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Adaptação escolar em Shanghai

Adaptação escolar  em Shanghai.

7: 00 da manhã. A choradeira toma conta do 4º andar do prédio onde eu moro. No quarto, minha filha está aos prantos porque o uniforme azul da escola nova não lhe cai bem dentro do seu mundo cor de rosa e lilás, de unicórnios e flamingos. Ligo para o Brasil e recorro à sua dinda querida, que me ajuda a acalmar a fera.

Na hora de sentar para tomar o café da manhã, ela me olha com aquela carinha sapeca e irresistível no auge dos seus 4 anos: “mãe, eu não quero ir para a escola sozinha, vai no ônibus comigo?”.

Viagem de ônibus

Cada escola, aqui em Shanghai, possui seu próprio ônibus e um monitor – encarregado de garantir a segurança das crianças durante o trajeto -, tanto as internacionais, como as locais. É o meio mais comum para os pequenos se deslocarem de casa para esse que vai ser, praticamente, seu segundo lar por aqui.

Foi difícil assimilar no início que eu não iria mais levar meu “bebê” para a escola, mas como eu não possuo carteira de motorista chinesa e o local é longe da minha casa, não vi outra opção.

Na prática, não foi bem assim. País novo, hábitos novos, cultura extremamente diferente, uma filha pequena um tanto quanto abalada emocionalmente e uma mãe que, como muitas, se sentia culpada sem nem saber o porquê. Então, o que a “mulher-maravilha” em questão fazia quando via a filha na janela do ônibus chorando aos berros pela vigésima vez na mesma manhã? Num ataque de impulso agudo, ela entrava neste ônibus lotado de crianças e sentava ao lado da sua cria só para poder levá-la a escola e ela assim, se sentir mais segura.

Meus dias eram assim: ia até a escola com ela, voltava para casa duas horas depois (as distâncias são bem longas aqui) e dali duas horas, já estava de volta para pegá-la, pois nessa época ela estava no período de adaptação e só ficava até o meio-dia. No entanto, a maioria das escolas aqui é período integral, geralmente, das 8h às 15h.

Cena de filme dramático? Não! Assim foram meus primeiros dois meses por aqui.

E como foram longos… infinitos!

Os pais que aqui estão lendo, com certeza não me deixam mentir: enquanto o filho não está bem, dificilmente um pai ou uma mãe ficam tranquilos, concordam?

Leia também: Diferenças culturais na China

Nova rotina

E tudo foi se tornando motivo para a choradeira diária: a distância de minha casa até a escola. Somos do interior de São Paulo, então, imagine! O local mais distante para nós leva, no máximo, 20 minutinhos e, aqui, o mais perto, pelo menos meia hora. O novo período: integral (antes ela só estudava no turno matutino), além da comida com forte influência da culinária chinesa/asiática servida na hora do almoço e, o pior e também o melhor, na minha opinião: o idioma, pois, depois que este obstáculo é vencido tudo começa a fluir novamente.

Em nosso caso, optamos por uma escola com foco no inglês britânico e aulas diárias de mandarim. Aqui, há escolas internacionais para todos os gostos, mas, infelizmente, não para todos os bolsos, pois o preço é bem salgado.

A Ludmila Lima, também colunista, explica como funciona o sistema das escolas por aqui.

A grande maioria das instituições oferece o foco no inglês (britânico, ou americano, depende da escola que você escolher) com algumas aulas de mandarim. Os chineses não podem estudar nas escolas internacionais, a não ser que tenham passaporte estrangeiro, de Macau ou Hong Kong, consideradas regiões administrativas especiais da China. Mesmo assim, posso dizer que muitos o devem fazer. Na sala da minha filha 80% dos alunos é de origem chinesa.

Aqui tem o link das principais escolas internacionais de Shanghai.

Um idioma novo, um mundo novo

Por mais clichê que possa parecer, estou aqui para mostrar, mais uma vez, que o tempo é o nosso melhor aliado nessa vida de expatriado.

Minha filha, que sempre foi muito tagarela e expressiva, passou por um processo de adaptação custoso emocionalmente por chegar aqui sem saber uma palavra em inglês, quem dirá em mandarim. Se para a gente este processo é tão complicado, fico me perguntando o que se passa na cabecinha dos pequenos.

No entanto, é incrível como eles sempre nos surpreendem, mesmo sendo um “pinguinho” de gente. Em menos de três meses ela conseguiu deixar de lado o medo e a vergonha e começou a dar suas primeiras arranhadas no inglês (no “pacote”, veio um descolado sotaque britânico), o mandarim também começou a sair em frases curtinhas e em alto e bom som (suas cantorias pelos quatro cantos da casa não me deixam mentir) e uma nova criança surgiu: mais segura, destemida, independente, mais tudo.

Hoje, quase um ano e meio depois vejo uma garotinha que volta feliz da vida da escola e quer participar de todas as atividades possíveis, que ganhou empatia pelo próximo e um montão de novos amigos. Como eu mencionei acima, a escola aqui é praticamente a segunda casa das crianças, porque eles passam boa parte do seu dia lá, então, muita coisa é vivenciada em sala de aula.

O drama do ônibus e a distância chata também ficaram no passado. Agora que já está falando pelos cotovelos novamente, ela e os coleguinhas vão o caminho inteiro se divertindo, afinal, quem na plenitude de sua infância não curte uma boa “bagunça no busão”?

Sobre o almoço chinês oferecido na escola, ainda não tivemos sucesso…Vez ou outra ela reclama. Nada que uma boa sopinha de macarrão com legumes e muito amor não resolvam na hora da janta.

E assim vamos indo. Compensando um pouquinho ali, desencanando um pouquinho acolá. Um dia após o outro.

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