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A vida sem trabalho no exterior: dores e delícias

A vida sem trabalho no exterior: dores e delícias.

Poucas vezes desde que comecei o ensino superior, lá em 2008, fiquei sem trabalhar. Lembro que comecei a estagiar muito cedo e assim fui me lançando em uma experiência seguida da outra. Meus dois primeiros intercâmbios também tiveram experiências profissionais envolvidas.

As poucas vezes em que eu passei algum tempo sem trabalhar foram períodos de transição curtos.

Acontece que esse último período de transição já tem durado 1 ano e meio e é sobre ele que vou falar hoje.

O “fazer” é algo muito importante na nossa sociedade. Muitas vezes não só fazer, mas fazer muito. Mostrar o quanto somos ocupados e polivalentes é, muitas vezes, sinal de ser bem sucedido e completo. Às vezes faz sentido e pode ser verdade, se a pessoa vivendo assim estiver feliz com isso. Mas essa cobrança não deveria ser uma regra, não é verdade?

É através desse pensamento reducionista que tenta englobar todas as pessoas em um único grupo (o grupo de pessoas cheias de afazeres profissionais) que muita gente julga, por exemplo, as(os) donas(os) de casa, com ou sem filhos. Sem levar em conta que cuidar de casa pode, sim, ser super cansativo e desgastante. Isso sem falar de quando, aos trabalhos domésticos, somam-se os cuidados a crianças. Cuidar de crianças não só dá um trabalho tremendo, como é uma responsabilidade sem igual, afinal de contas criar e orientar bem aquele ser é uma forma de contribuição com a sociedade, com o mundo.

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Apesar disso, cresci vendo mulheres terem vergonha de dizerem que eram donas de casa ou que tinham aberto mão de suas vidas profissionais pelos filhos. Hoje entendo um pouco essas mulheres.

Não tenho filhos e não larguei definitivamente a minha vida profissional para cuidar de casa, mas como estou buscando retomar minhas atividades profissionais aos poucos (inclusive fazendo mudanças nelas, o que demanda ainda mais tempo e reflexão) e como estou, ao mesmo tempo, começando uma vida nova também no âmbito pessoal (recém-casada e morando de vez em um país estrangeiro, que por mais que já tenha sido minha casa continua não sendo o meu país), tenho sentido na pele a dureza nos questionamentos direcionados a quem não tem um trabalho fora de casa.

As pessoas mais próximas já entenderam que esse processo de instalação aqui e de recomeço é longo, demanda tempo, energia, cabeça boa e coragem. Mas pra outras pessoas parece ser muito estranho que eu ainda não esteja trabalhando. Já perdi as contas de quantas pessoas e de quantas vezes me perguntaram: “O que você faz?”

No começo, explicava a situação em detalhes, contando mais ou menos quais eram meus planos e prazos, mas ainda assim os questionamentos continuam.

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Desde quando nossa existência se reduz a nossa atividade profissional? Eu faço tantas coisas todos os dias que poderia listá-las pra quem pergunta o que faço, mas sei que o “fazer” em questão é outro.

Confesso que a abordagem constante desse tema me gera ainda um pouco de desconforto, mas essa insistência no assunto me ajudou a ir, aos poucos, construindo na cabeça uma listinha de razões pelas quais não tenho que me envergonhar de não trabalhar, mesmo se essa fosse uma situação definitiva.

1) Os acertos financeiros de um casal dizem respeito ao casal.

Sei que algumas pessoas ficam curiosas para saber como eu e meu marido fazemos pra viver. Como gerenciamos gastos, como organizamos nosso dia a dia, etc. Só que esse tipo de detalhe não cabe a ninguém além do casal. Parece óbvio, mas algumas pessoas parecem esquecer disso. Toda e qualquer situação que nos impacte é tema de conversa e por meio dessas conversas nos entendemos. A situação de dependência financeira que me é pouco costumeira, visto que comecei a trabalhar cedo, me incomoda um pouco, às vezes, não posso mentir, mas foi acertado assim e assim será até o momento em que eu voltar a trabalhar.

2) O trajeto dos outros não é o meu.

Sem querer, podemos ser impelidos a comparar os outros e a nos comparar aos outros. Acontece que essas comparações não são saudáveis. Não posso me comparar a alguém que tem outro histórico e outras origens. Não importa se a pessoa estudou algo parecido ou se é estrangeira como eu, o trajeto dela pertence a ela e o meu pertence a mim. Por algum tempo me senti inferior a outras pessoas e depois, analisando meu percurso, passei a pensar nele com orgulho. Ter orgulho do que fizemos e do que construímos, seja essa construção feita fora ou dentro de casa, é o mais importante a fazer. Quando olhamos pra o outro e vemos coisas boas, devemos tentar nos inspirar em vez de nos comparar.

3) Não trabalhar fora de casa não significa não ter afazeres.

Como falei previamente no texto, a associação errônea entre trabalhos domésticos e desocupação precisa ser desconstruída. Cuidar de uma casa dá muito trabalho e dentro dessa casa tem outra coisinha da qual também temos que cuidar: nós mesmas. Lavo e passo roupa, faço comida, ajeito casa, tiro lixo, varro chão, passo pano, entre tantas outras coisas, e isso toma algumas muitas horas do meu dia. O que sobra é pra eu seguir organizando tudo relativo a minha busca por trabalho e um pouco também pra cuidar de mim.

4) Ter tempo para si é um privilégio, é preciso desfrutar disso.

Todos os dias cumpro com as responsabilidades com as quais sei que tenho que cumprir. Depois disso, relaxo. Cuido da minha pele e do meu cabelo. Medito. Escrevo. Faço uma pipoquinha e assisto um episódio de alguma série. Sento tranquilamente pra ler. Saio pra dar uma volta na cidade e ver gente. Chamo alguma amiga pra tomar um café. Ou apenas paro e penso na vida, lembro de alguma coisa engraçada que uma amiga contou, de algum momento feliz. Parar é importante. Ter tempo livre é um presente, precisamos aprender a desfrutar dele. Lembro de ter lido, há mais ou menos um ano, um texto que falava sobre a importância de desacelerar, de pausar, sobre como a compulsão por ocupar o tempo estava adoecendo nossa sociedade. O trecho que mais me marcou diz: “Um dia seremos nossos? Quem tem tempo não é sério, quem não tem tempo é importante. Nunca fizemos tanto e realizamos tão pouco. Nunca tantos fizeram tanto por tão poucos“. Releio esse texto de tempos em tempos pra não esquecer das sábias palavras nele presentes.

Bom, dito tudo isso, vale também dizer que saber onde vamos é importante, mas não devemos nunca esquecer de curtir o caminho até lá! Essa fase é o caminho pra uma próxima e eu quero aproveitá-la antes da chegada.

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8 comentários

Jocely Março 20, 2018 at 7:37 am

Perfeito! Vivo sssim…

Resposta
Rosana Alcântara Março 25, 2018 at 7:47 pm

Obrigada, Jocely!

Um abraço

Resposta
Geace Março 20, 2018 at 10:31 am

Que texto lindinho e cheio de honestidade. Amei ❤️

Resposta
Rosana Alcântara Março 25, 2018 at 7:47 pm

Obrigada pelo comentário carinhoso, Geace!

Abração

Resposta
Lourdes Lovison Março 20, 2018 at 4:23 pm

Parabéns pelo teu texto, Rosana! Me identifiquei tanto que parece escrito para mim. Beijo

Resposta
Rosana Alcântara Março 25, 2018 at 7:46 pm

Oi, Lourdes!
Muito me alegra saber que não estamos sozinhas nesses desafios da caminhada. Essa identificação já é uma forma de fortalecimento, não é?
Sigamos firmes!
Abraços

Resposta
cristiane gomes cabral Março 24, 2018 at 2:01 pm

Amei !!!!
Tem como entrar em contato contigo?
Preciso da leitura do livro que cita um trecho acima, URGENTEEEEE

Resposta
Rosana Alcântara Março 25, 2018 at 7:44 pm

Oi, Cristiane! Que bom que gostou da publicação!
O trecho que cito nele vem de um outro texto que li na internet, não de um livro. Pelo menos até onde sei. No próprio texto você pode acessar a referência clicando na palavra texto destacada.

Abraços

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