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A Copa do Mundo dos Bleus

A Copa do Mundo dos Bleus.

Paris, domingo, 15 de julho de 2018, 27 graus. Às 17 horas começava a final da Copa do Mundo deste ano. Depois de longos 20 anos de espera, os franceses voltaram a uma final de mundial.

A phase de poules, pra nós a fase de grupos

Lembro bem do primeiro jogo da França nessa Copa. Morno, sem muita emoção e sem muita comoção por aqui. Enquanto o jogo rolava e algumas pessoas assistiam, a vida ao redor continuava. Grande parte das pessoas não pararam pra assistir e das que pararam nem todas pareciam estar realmente no clima. Foi ali que entendi que eles não acreditavam muito. Aliás, eu também não acreditava. Ledo engano.

Confesso que, quando você é daqueles torcedores que cantam o hino do Brasil com emoção, roem as unhas e têm a impressão de estar com taquicardia durante os jogos mais difíceis da seleção (prazer, essa sou eu), é duro ficar indiferente às incessantes (e ultrapassadas) piadas dos franceses sobre a Copa de 98. Foi assim que eu e a torcida pelo futebol francês nos afastamos um pouco. Além de achar que faltava ginga no jogo deles e que faltava (e muito) carisma na torcida, sentia que ainda éramos pra eles os oponentes derrotados de 20 anos atrás.

Outras fases, outro fôlego

Os jogos foram passando, e a equipe francesa foi surpreendendo com integração e desenvoltura que não deixaram os torcedores indiferentes. Passada a fase de grupos, aos poucos começamos a testemunhar o efeito contagiante que o futebol tem. Paris foi se colorindo de bleu, blanc, rouge. Bandeirinhas nos carros, bandeironas nas sacadas, bandeirolas nos bares e blusas da equipe iam se multiplicando pela cidade. Ali comecei a sentir aquele climinha gostoso de Copa de Mundo que eu tanto gosto chegando.

Durante o jogaço contra a Argentina e com a vitória de virada por 4×3 dos Bleus (os azuis, como são carinhosamente apelidados os jogadores franceses aqui), confesso ter vibrado e pensado que faríamos um lindíssimo duelo jogando contra os eles. Pena que os belgas discordaram. Mas posso dizer que foi a partir desse jogo que eu e a torcida pelo futebol francês fizemos as pazes.

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É óbvio que não troco minha bandeira verde e amarela pela bandeira azul, branca e vermelha de ninguém, mas foi bacana sentir a energia dessas raras ocasiões em que as aproximações e comemorações são tão espontâneas e verdadeiras por aqui.

Apesar de todas as críticas aos escândalos de corrupção ligados ao futebol, à desonestidade de alguns jogadores e outros temas que saem da esfera estritamente esportiva, sempre tentei olhar o lado bom desse tipo de evento. Um esporte que é democrático, uma festa que une as pessoas, um momento de relaxamento, um sopro de leveza e alegria. Para os franceses também é assim. Embora os problemas a serem esquecidos durante uma competição futebolística sejam diferentes dos nossos, essa foi a ocasião de unir e aproximar pessoas, mesmo que por pouco tempo. Inclusive, um dos temas mais comentados depois da vitória foi a bela oportunidade de aceitação das raízes negras da França atual, contrária à postura xenofóbica de alguns cidadãos, bem como de figuras políticas. Ou seja, ocasiões assim nos permitem também debates necessários. Mas isso é tema pra um texto a parte.

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Semifinal, a euforia que antecedeu a vitória

No dia 10 de julho, uma terça-feira, 5 dias antes do confronto final, os parisienses decidiram fazer uma pausa na rotina da semana e tomaram os bares pra torcer pela chegada da equipe na última partida da competição. A vibração funcionou e, com um gol, a França venceu a temida Bélgica.

O que veio depois dessa vitória foi uma onda de comemoração que me deixou impressionada. Já tinha mencionado um pouco acima as demonstrações espontâneas de alegria e a união natural que surge desses eventos, mas mesmo assim não esperava a festa pós-vitória da semifinal. Não que seja surpreendente ver as pessoas vibrando com a chegada de sua equipe a um dos momentos mais esperados do mundo a cada quatro anos, o surpreendente foi vê-los tão felizes, de forma tão sincera, antes mesmo de terem sido proclamados campeões. Cheguei a brincar na internet que devíamos avisar a eles que a final ainda seria no domingo, porque as comemorações foram tão intensas que fiquei com medo de ter havido um mal entendido e eles terem achado que a taça já estava ganha. Pensei que eles deviam poupar a festa para domingo, mas eles escolheram não economizar orgulho. E acabou tendo de sobra pra os dois dias.

O fim de semana das festas nacionais

Eu achava, de verdade, que depois de tanta comemoração antecipada e depois de todos os jogos bonitos de ver que a Croácia tinha feito nessa Copa, os franceses corriam risco de passar uma daquelas vergonhas que marcam um país (vocês sabem do que eu estou falando). E, embora tenha laços aqui e tenha conseguido enfraquecer um pouco minha antipatia pela torcida francesa e a seleção deles, tinha de alguma forma um respeito carinhoso pela equipe croata. Sem falar que os primeiros gols da França não são bem o que eu considero gols de Copa do Mundo. Um gol de falta, um gol de pênalti… Legítimos mas sem a emoção e a garra que uma final exigem. Mas foi aí que eles, mais uma vez, mostraram que meu julgamento estava errado e surpreenderam. O terceiro e o quarto gols foram lindos e trouxeram a tão sonhada e esperada segunda estrela.

Depois de comemorarem, no sábado, a Festa Nacional, ganhar a Copa no dia seguinte, 20 anos depois daquela tão lembrada vitória em casa, foi de mexer com o coração de qualquer francês.

Fora as confusões e atos de vandalismo reportados por todo país (algo que, aliás, acontece em quase todos os lugares do mundo), o que se viu por aqui foi muita gente transbordando felicidade e orgulho. Foi a primeira vez que tive a oportunidade de compartilhar uma atmosfera tão leve e alegre com franceses que eu não conhecia. E dividir a felicidade, mesmo quando ela não vem de dentro do peito da gente, não tem preço.

Merci les Bleus! 

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