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O preço da ilegalidade na França

Dias desses estava numa padaria tranquilamente, quando uma cena me chamou a atenção: um senhor de idade avançada destratava, descaradamente, a funcionária que o atendia, pelo simples fato de que ela se negou a vender uma cerveja por um preço mais baixo do que estava sendo cobrado. Para encerrar a conversa, ele falou em alto e bom som que ela estava naquela função de atendente porque ela não tinha estudo. Pude observar que o cliente já era conhecido do estabelecimento, pois a própria dona do comércio reclamou que não era a primeira vez que ele fazia isso. Não pude, entretanto, deixar de notar como a moça que sofreu a ofensa se sentiu envergonhada por ter sido exposta daquela maneira sem necessidade alguma.

Após presenciar esse pequeno incidente, parei para refletir como as pessoas podem se propor a viver ilegalmente num país estrangeiro, mesmo tendo consciência de que estarão sujeitas ao desprezo e a uma qualidade de vida degradante. A ilusão das pessoas que nunca pisaram fora do Brasil chega a ser preocupante, pois não levam a sério os conselhos que recebem. Por mais que os noticiários recentes confirmem as dificuldades que imigrantes passam, diariamente, em terras estrangeiras, pensam que a história será diferente com eles.

 

Acredito sinceramente que ninguém mereça ser tratado sem respeito e consideração, independentemente da atividade profissional exercida ou nível social que pertença. Ocorre que, no mundo real, o preconceito está fortemente enraizado em toda e qualquer cultura, inclusive na cultura francesa.

Embora a migração faça parte da história mundial, quando pessoas partem de uma região para outra com a finalidade de se estabelecer em outro local, nada impede que a intolerância cresça vertiginosamente. Tal qual no Brasil, a França é um país conhecido por ter uma grande diversidade de povos. Ao frequentar cursos de francês como língua estrangeira em Toulouse, tive a oportunidade de conviver com pessoas vindas da Tailândia, da Alemanha, da Rússia, do Congo, de países árabes, da Espanha, do Sri Lanka, da Síria, de Bangladesh, de Kosovo, de Portugal, dentre outros países que somente conhecemos de ouvir falar. Seja em razão de guerras civis em seus países de origem, de uma transferência de emprego ou simplesmente para acompanhar a família, todos têm suas peculiaridades culturais, com as quais aprendi muito sobre a vida.

 

Entretanto, todos tinham algo em comum: haviam entrado legalmente na França. Muitos, inclusive, recebiam ajuda financeira do governo francês por serem refugiados de guerras ou de outras situações de risco. E não pensem que isso garante uma vida de facilidades, porque ainda assim as dificuldades de adaptação são muitas. A integração à sociedade francesa é gradual. Desde o aprendizado da língua francesa ao ingresso no mercado de trabalho formal, podem se passar anos.

Em razão da grave crise política e econômica pela qual o Brasil está passando, escuto com muita frequência a vontade que as pessoas têm de morar num país onde possam viver melhor. Porém, quando pergunto se pretendem entrar legalmente no destino escolhido, tornou-se comum a resposta de que entrarão como turistas, sem solicitar um novo visto para regularizar sua situação legal. Sempre aconselho a procurarem uma bolsa de estudos ou uma oportunidade de emprego que lhes garanta um visto de permanência no país estrangeiro.

Posso afirmar que morar no exterior não tem esse glamour todo que tantos procuram ao se aventurar em terras desconhecidas. Por mais problemas que nosso país tenha (e sei que não são poucos), o Brasil sempre será o país onde você possui mais oportunidades de subir na vida. Sinta-se acolhido em terras tupiniquins e abrace cada boa oportunidade para alcançar tudo o que mais deseja na vida. A real mudança começa conosco, não importa onde você esteja.

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15 comentários

Francisco Nobre Junho 13, 2016 at 5:45 pm

Sensacional Carolina. É por aí mesmo. Tenho diversos amigos e parentes que imigraram. Aqueles que foram ilegalmente e/ou que tinham baixa qualificação profissional ou educacional são os que mais sofrem e se arrependem. O tempo que estão no país estrangeiro é gasto 200% com a sobrevivência e mal tem tempo de aprender a língua. Os que foram legalmente e que tinham uma boa formação, garantem sua sobrevivência e conseguem manter um padrão de vida semelhante ao que mantinham ou poderiam ter no Brasil.
Enfim, o que aprendi é que, as oportunidades que existem por aqui, principalmente as criadas na última década, ainda tornam o Brasil mais atrativo para os brasileiros do que aqueles oferecidos no estrangeiro. É possível estudar, é possível encontrar uma colocação (desde que a pessoa esteja disposta a sair de seu bairro ou cidade ou estado, pois o país é imenso), é possível conseguir um moradia (para aqueles que se formam e garantem uma poupança morando com a família por um tempo), há mecanismos sociais que garantem transporte e saúde, mesmo para desempregados. São serviços ruins, com toda certeza, mas eles existem e estão à disposição (prova disso é que conheço diversos brasileiros que, mesmo morando fora, vem anualmente se tratar por aqui, alguns até utilizando o malfadado SUS). Para mim, a única justificativa para que eu decida pela imigração é a questão da violência urbana. Esse mal demorará para resolver, haja vista a degradação de nossas escolas e o descontrole estatal em nossas fronteiras (drogas e armas).

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Carolina van Heesewijk Junho 14, 2016 at 2:26 am

Olá, Francisco! Em primeiro lugar, agradeço sinceramente pela leitura do artigo. Concordo com seu ponto de vista. As dificuldades certamente serão imensamente maiores para quem não se prepara para a construção de uma vida no exterior, ainda mais para quem não se preocupa em legalizar sua situação. São tantos os fatores que levam os brasileiros a migrar para outros países. No meu ponto de vista, a violência urbana é o mais relevante. Após morar no exterior, senti o peso da violência no próprio bolso, porque limita nossa liberdade de ir e vir. Me vi obrigada a gastar mais com transporte particular, pois o medo nos impede de circular por lugares considerados perigosos, ainda mais em horários em que não há grande circulação de pedestres. Sua análise foi muito bem feita. Gostaria que mais pessoas tivessem a consciência que você tem. Abraços!

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Elias Julho 6, 2016 at 4:14 am

Olá, qual é esse curso que vc faz em Toulouse?

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Carolina van Heesewijk Julho 8, 2016 at 2:51 am

Olá, Elias! Estudei francês língua estrangeira em associações dedicadas a apoiar os estrangeiros, não só no ensino da língua, mas em assuntos cotidianos. O custo é baixíssimo ou sequer são cobradas as aulas, uma vez que são ofertadas por pessoas que prestam serviço voluntário, inclusive por professores aposentados. Abraços!

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Cristiana Mara Arnoni de Carvalho Silva Novembro 1, 2018 at 3:49 am

Olá Carolina, para conseguir visto os cursos que o consulado permite são os indicados pelo Campus France e são caros. Qual escola vc frequentou e foi através deste curso que vc conseguiu visto?

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Liliane Oliveira Novembro 2, 2018 at 1:23 pm

Olá Cristiana,
A Carolina van Heesewijk parou de colaborar conosco, mas temos outras colunistas na França que talvez possam te ajudar.
Você pode entrar em contato com elas deixando um comentário em um dos textos publicados mais recentemente no site.
Obrigada,
Edição BPM

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leila dos santos amorim Julho 7, 2016 at 6:08 pm

Muito bom seu post Carolina!

Uma pessoa desorientada (em qualquer sentido) aqui no Brasil será uma pessoa desorientada em qualquer parte do mundo. A mudança ter que vir de dentro!

Parabéns!

Leila

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Carolina van Heesewijk Julho 8, 2016 at 2:48 am

Obrigada pelo seu comentário, Leila! Fico realmente feliz que tenha gostado do artigo! Concordo com você! Não importa o lugar que estamos no mundo, a mudança precisa ser de dentro para fora! Continue nos acompanhando! Abraços!

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marco Setembro 18, 2016 at 1:42 am

adorei sua colocação , li uma reportagem que falava que hossegor era uma exelente lugar para se viver e pegar ondas e a saude publica era uma das melhores do mundo , fiquei muito interessado em partir para lacom a cara e a coragem , porem agora estou mais pensativo , alguem conhece como é viver em hossegor ou biarridez

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André Setembro 18, 2016 at 2:14 am

Estava pensando em entrar e ficar ilegal sob conselhos de amigos, mas lendo este artigo, me fez reconsiderar a ideia, pretendo só visitar agora

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kleber Outubro 11, 2016 at 3:07 pm

Oi Carolina, bom dia!

Parabéns pelo seu post, sensacional! Aproveito aqui para deixar um desabafo de um brasileiro que já morou na europa por 5 anos, e com imensas vontades de voltar. A minha vida não foi fácil quando criança, comecei a trabalhar com 14 anos, sou motorista profissional qualificado, só possuo faculdade da vida, eu tenho consciencia do que sou e a minha importância na sociedade onde vivo, o problema é que o país chamado Brasil não dá valor a essas pessoas como eu, portanto, imigrar e ser imigrante ilegal é uma opção vantajosa quando se tem o objetivo a educação dos filhos para que eles não passem pelas mesmas situações que estou passando. Brasil de poucos, europa também, humilhação por humilhação, procuro sempre o resultado final se vai compensar ou não. Já estou desgastado pelo tempo e pessoas, mesmo assim não desanimo, pois maior é o Deus a quem eu sirvo. Um abraço que Deus te abençoe e te guarde onde estiver,
kleber

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Simone Abril 21, 2017 at 4:18 am

Olá,me chamo Simone, fico um pouco constrangida no que vou dizer aqui. Minha família tão pouco sabe,mas a mais dê um ano conheci um estrangeiro aqui no Brasil,que é do país do Congo e que insistir em eu casa com ele para ajudá lo a ir para França.
Sou dê uma família muito humilde, com muita luta conseguir me formar em Serviço Social, mas com tantas dificuldades dê conseguir um trabalho como assistente social. .fico desanimada do Brasil. Sempre tive o sonho dê conhecer, aprender , e mora em Paris . E diante destas dificuldades que estou enfrentando fico ainda mais com este sonho em minha cabeça.
Este senhor do Congo, que pouco tempo eu conheci me disse que se eu poderia ajudar ele a ir para França, é que ele poderia me ajudar a ir para França também, mas que para eu poder ajudar ele teria que me casa com ele aqui no Brasil e assim ele consegui seu visto para ir para França.
Fico grilada com tudo isso. .pois posso se julgada e tudo mais pela minha família. .sociedade ao tá pensando em aceitar a proposta desse senhor.
Ainda não sei se terei realmente coragem dê me casar com este homem. .até pq pra ele ainda é um desconhecido. .terei e sempre tenho medo do que pode acontecer com minha vida se eu leva essa história pra frente.
Não sei. ..nao sei. .

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Paulo Maio 17, 2017 at 8:01 pm

Não faça isso, nao o conhece e se ele nao e cidadão frances como vai te ajudar ficar na França, saia dessa ilusão e fique com sua familia e lute em seu pais.

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Eriete Silva Maio 26, 2017 at 12:34 pm

Gostei, é verdade. À vida de emigrante não é fácil. Considero ilusão. Somos escravos fora de nosso país. Eu fiz muitas burra das para permanecer na europa. Casei com um portugues, fui Maltratada, humilhada, fuigi dele, senão me matava, fui agredida por ladroes, tive traumatismo craniano, fui sequestrada, vivi em abrigos, vim para França, fui traída por pessoas que considerava amigos, fiquei na rua, fui perseguida. Enfim, só tragedias. Agora, estou doente, sem tratamento, ilegal, sonho voltar para minha terra, mas não tenho condições financeiras. Será que vou morrer aqui? Não sei. Não aconselho à ninguém, sair de seu país, e ficar aventurando à tentar à sorte.

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maria Fevereiro 6, 2019 at 1:57 am

Dificil falar,eu nao moraria ilegal mas tenho compaixao por estas pessoas. Se essa mulher aturou esse desaforo foi pq as pessoas ao redor nao interferiram para ajudar outro ser humano. Se cada 1 de nos defendessemos os mais vulneraveis: deficientes, minorias etc.. nao teriamos cenascomo esta. A pior coisa eh o silencio de quem se considera bom,mas nao moveu uma palha para ajudar. Culpar a vitima eh facil,mas e defender ninguem quer ne. E se ela fosse surda>? se fosse idosa? todos se calaram… esse eh o ser humano. Desculpe a franqueza.

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