A Suíça que eu não imaginava

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Fonte: Pixabay
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A Suíça que eu não imaginava.

Se você já assistiu “o fantástico mundo de Bob”, não vai precisar de muita explicação. Se nunca assistiu vou te explicar qual a analogia que quero fazer.

Na animação, Bob, um menininho, cria na sua mente, um universo fantasioso sobre tudo que acontece.

Acredito que todos nós sejamos um pouco assim. Idealizamos relações, o futuro…

Claro que comigo não foi diferente. No meu texto Bye Bye Brasil, Bonjour Suíça aqui, eu falava do quanto seria tedioso viver em um lugar onde tudo funciona e todos os direitos das pessoas são assegurados, mas claro que foi uma piada. Quem não sonharia em viver ao menos por algum tempo em um lugar “ideal”?

Pois é… então eu, encarnando uma versão mais velha do Bob, coloquei na mente uma série de fantasias sobre o que seria a Genebra na minha concepção.

Fiz uma generalização tão ridícula quanto a de alguns gringos que imaginam a cidade de São Paulo repleta de orangotangos saltitantes (como no desenho dos Simpson’s).

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Para começar, mais da metade da população é composta por estrangeiros, o que segundo os locais, explicaria muita coisa, mas essa visão representa basicamente uma percepção da direita branca anti-imigrantista que insiste em banir e excluir expatriados e refugiados.

Dizem os suíços que Genebra é uma espécie de “quintal” que não representa o resto da Suíça. Pode até ser, mas alguns dos meus estranhamentos são também culturais e estruturais, o que portanto, não poderiam ser atribuídos aos estrangeiros que vivem aqui.

Na minha opinião, o mais importante dessa reflexão, é começarmos a questionar nosso complexo de vira-lata, que faz com que achemos que a grama do vizinho é sempre mais verde que a nossa.

Sim, aqui há um programa social excelente, previdência incrível e sistema de transporte fenomenal, mas olha só! Há muita coisa a ser repensada também.

Então vamos deixar tudo bem nítido por aqui. Não estou falando mal desse país encantador e acolhedor, de onde minha família tira o sustento. As falsas expectativas são minha responsabilidade, e os fatos que explicito são só uma humilde observação daquilo que não se fala sobre uma “Suíça perfeita”.

Bitucas de cigarro espalhadas: Aqui as pessoas fumam muuuuuuito! O que foi uma das primeiras coisas que me chamou a atenção. No Brasil temos uma das melhores políticas antitabagista do mundo, há uma preocupação grande em se proteger o fumante passivo. Aqui, em restaurantes, barzinhos, pontos de ônibus, em áreas cobertas ou não, o fumo é permitido. Tanto que nos pontos de ônibus existem cinzeiros compridos para que as pessoas coloquem ali suas bitucas. No entanto, sempre vejo montes de restos de cigarro espalhados pelo chão em volta das lixeiras.

Armas de brinquedo:  O Brasil baniu armas de brinquedo há anos. Isso faz parte de uma política de incentivo à Cultura de Paz e do enfrentamento à violência. Claro que isso sozinho, não resolve o problema da segurança pública, mas banir armas de brinquedo não diz respeito apenas à violência nas cidades, mas também às guerras e outras manifestações violentas. É um ato simbólico importante.

Lixo no ônibus: Caixinhas de suco, papel de salgadinho, maços de cigarro vazio e todo tipo de porcaria espalhados pelo chão dos ônibus e trens. Uma pena, porque os veículos seriam impecavelmente limpos, não fosse pela falta de educação de seus passageiros.

Cocô na rua: Um lado bom da Suíça é que todos amam cães, que podem entrar em qualquer estabelecimento e circular livremente nos transportes públicos. No entanto, nem todo dono de cão recolhe as fezes de seu animalzinho. Dependendo do bairro isso piora ou melhora, mas há ruas que são realmente ficam muito sujas.

Pichações: Eu nunca imaginaria pichações em uma cidade como Genebra, mas elas existem, e não diferem em nada das feitas no Brasil. Outro dia tive um trabalhão para explicar para a minha filha de 7 anos o porque de um pênis gigante pintado em uma parede.

Código de defesa do consumidor: Nem sei se existe ou não, mas se existe, “nunca nem vi”! Coisa mais comum do mundo é uma prateleira anunciar algo a dez francos suíços e na hora de pagar, ser vinte. Propaganda enganosa, e se não gostou reclama pro bispo, porque para o gerente não funciona.

Versão sofisticada de papelzinho no metrô: Sabe aquele pessoal que distribui papelzinho no metrô ou nos semáforos? Tipo: Sou surdo/pobre e preciso da sua ajuda? Aqui também tem. Mas o cara era jovem, muito bem vestido e em troca da ajuda, ao invés de jujuba, oferecia uma tartaruguinha de porcelana. Versão chique da pobreza.

Pessoas em situação de rua: Não imaginaria de modo algum que encontraria em Genebra tantos pedintes e pessoas morando nas ruas. São imigrantes e refugiados que se encontram pelas ruas enfrentando um frio de até -10 graus sem apoio necessário. Ao contrário, a maioria dos suíços olha feio para essa população que culpa nenhuma tem de viver desse jeito. Em época de eleição uma das promessas recorrentes de candidatos, é limpar a Suíça dos imigrantes.

No fim das contas, o mundo perfeito, perfeito não é.

Não por causa das bitucas de cigarro,do lixo no ônibus ou dos cocôs. Isso se resolve com vassoura e educação. A real enfermidade daqui é a xenofobia e desprezo pelos pobres e menos favorecidos.

Todo mundo vive bem?

Sim! No fantástico mundo de Bob. No mundo real, negros, latinos e árabes, comem o pão que o diabo amassou. Sofrem racismo e preconceito de classe.

Pois eu prefiro nosso pobre solidário que doa o que não tem, do que o rico que vive bem, obrigado, mas torce o nariz para quem não nasceu em berço esplêndido.

Prefiro ser brasileira e me orgulhar de ser um dos países que mais acolhe refugiados no mundo e que sabe dividir seu pouco com quem tem menos ainda.

Se o preço para o desenvolvimento é concentrar renda e não dividir as riquezas, de que tipo de desenvolvimento falamos de fato?

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Fabi é uma mulher de fibra, que carrega no coração o mundo inteiro. Jornalista e bailarina, tem mestrado em Educação, Arte e História da Cultura e é doutoranda em Antropologia, mas nem liga para esses títulos porque o que ela gosta mesmo é de estar no meio da moçada, promovendo Direitos Humanos e empoderamento popular. Atua com educomunicação e juventude desde que se entende por gente, e ganhou em 2015 o título de mulher inspiradora pelo coletivo feminista "Think Olga" que nomeia os destaques femininos em suas áreas de atuação. Fabi é consultora em comunicação e mobilização social e ja trabalhou para diversas agências das Nações Unidas, além do CDC de Atlanta, além de diversas ONGs e Fundos. Escreve para esse blog desde 2013. Ela tem rodinhas nos pés e asas nas costas. Talvez por isso alguns a chamem de fada. Não tentem descobrir de onde ela é, porque ela pertence a muitos lugares e ao mesmo tempo a nenhum. Essa aquariana de riso farto, tira leite de pedra por onde quer que vá. Saiu do Brasil para morar na Indonésia em pleno pós Tsunami sem falar nenhuma palavra de inglês, se virou bem e daí pras Filipinas e Vietnã. Fez uma pausa no Brasil e agora está na Suíça. Por quanto tempo? Não se sabe. Ela segue à risca o conselho de Frida Kahlo que diz: Onde não puderes amar, não te demores...

6 Comentários

  1. Muito bom seu texto. Parabéns, adorei!
    Só uma dúvida, é verdade que a Suiça enriqueceu às custas de dinheiro desviado de países mais pobres?

    • Oi Fabíola!
      Não apenas dos países pobres, mas também através de dinheiro nazista durante a guerra, dinheiro de corrupção e de organizações criminosas e terroristas. O princípio da neutralidade lhes confere essa facilidade.

    • Oi Fabíola!
      Não apenas dos países pobres, mas também através de dinheiro nazista durante a guerra, dinheiro de corrupção e de organizações criminosas e terroristas. O princípio da neutralidade lhes confere essa facilidade.

  2. Não entendo porque ainda há imbecis que acreditam que esse paíseco é o melhor país do mundo. Não tem costa marítima, é pequeno, está lotado de muçulmanos (apesar de que a populacão é fortemente armada, o que ainda impede de haver atentados), é o país mais caro da Europa e o terceiro do mundo, atrás de Hong Kong e Cingapura. O melhor ainda é os EUA, não se compra em nenhum outro lugar do mundo casas como as que os americanos podem comprar nos EUA. Cuidado com estatísticas de taxa de pobreza e IDH. É melhor confiar nos próprios olhos do que em publicações “científicas” de imbecis.

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