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A crise econômica na Argentina

A crise econômica na Argentina.

Na madrugada do dia 19 de dezembro de 2001, o então presidente Fernando de la Rúa decretou estado de sítio na Argentina. Aos poucos e de maneira espontânea o povo tomou as ruas do país e na Capital uma aglomeração de homens e mulheres, sem importar a idade, se juntou na Praça de Maio, em frente à Casa Rosada para dizer “¡Basta!”. O protesto foi duramente reprimido pela polícia e resultou no pedido de demissão do Ministro da Economia Domingo Cavallo, e depois na renúncia do Presidente, que saiu da Casa Rosada de helicóptero, numa cena a qual muitos argentinos fazem referência atualmente ao dizer, sobre o Presidente Macri: “melhor ir enchendo o tanque do helicóptero”. O texto de hoje fala sobre os reflexos dessa crise e algumas mudanças que aconteceram a partir dela, na vida dos argentinos.

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Como é

Primeiro aumentaram o combustível, depois a passagem de ônibus, a luz, o gás, o plano de saúde. Depois subiram as taxas de juros (que na verdade sobem de acordo com a inflação), o que tornou quase impossível comprar uma casa ou fazer qualquer empréstimo, seja para empresas ou pessoa física. Com os juros altos, tarifas tocando o céu e a desconfiança do mercado, muita gente ficou sem trabalho, aprofundando o caos social.

Já é perceptível o aumento na quantidade de gente vivendo nas ruas, indo aos bandejões para garantir pelo menos uma refeição no dia. Em qualquer reunião familiar ou de amigos, o assunto surge quase naturalmente e as pessoas estão muito sensíveis a esse tema por medo de que os níveis da grande crise dos anos 2000 se repitam. O comentário que mais escuto é que a crise é cíclica: por uns 5 anos está tudo mais ou menos bem. Há emprego e consumo. Depois, tudo se desequilibra e voltam as altas tarifas, o fechamento de fábricas, o desemprego e o aumento da pobreza. Logo, há uma melhora, o mercado responde e sobe o consumo.

Eu não sou uma especialista e minha intenção não é apontar culpados, até porque o que vivemos não é algo de hoje. Lendo um pouco de história argentina, me dei conta de que desde a época da colonização, o país sofre com péssimas políticas que, de tempos em tempos e somadas a vários fatores sociais e econômicos externos, vêm dificultando e muito a vida aqui.

Talvez o turista não sinta tanto esse golpe no bolso. Se este vem com Dólares, por exemplo, muito provavelmente vai ter as férias sonhadas porque o Peso despencou em relação à moeda americana. O resultado é que, se antes eu via poucos ônibus de turismo circulando, hoje, numa linda tarde de domingo e no espaço de 30 minutos, contei 8 deles lotados de turistas passeando por aqui. Isso é ótimo, mas sozinho o turismo não tem ajudado muito, exceto às pessoas que vivem dele. Aliás, turismo aqui é quase coisa para estrangeiro, porque passar uma semana no litoral, nas montanhas ou conhecer a neve está cada vez mais caro e longe da realidade do consumidor local, o que é uma pena porque o país não é só Buenos Aires e há várias cidades do interior que são lindas, com paisagens de tirar o fôlego e que oferecem serviço de primeira classe.

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O mal-estar é geral e até o Presidente já admitiu, em várias oportunidades, que estamos passando um mal momento. E o pior é que, toda vez que ele faz qualquer pronunciamento o Dólar sobe e junto com ele e mais imediatamente, o preço dos alimentos. Os comerciantes, muito desconfiados, aumentam o valor dos seus produtos pelas dúvidas de, talvez no outro dia, acontecer o pior. A maioria já passou por isso em 2001 e perdeu tudo de um dia para o outro. Os consumidores vão trocando de marca, escolhendo as de qualidade um pouco inferior à que estavam acostumados. O governo, bancos e operadoras de cartão de crédito fazem sorteios, oferecem financiamento em 12 vezes e estabelecem dias promocionais, mas nada disso tem adiantado para elevar o consumo.

Os principais centros comerciais estão cheios de lojas com placas de “fechado”, “aluga-se” ou “liquidação por fechamento de loja”.  O caso dos restaurantes é um ótimo exemplo de como as coisas mudaram: o argentino gosta de sair e jantar fora ou simplesmente ler o jornal desfrutando um cafezinho. É cultural e eu não tive nenhum problema em me adaptar a esse costume, haha… Mas, em momentos de crise, todo mundo sabe que o primeiro que se corta é o lazer, e essas saídas praticamente desapareceram. Assim muitos restaurantes estão sempre vazios e como consequência, encerraram suas atividades, deixando mais gente sem trabalho.

Fazer supermercado: um desafio
Fazer supermercado: um desafio. Acervo pessoal

Para completar o cenário, está o Brasil, que é o principal parceiro comercial da Argentina, mas também não está no seu melhor momento e isso tem um grande impacto aqui. Ao ponto de dizermos popularmente que se o Brasil espirra, Argentina pega uma pneumonia. Por favor, Brasil, se cuide!

O que fazer

Aqui tem um texto bem atual sobre como se defender dessa situação, eu diria, dramática, que estamos infelizmente nos acostumando a viver. E quando falo em se acostumar não quero dizer que cruzamos os braços e esperamos o milagre. Prefiro dizer que é resiliência, porque se tem algo que aqui não muda é a vontade que o povo tem de sair adiante.

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