Pergunta corrente no Oriente Médio: Cadê o seu marido?

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Aeroporto Internacional de Bahrain. E lá vamos nós...
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Eu sou completamente apaixonada por rodar esse mundo maravilhoso, cheio de experiências para se viver e morando no Oriente Médio já há alguns anos, sempre aproveito a localização central dessa região no globo para conhecer lugares que, provavelmente, se ainda estivesse vivendo no Brasil, não teria tanta facilidade para visitar. Nesses últimos cinco anos, tive a oportunidade de viajar bastante por essas bandas – algumas vezes em família, com toda a trupe do nosso quarteto fantástico, outras Eu, Eu-mesma e a Carla. E as minhas viagens solo sempre foram muito tranquilas… Até a minha ultima viagem à “progressiva” Dubai.

Tudo começou num dia como qualquer outro de verão, queeeente; eu no balcão do check-in do aeroporto internacional de Bahrain, meu ponto de partida mais comum. Apresentei o meu passaporte azulzinho e antes mesmo de emitir o cartão de embarque o atendente olhou pra mim com um olhar desconfiado e perguntou: “Madame, cadê o seu marido?”Aquela pergunta soou tão estranha pra mim que demorou pra cair a ficha. Como assim, “cadê o meu marido?”. “Meu marido está em casa, por que?” respondi eu ainda sem entender bem. “OK Madame, deixa eu chamar o meu supervisor.”

Eu logo pensei, “peraí, vai chamar o supervisor porque eu disse que o meu marido estava em casa?”, e já achei tudo muito, mas muito estranho. O supervisor veio e, visivelmente sem graça, me explicou que já que eu vivia na Arábia Saudita eu deveria viajar sempre na companhia do meu esposo. Daí eu repliquei dizendo que moro na Arábia Saudita há mais de 3 anos e já havia viajado várias vezes sozinha, inclusive algumas vezes para Dubai, e essa era a primeira vez que isso acontecia. Ele então me deu um formulário para assinar, onde eu me responsabilizaria se acontecesse algo na imigração de Dubai – como, por exemplo, eu ser impedida de entrar nos Emirados Árabes.

Eu assinei aquele formulário contrariada e fui a caminho do meu embarque pisando firme. Confesso que foi uma sensação muito estranha, ter que dar “satisfação” do porque eu viajava sem o meu marido. Como assim? Eu, balzaquiana, formada, pós-graduada, empreendedora e com dois filhos, lá não tenho a liberdade de viajar sozinha para onde eu quiser, como quiser, e com quem eu quiser? Eu sou a Carioca Travelando!

O mais estranho disso tudo é que, teoricamente, se eu tivesse que ter qualquer problemas na imigração, seria para sair de um dos países mais conservadores no que diz respeito às mulheres no mundo (Arábia Saudita), não ao entrar no país que é considerado um modelo de progresso, a meca do desenvolvimento na região. Pelo contrário, a minha saída da Arábia Saudita via táxi pela causeway foi a mais tranquila e normal possível, sem problemas.

Embarquei, tirei meu sagrado cochilo no avião e chegando na imigração em Dubai, era a hora da verdade: será que eu ia ser barrada, barrada no baile? Sendo residente da Arábia Saudita (dentre outros países na região), além de possuir o visto de residência, você precisa de um visto de múltiplas entradas – um visto que gera controvérsia na região e que te permite entrar e sair do país – e seu cartão de residente, aqui conhecido como iqama, uma espécie de identidade nacional, completamente escrita em árabe. Na imigração em Dubai o policial pediu como de praxe o meu passaporte e o meu iqama. Logo em seguida a pergunta que eu não queria ouvir: “Cadê o seu marido?” Eu pensei “Jura? Só pode ser um complô. De novo vai perguntar, cadê o meu marido?” Lá fui eu explicar a mesma coisa, que o meu esposo estava na Arábia Saudita trabalhando. E o policial: “e você, o que vem fazer aqui, sozinha, sem o seu marido?” Nessa hora o sangue ferveu, as unhas cresceram, preparei o pulo na jugular… Mas daí acordei do meu “daydream”, respirei fundo e prossegui a responder sua pergunta. Eu disse que estava indo à Dubai para consultas médicas e visita a amigos. “Go to the office now” disse o oficial da imigração. E foi assim, sem “please” nem nada, me sentindo a Sol da novela America, lá fui eu, “a mulher sem marido”, pela primeira vez na vida depois de mais quase 50 países, parar num escritório de imigração.

Chegando lá, adivinha qual foi a primeira pergunta que me fizeram? “Cadê o seu marido?” E como é de costume nas imigrações da região, expliquei pela centésima vez. Imaginem que eu já estava bem irritada, afinal não era a primeira vez saindo da Arábia Saudita e já viajei sozinha para muitos lugares a trabalho e lazer, sem contar que várias amigas viajam nas férias sozinhas com os filhos e nunca tiveram nenhum tipo de problemas, que eu saiba. Por que eu, Senhor, por que, meu Deus?

O policial pediu que eu apresentasse o cartão de residência do meu esposo e, claro, eu não carrego os documentos dele comigo. Lá fui eu ligar para o marido, que já estava de sobreaviso as três da madrugada para me enviar o ID dele. Após o policial ver o ID do meu esposo na tela do telefone, ele liberou a minha entrada no país. Até que enfim!

Como eu tinha renovado o meu cartão de residência poucos dias antes da viagem, penso que algo poderia ter mudado no documento, algo que restringisse viajar sozinha e passar por todo esse constrangimento desnecessário. O meu marido foi ao RH no dia seguinte e eles informaram que nada mudou. Enfim, não sei se foi algo específico da companhia aérea, minhas roupas, meus olhos não-verdes, ou simplesmente o santo que não bateu. O que sei é que foi uma situação chata demais, ter a minha liberdade questionada de tal maneira, sem motivos. A minha reflexão fica aqui, pensando naquelas que são desprovidas dessa liberdade não apenas por um momento, mas sim por toda uma vida. É para essas mulheres que dedico hoje o meu texto no Brasileiras pelo Mundo. Yes, You Can!

41 Comentários

  1. Caramba. Fiquei chocada. Claro que, morando onde você mora, você deve estar preparada pra esse tipo de pergunta e situação, mas como nunca tinha acontecido, é revoltante passar por isso, né? O bom é que você não perdeu a calma e conseguiu o ID do seu marido. Fico pensando se, por algum motivo, você não tivesse conseguido esse ID. Será que te mandariam de volta?

  2. Interessante Carla, e sempre foi ler esses “depoimentos”. Tudo pode acontecer mesmo e, infelizmente, não há muito o que fazer se não tuuudo que a imigração manda. Obrigada por compartilhar tua história!

  3. Oi Carla,
    Muito chata a situação e que bom que tudo se resolveu! 🙂
    Algumas mulheres ocidentais que tem essa liberdade não tem consciência da importância que isso é e é sempre bom lembrar!
    Bjim, Lyria

  4. Obrigada por dividir a sua experiência conosco e imagino a sua frustração, à qual tenho imensa empatia. Na verdade, o que mais me frustra nesses casos é a heteronormatividade implícita nos países árabes e o machismo. E se a mulher optou por ser solteira, daí não poderia viajar sozinha por ‘não se dar ao respeito’? Complicado. É impressionante, também, que a opção sexual de uma pessoa possa ser crime em alguns países do mundo. Não quero nem imaginar se fosse o caso de uma mulher lésbica…

    • Pois é Maysa. Quem vai para a Arábia à trabalho, no status de “solteira” (ou seja, sem levar a família), creio que não deve passar por essa situação. No meu caso, eu tenho o visto atrelado ao meu esposo, acompanhando a minha família, e assim como meus filhos, somos dependentes no visto – eu no caso, a esposa.

  5. Gente, que loucura isso né? Já passei sozinha pela imigração de Dubai e nunca me olharam feio…mas também é comum na Indonésia que os curiosos passageiros do seu vôo façam a mesma pergunta …

  6. Carla, conheço várias pessoas que já foram barradas em Dubai ou Abu dhabi! Não foi implicância com você não! Parece que para entrar sem marido você tem que ir com visto de turista e não com o visto de residente da região. Vai entender esse mundo louco! Que bom que deu tudo certo! Yes we can! Beijo grande!

    • Oi Thais queridona, pois é… como estou acostumada a viajar pela região sozinha e nunca tinha acontecido isso, achei que era implicância rs Ufa, ainda bem que passou. Obrigada pelo seu comentário 🙂

  7. Carla eu moro em Doha hà 10 anos ,sou guia de turismo por aqui e aconteceu comigo!Saí de Doha com minhas filhas ,carta e documentação do meu marido autorizando minha viagem desacompanhada(ou seja,sem marido).Embarquei mas cheguei em Abu-Dabhi,e ouvi a mesma pergunta .Cadê seu marido?Não tive nem como questionar porque ainda tive que ouvir que eu tinha que abaixar minha cabeça e não dirigir a palavra aquele senhor que muito mais do que eu,era do sexo masculino.Tivemos que dali mesmo voltar pra Doha.Olhei para minhas filhas que não entenderam nada daquele absurdo e me senti obrigada a conversar com elas sobre o “valor das mulheres”.Bjs.Erika Bechara.

  8. Carioca Travelando essa sua “cuca fresca” me impressiona. Levar essas situações na “esportiva” é coisa de ser muito evoluído. Ja vi gente dar piti feio, por muito menos. É muita yoga e meditação na cabeça. Ganhei o dia com seu texto!

  9. Ameeeeei seu post Carla, sou uma leitora fiel do seu blog mas não sou de comentar rs mas vim correndo quando vc falou no seu blog. Bom … ual eu sou fascinada por esse mundo chamado oriente médio, é um sonho ir e conhecer a cultura e a implicaçao de viver nela, claro que so como turista kkkk mas nao sei se saberia nao “bater de frente” quando perguntada e ainda desse modo. Infelizmente tem mulheres que nao sabem nem como é o ato de “levantar a cabeça.” Me aperta o coraçao pensar isso.

    • Oi Thais, assim como você, eu também sou fascinada pelo mundo árabe. Já são 5 anos morando na região e a cada dia me encanto e me surpreendo com a cultura. Que bacana você acompanhar o Carioca Travelando. Seja seja muito bem vinda. Agradeço a honra, muito obrigada!

  10. Oi Carla!!! Vc acredita que comigo aconteceu o mesmo? Só que eu estava acompanhada dos meus dois filhos e minha filha, que como comprou a passagem dela do Brasil pra cá pela Emirates o sponsor( pessoa responsável por vc enquanto vc está por lá) dela era a própria Emirates. Já eu estava voltando com eles de Londres e meu marido desceu em Dubai só pra trocar de aeronave pra voltar para Arabia, pois tinha que trabalhar!!!!! Como já havia entrado em Dubai achava que seria tranquilo. Qual não foi minha surpresa quando o homem na emigração me fez a mesma pergunta. Respondi que ele estava comigo até a pouco e que iria voltar pra trabalhar e eu iria visitar amigos em Dubai, tb me assustei qd ele falou com grosseria que meus amigos não eram meu sponsor e se o escritório não carimbasse eu teria que voltar dali mesmo. Eu tb fiquei roxa, mas minha filha botou panos quentes e pediu calma, fomos falar com eles e lá chegando o atendente chamou o chefe que depois de muita conversa deu o carimbo, mas com cara de que estava fazendo uma concessão muito grande, talvez por eu estar acompanhada de meu filho de 16 anos kkkkkkkk. Não foi só vc não amiga!!! Bjs já com muita saudades sua

    • Oi Diuliana,
      Até onde eu saiba, não existe um visto para você entrar na Arábia Saudita para se casar lá. Nesse caso, você teria que casar fora da Arábia Saudita (se você mora no Brasil, casaria no Brasil por exemplo), e aí sim, poderia entrar na Arábia Saudita e se casar novamente por lá. Para maiores informações, te sugiro entrar em contato com a Embaixada da Arábia Saudita no Brasil, que fica em Brasília.

  11. Mas que coisa estranha ;). E você ainda transformou, o que para alguns seria algo traumático, em algo hilário. Parabéns pelo “jogo de cintura” Carla. Virei fã!

  12. Morri! Vai mexer com Brasileira não! A gente “roda a baiana”, mesmo que seja só no pensamento. Amei a irreverência Carla! Seus textos são “uplifting”.

  13. Sinceramente?acho que o islam e o machismo deveria ser abolido do mundo pq quem sofre mais é nós mulheres 🙁 a mais uma coisa 🙂 faz videos um vlog no youtube contando da cultura na Arábia Saudita e etc seria legal vc teria muitos seguidores 😉

  14. Olá, será que ainda acontece isso? Eu fiquei preocupada agora, pois em 2017 eu estarei indo a Dubai, sou casada mas meu esposo ficará no Brasil, será que eu tenho que levar alguma documentação, ou autorização??

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