A segregação na Arábia Saudita

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Fonte: Arquivo pessoal
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A segregação na Arábia Saudita.

A Arábia Saudita é um país Islâmico, aliás, o berço do islamismo, e tem toda a sua estrutura social desenhada pela Sharia. A Sharia é o conjunto das leis islâmicas baseadas a partir do Corão, que é uma espécie de “bíblia” deles e do Hadith, que é um livro baseado na vida do profeta Maomé, em como ele vivia e o que pregava.

A Sharia é uma espécie de Constituição, sendo as leis islâmicas a fonte da definição da legislação do país. Portanto não existe uma separação entre Estado e Religião, como no Brasil, por exemplo, em que as leis civis são uma coisa e as “leis” de cada religião que é praticada no país são outras. Num exemplo bem esdrúxulo, seria como se Brasil não tivesse uma Constituição, mas sim seguisse apenas os 10 mandamentos da Bíblia e aplicasse isso a todos os seus cidadãos, independente da religião que praticam.

Aliás, na Arábia Saudita é proibido a prática pública de qualquer outra religião que não seja o Islã. Isso não quer dizer, porém, que se uma pessoa tem outra crença, ela esteja proibida de morar aqui. O que não se pode é praticar outras crenças, isto é, não tem igrejas, sinagogas, templos etc.

Dito isso, uma das coisas que mais chocam os ocidentais numa cultura como essa é a segregação entre homens e mulheres que é praticada aqui no país, como manda a religião. É algo chocante para quem chega e curioso de certa forma ver essa movimentação.

É na adolescência que esses conceitos de segregação começam a ser aplicados, as crianças brincam juntas, estudam juntas, mas quando chega a adolescência as meninas vão para escolas exclusivamente de meninas assim como os meninos vão para escolas só de meninos. As faculdades também são segregadas e assim a vida segue, cada um no seu quadrado. A partir daí as mulheres só poderiam estar no mesmo ambiente com homens que são da sua família e manter distância de desconhecidos. Calma, não fique revoltada ainda pois vou contar como é a realidade mais abaixo.

Tudo é adaptado para dois ambientes: um ambiente de homens e outro de famílias. E o que é o grupo de família? Famílias são grupos de mulheres, mulheres desacompanhadas ou grupos de homens com mulheres junto (esposa, mãe, filha). Existem alguns ambientes exclusivos para mulheres, como as academias femininas ou setores de shopping onde homens não entram. E isso é muito forte e respeitado por aqui. É só dar uma volta que a gente começa a ver.

Nos restaurantes temos entradas diferentes para os dois grupos, muitas vezes ambientes distintos, por exemplo: em um restaurante o andar de baixo pode ser exclusivamente para homens e o andar de cima para famílias. Bancos e outras prestadoras de serviço que podem ter uma agência exclusiva para mulheres ou um caixa somente para elas. Algumas lojas de lingerie não permitem que um homem entre sozinho. Festas de casamento são separadas, tem uma festa para os homens e outra para as mulheres. E muitos outros exemplos que ressaltam como homens e mulheres não se misturam.

E isso bate de frente com a nossa visão de mundo, em que lutamos cada vez mais pela igualdade entre os sexos, aqui na sociedade saudita isso segue de uma forma conformada e exaltada muitas vezes.

Porém, para fazer jus à uma experiência real de quem mora aqui como expatriada, eu sinto a necessidade de pontuar que nem tudo é tão preto no branco.

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Recentemente as mulheres sauditas tem entrado no mercado de trabalho em um número crescente, e na grande maioria das empresas, precisam interagir com homens que não são de sua família. Atendentes de público também precisam falar com homens, afinal, como vender ou comprar algo se você não pode falar com o outro por ele ser um homem desconhecido?

Portanto quero frisar que a interação existe, é desencorajada pela segregação, mas ela precisa existir para o funcionamento da sociedade.

Muitas pessoas que só conhecem a Arábia Saudita pelas histórias sensacionalistas vistas nos noticiários acredita que as mulheres não podem fazer nada e nem olhar para os lados. Mas na vida real isso não é tão extremo. Existe um distanciamento sim, não é como no Brasil que você vai lá na vendinha do “Seu João” comprar açúcar e sai de lá sabendo toda a história da vida dele. Aqui elas não ficam batendo papo com estranhos, mas isso não quer dizer que não falem com eles quando precisam. E quando precisam falar não é o fim do mundo.

A grande maioria ainda é extremamente conservadora e relutam por exemplo com um ambiente de trabalho misto, por isso nas empresas as salas podem ser segregadas. Ao menos nas cidades maiores que são um pouco mais ocidentalizadas isso acontece.

Na minha experiência vivendo aqui, já vi de tudo. Já fui recusada de ser servida em um restaurante que não tinha um espaço designado para famílias, apenas serviam homens. Já sentei na parte designada para homens na praça de alimentação e à minha volta outras mulheres também estavam sentadas por lá, sem nenhum problema. Já fui convidada a trocar de fila pois estava na fila de homens e não na fila de mulheres ao lado. E também já passei na frente de todo mundo em um local que não tinha espaço exclusivo, só para ser atendida o quanto antes e não ficar na fila com os homens.

Enfim, ao menos onde moro e por ser estrangeira, sinto que algumas regras acabaram por se tornar um pouquinho mais flexíveis dependendo de alguns fatores.

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Nesses mais de três anos morando aqui, muita coisa já se tornou comum e já não me choca, mas parando para escrever sobre esse assunto e relendo o texto vejo como é absurda essa situação. Mas eu preciso também falar que de certa forma essa segregação traz muitos privilégios que as muçulmanas dentro da cultura, da crença e do que elas acreditam como certo ou errado, são vantagens e privilégios que elas não abririam mão.

Custa um pouco abrir a cabeça para entender o que o outro valoriza ainda mais quando bate de frente com tudo aquilo que você luta e acredita como o certo. Muitas vezes fiquei revoltada por esse tratamento distinto. E ainda vou ficar muitas outras vezes pois não vejo a mulher como mais frágil ou menos competente e não concordo com certos “papéis” sociais. Mas estou aqui de passagem e minha revolta é uma guerra perdida contra uma cultura muito forte.

E assim com as mãos atadas quanto ao que não posso mudar me resta tentar ver as vantagens que elas veem. Pois toda moeda tem dois lados e mesmo que você torça o nariz, é preciso estar ciente de que a segregação para quem está submetido à uma religião que prima pela guarda da mulher, ter espaços somente para elas é sinônimo de dar liberdade dentro daquele espaço em que elas podem ficar à vontade sem desrespeitar suas crenças, e o seu Deus.

A segregação deixa, de fato, as sauditas mais confortáveis. Isso é inegável. Para quem faz questão de cobrir a cabeça pois acredita fortemente que é a coisa certa a fazer, ter um lugar onde ela tem a certeza de que nenhum olhar masculino curioso vai incomodar é muito cômodo. Ter uma fila especial só porque você é mulher é muito conveniente.

Mas e para a gente, expatriadas, o quanto isso é bom ou atrapalha é bem relativo. Eu quero poder sentar na parte bacana do restaurante onde vejo a movimentação de pessoas e não num lugar fechado e escondido para que ninguém me veja, mas também não ligo tanto assim de ter que pegar uma fila diferente… a não ser que a fila dos homens esteja menor.

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