e 3,00 euros, enquanto no mercado Dia encontro por entre 0,58 e 0,75 centavos de euro.

Existe também uma variedade de mercados, como o La Sirena, de congelados, que vende predominantemente carnes e os preços são um pouco acima do meu orçamento. O Dis-Seu, mercado local com preços definitivamente acima do meu orçamento, porém é o mais frequentado pelos moradores locais, além da feira. O Mercadona, hiper-mercado, instalado na cidade para atender o público andorrano, com algumas boas opções vegetarianas e o preço não é ruim, mas também não é o melhor.

Por fim, há um mercado Dia, rede comum por toda a península ibérica, e presente também em algumas cidades do Brasil, que é um mercado de baixos preços, com muitas marcas próprias. Desse mercado a existência é ignorada pelos locais e lá só encontro imigrantes, porém é o único que oferece preços adequados ao meu orçamento atual.

Por isso compro no Dia entre uma e duas vezes na semana e o custo de uma compra vegetariana para duas pessoas fica entre 15 e 35 euros, dependendo da quantidade e tipo de itens. Fiz o cartão Club dia, acessível para qualquer pessoa empadronada (cadastrada na prefeitura) na cidade, e que me garante alguns descontos extras.

Lá encontro uma boa variedade de alimentos, inclusive frutas e verduras, não tão frescos quanto os da feira, mas de boa qualidade e baixo preço, além de todos os itens secos, como grão-de- bico, lentilhas, feijões, arroz, macarrão, ervilha, couscous marroquino e outros grãos e cereais que são tão importantes na alimentação vegetariana.

No Dia encontro também uma boa variedade de leites vegetais, inclusive os de soja, arroz e amêndoas, marca própria com preços entre 0,60 e 1,30 euros o litro. Porém queijos e iogurtes de origem vegetal ainda não encontrei lá, e acredito que no caso de uma alimentação vegana, a disponibilidade na cidade ainda deixe muito a desejar.

Há inda uma pequena loja, Herbes i Coses, que mescla alimentos dietéticos, veganos e vegetarianos, cosméticos orgânicos e naturais, chá e cafés orgânicos e produtos que podem ser classificados de forma genérica como esotéricos, como pedras, alguns artesanatos, colares, e outros de inspiração oriental com um toque hippie. Lá foi o único local onde encontrei em boa variedade produtos veganos.

O preço é mais alto, mas não impossível. Um pacote com 2 hambúrgueres vegetarianos sai por 3,25 euros. Um leite vegetal varia entre 1,50 e 4,00 euros. Há ainda iogurtes vegetais, alimentos sem glúten e muita disponibilidade para dietas restritivas.

Uma coisa que me chamou muito a atenção aqui é a disponibilidade de frutas atrelada a sazonalidade. No Brasil, com o clima quente, e as técnicas agrícolas para produção de frutas em larga escala, inclusive para exportação, estamos acostumados a encontrar todos os tipos de frutas o ano todo, com pequenas variações de preço.

Aqui aprendi a comer apenas maçãs no inverno, e a fazer algumas conservas doces no início dessa estação para ter frutas ao final. No início da primavera as cerejas abundavam e comprava o quilo por 1 a 3 euros. No verão as melancias e melões de vários tipos se tornaram baratos e comuns nos diversos mercados e feiras. No outono espero as pêras.

Outro ponto é que por estar no interior e ter o hábito de fazer longas caminhadas e trilhas, encontro muitas frutas no mato. No final do verão já há algumas pêras e muitas amoras silvestres disponíveis.

No outono e início do inverno, antes da neve, encontrei muitas maçãs silvestres. Esse é um prazer que a vida num vilarejo de montanha me trouxe.

Por fim, o último desafio é o de comer fora. Faço isso pouco aqui, pois geralmente só encontro saladas e raramente alguma massa ou risoto como opção vegetariana. Opções veganas não encontrei nenhuma ainda. Mas em toda cidade, mesmo as pequenas, encontro os Kebabs, de imigrantes, onde sempre é possível pedir um falafel (feito à base de grão-de- bico), resolvendo assim meu problema de não querer cozinhar de vez em quando.

Eventualmente vou a Barcelona visitar amigos ou resolver pendências burocráticas e lá aproveito para comer algo diferente vegetariano.

Depois de quase um ano morando no interior da Catalunha posso dizer que manter minha alimentação vegetariana aqui não é nenhum bicho-de- sete- cabeças, basta um pouco de planejamento, conhecer melhor a cidade e estar disposta a adaptar meus gostos e hábitos à realidade e disponibilidade local.

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