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França

A arte de viver bem na França

Antes de iniciar a leitura, proponho um rápido exercício de reflexão por alguns minutos. Feche os olhos e imagine que você mora na França. Agora vá adiante e pense como os franceses são no cotidiano. Mesmo que você nunca tenha colocado os pés na Europa, suponho que tenha um conceito formado sobre eles. E garanto, boa parte dos leitores pensará em atitudes arrogantes. Pois bem, infelizmente é um lugar comum rotular um povo, seja lá qual for sua origem a partir da opinião de outras pessoas. Generalizar toda uma população sob a ótica de pessoas que não ficaram mais que dois ou três dias em Paris, certamente não te fará conhecer a essência dos franceses, afinal, poucos dias não são suficientes para apreciar a simplicidade francesa.

Acredito que a crença de que franceses são metidos e arrogantes é facilmente confundida com a discrição e um particular patriotismo, desse povo tão hospitaleiro e gentil. Por todas as cidades que tive a oportunidade de conhecer, fui muito bem recebida, com toda a educação que muitas vezes não presenciei em meu próprio país.

Claro que saber falar o básico da língua francesa abre muitas portas, afinal, não conheço povo mais patriota que o francês. Ainda que você não saiba perfeitamente o francês, as pessoas, com raras exceções, são pacientes com suas falhas e procuram te entender da melhor forma possível.

O domínio da língua inglesa não é essencial caso você pretenda passar um longo período na terra do queijo e do vinho. Sinceramente recomendo priorizar o aprendizado e o aprimoramento da língua francesa, se o destino final for a França. Embora a língua inglesa seja importante para se comunicar em Paris, ao se afastar da capital o uso dela diminui consideravelmente.

A maioria das cidades francesas realmente não procuram se adaptar aos estrangeiros. Mesmo em Toulouse, que considero uma cidade de grande porte, a língua francesa domina. A segunda língua mais falada depende única e exclusivamente da região aonde você se encontra. Enquanto ao norte da França predomina o alemão, ao sul a língua espanhola é presente até em placas nas ruas e no metrô. image

Sou freqüentemente questionada se sei falar espanhol, além do português (embora alguns estrangeiros pensem que falamos ‘brasileiro’), já que acreditam que por ser brasileira, serei fluente em espanhol também.

Em relação ao comportamento social, o que me chama a atenção é a discrição dos franceses. As conversas normalmente se passam num tom de voz tão baixo que muitas vezes não consigo escutar o que falam, mesmo estando relativamente perto dos interlocutores.

O uso de redes sociais por aqui é completamente diferente do jeitinho brasileiro. Dificilmente você encontrará um legítimo francês que goste de expor sua vida excessivamente. A única maneira de conhecer bem um francês é convivendo de perto com ele. Só para exemplificar, já conheci uma mamãe francesa que deu luz à sua filha e não se deu ao trabalho de publicar uma única linha sobre o assunto em qualquer rede social. image

E se tratando de grávidas francesas, a maneira como lidam com o nascimento do filho é única. Até o bebê nascer, não sabem se é menino ou menina. Não porque não tenham tecnologia para isso mas porque optam por manter a surpresa até o momento do parto. Se você disser que no Brasil todas as mamães fazem o famoso chá de bebê antes do nascimento, a expressão dos franceses é de choque e confusão. Não entendem a razão de fazer uma festa antes do bebê de fato nascer. Perguntam com toda a naturalidade do mundo, como fica se o bebê não nascer, no caso de um aborto espontâneo. Certamente as mamães francesas não ganham presentes antes do nascimento do bebê, que vem ao mundo por parto natural, como regra geral; pois o governo francês determina que o parto só será por cesária caso a mamãe ou o bebê estejam em risco de vida.

Outra marca registrada dos franceses é a simplicidade nos fatos corriqueiros da vida. Em minhas caminhadas por parques e jardins, é muito comum ver festas de aniversários infantis acontecerem embaixo de árvores. Especialmente no verão, piqueniques são freqüentes, mesmo que não tenha uma data especial para comemorar. Mesmo casamentos, são festas simples, com a presença da família e de amigos próximos. Apesar de também comemorarem o dia das mães como no Brasil, os filhos presenteiam as mães com cartas e fotos de família, demonstrando todo o seu amor ,de uma maneira delicada.

A caridade às pessoas necessitadas é um ato corriqueiro, independente da idade. Dos mais jovens aos mais velhos, todos procuram se engajar em uma causa nobre. Oportunidades para se tornar voluntários são concorridas. Já presenciei uma sala lotada de candidatos a voluntários da Cruz Vermelha. A procura é tanta que existe uma certa dificuldade em se engajar efetivamente. Tamanha generosidade não poderia deixar de ter seus reflexos na economia francesa. A chamada economia colaborativa é extremamente forte. Caronas coletivas de uma cidade para a outra à baixo custo são comuns. Dentre os sites destinados a promover o encontro entre quem oferece e quem procura a carona, o mais popular é o BlaBlaCar. Da mesma forma, é possível alugar um quarto, um apartamento ou uma casa por alguns dias pelo site AirBnB. Outra possibilidade mais recente é dividir uma refeição, com ilustres desconhecidos através do site Cotable.

A filosofia de uma vida em comunidade é uma realidade francesa. Entendo que para nós, brasileiros, é difícil acreditar na naturalidade com que os franceses encaram essas situações, dispondo de seus bens materiais em favor do próximo, a custos baixíssimos. O fato é, a realidade é outra. Exatamente por isso é que é tão complicado convencer um brasileiro de que o ambiente aonde tenho convivido, envolve muita confiança e respeito, quando conheço profundamente a realidade de onde vim.

 

Outro fato curioso é a relação que os franceses tem com seu tempo livre, assim que você chega na França logo descobre que grande parte das lojas e mercados fecham domingo. Inimaginável qualquer semelhança com o Brasil. E que o horário de abertura e fechamento do comércio é respeitado à risca. Inclusive, na sexta muitos comerciantes fecham mais cedo. Rapidamente você aprende a programar sua vida dentro dos horários estabelecidos, sob pena de ficar sem ter o que comer no domingo.

Vale lembrar, que alguns minutos antes do comércio fechar nem permitem sua entrada no local, afinal, já estão fechando e não irão te atender naquele momento. A vida francesa exige uma organização mínima da sua rotina e conhecimento dos horários, já que não existe uma lei única que determine um horário padrão. Fim de semana e férias são sagrados para franceses. Você consegue imaginar uma floricultura ou um cabeleireiro fechado nas férias de verão? Pois aqui na França cansei de ver lojas e mais lojas fechadas, em razão das férias. Não existe funcionário sendo substituído em período de férias em muitos estabelecimentos. Simplesmente colocam um aviso na porta e saem, para aproveitarem seus momentos de descanso. Ao invés de estenderem o horário de trabalho por longas horas extras ou venderem suas férias em troca do salário, eles curtem seu tempo livre com a família e os amigos. É a contramão do que tem acontecido pelo mundo afora, quando as pessoas trabalham cada vez mais, deixando de ter tempo para seus próprios filhos.

Então, o que eles priorizam nas horas de lazer? É nesse momento que conhecem melhor a história do seu país, visitando museus e monumentos ou estão fazendo caminhadas com a família nas montanhas. Considere que a Europa respira história. Um europeu não precisa ir tão longe para mergulhar a fundo nos caminhos percorridos pelos antepassados. No sul da França as montanhas estão logo ali. Um rápido trecho de trem te deixa nos pés das montanhas.

A vida cultural e esportiva é muito rica. Boa parte da população não perde tempo em aproveitar todas essas facilidades. Em Toulouse, por ser uma cidade universitária, tem muitas atividades o tempo todo. O único trabalho que você tem é de se manter informado sobre as novidades.

Embora não sejam saudáveis, o fumo de cigarros é muito comum em qualquer faixa etária, mesmo na presença de crianças. Chega a ser contraditório pessoas tão sadias fumarem o tempo todo. Não estranhe se uma pessoa desconhecida te abordar na rua apenas para pedir um isqueiro emprestado. E de sempre acontecer isso com você, mesmo que você não esteja com um cigarro na mão e sequer seja fumante. Triste realidade.

Com um rápido passeio por qualquer cidade francesa é facilmente perceptível que as famílias francesas são numerosas. Não é raro um casal ter pelo menos três filhos. Digo pelo menos porque é comum por aqui famílias com cinco filhos. E todos com idades próximas. A pergunta que você se fez agora é: como sustentar uma família tão grande, não é? A resposta é que o governo francês oferece apoio financeiro para auxiliar na criação dos pequenos. Acredito que a intenção seja puramente de desacelerar o rápido envelhecimento da população ao estimular a formação de famílias desse porte.

Inevitável constatar que o simples ato de se envolver com a comunidade francesa foi o suficiente para discordar em grau, gênero e espécie, da imagem estereotipada que me apresentaram desse povo tão amável. O julgamento de qualquer pessoa sem nem ao menos conhecê-la impede o desenvolvimento de relações entre os diferentes através de uma convivência pacífica, que somente enriquece todos os envolvidos.

Cabe unicamente a cada um pensar por si mesmo, sobre todo e qualquer aspecto da vida antes de adotar como seu um posicionamento, que lhes foi imposto sem maiores reflexões.

Fotos: acervo pessoal

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11 comentários

Cintia Dezembro 14, 2015 at 7:57 pm

Adorei o texto Carolina. Acredito que quebrar estereótipos é muito importante, pois nos faz olhar um povo e sua cultura sob outra ótica. O que você relatou, é parecedíssimo com a Holanda. Abs

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Carolina van Heesewijk Dezembro 18, 2015 at 3:21 pm

Olá, Cíntia! Obrigada pelo comentário! Estereotipar um povo fecha sua mente para uma oportunidade maravilhosa de ampliar seus horizontes. Mesmo sendo holandesa, não tive muitas experiências na Holanda. Mas conheço bem minha família européia e posso afirmar que são adoráveis. Abraços!

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Regina Oki Dezembro 14, 2015 at 10:09 pm

Gostei muito do seu texto. Delicado, abrangente e esclarecedor. É impressionante a rapidez e a facilidade com que as pessoas julgam e rotulam o desconhecido, sem ao menos tentar desvendar por si próprias a verdadeira face de um povo. Lógico que cada indivíduo é único, mas é tão bom quando percebemos tantas boas qualidades no coletivo. Nada a ver com o texto, mas sabia de sua ascendência holandesa assim que vi seu nome, logo abaixo do título. Eu amo a Holanda, país que me acolheu tão bem e que chamo de lar. Um grande abraço!

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Carolina van Heesewijk Dezembro 18, 2015 at 3:16 pm

Ola, Regina! Muito Obrigada! Fico realmente feliz que tenha gostado do texto. Concordo quando você fala que cada pessoa é única. Exceções certamente podem existir, mesmo no meio de um povo tão educado como o francês. Realmente meu sobrenome é tipicamente holandês, fácil de identificar para quem já conhece a Holanda. Tive poucas oportunidades de conhecer melhor a Holanda, mas posso dizer pela minha família que são pessoas de bem. Abraços!

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sigonzaga5 Dezembro 14, 2015 at 11:46 pm

Carolina, eu amei o seu texto e concordo com tudo o que você escreveu sobre o povo francês. Eu tive a oportunidade de passar mais ou menos 1 ano em Paris e a minha experiência com o povo francês foi fantástica. Eu passei a admirar muito a cultura e o jeito que esse povo vive. Parabéns outra vez! Beijo

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Carolina van Heesewijk Dezembro 18, 2015 at 3:08 pm

Muito Obrigada pelo elogio!Em pouco tempo aprendi a amar o povo francês, bem como a respeitar seu jeito simples de encarar a vida. Continue nos acompanhando. Beijos!

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Elias Dezembro 18, 2015 at 2:10 am

Olá Carolina! Obrigado pelo post. Lembrei de ter sugerido esse tema para o blog. Seu texto realmente foge do que muitos brasileiros dizem sobre os franceses, pois muitos reclamam que eles são grosseiros e mal educados ao dar informações para os turistas. Você, que já mora na França, poderia explicar porque isso acontece? Será que os turistas também abordam os franceses de uma forma que eles não gostam? Que dicas você poderia dar para os turistas brasileiros que vão para a França pela primeira vez, e conseguir comunicar com os franceses (mesmo sem saberem falar francês) sem passar por grandes constrangimentos? Obrigado pelas informações.

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Carolina van Heesewijk Dezembro 18, 2015 at 3:05 pm

Ola, Elias! Eu que agradeço seu comentário. Estamos sempre abertas para novas sugestões de temas. No meu ponto de vista, os franceses são pessoas extremamente educadas, dispostas a desviarem do seu caminho para te ajudarem quando você esta perdida. Acredito que os franceses não exigem que os estrangeiros saibam falar a língua francesa com perfeição e sem sotaque. Digo isso porque considero o numero de estrangeiros residentes em território francês muito grande. E cada um tem um sotaque particular. Passei por varias situações em que meu francês não foi bem entendido e logo aparecia alguém disposto a me entender em inglês (ainda que nem sempre seja um bom inglês) ou mesmo em espanhol (já que esperam que brasileiros falem espanhol). Então, sugiro para turistas brasileiros que não dominem o francês que abordem os franceses com educação, se comunicando em Inglês ou espanhol mesmo, que certamente encontrarão pessoas amigáveis e gentis. Qualquer duvida, estou a disposição. Abraços.

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Paula Janeiro 3, 2016 at 9:34 pm

Moro em Besançon. Amei seu texto!! Parabéns!!!

Resposta
Carolina van Heesewijk Janeiro 3, 2016 at 9:53 pm

Olá, Paula! Fico muito feliz que tenha gostado do texto! Obrigada! Continue nos acompanhando! Abraços!

Resposta
Paola Setembro 14, 2016 at 11:20 pm

Acabei de voltar de Paris, e o que mais me
encantou, até mais mesmo que a beleza indiscutível da cidade,foi a simplicidade do estilo de vida do povo. Menos é mais! Aprendi muito com eles.

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