BrasileirasPeloMundo.com
Brasil

Brasil – Derrotados por um mosquito?

Há alguns anos, uma campanha lançada pelo Ministério da Saúde tinha como slogan principal a frase: “O Brasil não será derrotado por um mosquito”. Passados alguns anos, o próprio ministro da saúde vem a público para afirmar que o Brasil está perdendo a guerra para o mosquito.

Apesar de radical, a afirmação faz um certo sentido.  Se antes a dengue era uma preocupação nacional, agora ainda temos a Zyca e o Chicungunya para potencializar os problemas de saúde pública que o país vem enfrentando.

Para variar, como tudo que ocorre no Brasil, teve gente que fez graça com as epidemias. Centenas de memes se espalharam pela internet com trocadilhos do tipo: Ih! Deu zica!

Seria bom se com o mesmo empenho, nossos compatriotas espalhassem dicas de como se livrar do problema. Até porque, boa parte dele é de responsabilidade nossa.

Depois que vivi fora do Brasil passei a ter uma visão um pouco diferente da nossa terra. Temos sim um povo ótimo, alegre e hospitaleiro. Solidário, bem humorado e…mimado!

Essa é a hora em que os que discordam de mim jogam tomates…

Mas deixem-me explicar: vejo que grande parte dos governos federal, estadual e municipal está empenhado em combater o mosquito. Escoteiros, agentes de saúde e até o exército está envolvido na luta contra o inseto. Entretanto, a epidemia segue crescente e encontra-se larvas do Aedes Egypt (mosquito vetor das três doenças – Dengue, Zyca e Chicungunya) em todos os cantos do país.

Como de costume, todos culpam o poder público, o sistema de saúde, os educadores e até a Rede Globo, mas limpar seu quintalzinho que é bom?!

Frequentemente vemos em matérias televisivas, repórteres acompanhando os agentes de saúde em suas visitas de esclarecimento aos moradores. Quase sempre há um mesmo enredo: o agente conversa com o morador, pede para vistoriar o local e quase sempre há um vaso cheio de água, uma poça, um pneu…isso quando não há um monte de entulho molhado.

Vejam bem! Somos um país de dimensões continentais. Imagine o absurdo, que para controlarmos a epidemia, precisemos de alguém que vá de casa em casa pedir para que as pessoas limpem seu próprio quintal!

mosquito-562066_640

Compreendo que há pessoas mais desinformadas e que carecem de informação mais detalhada, de um acompanhamento mais de perto. Mas gente, a televisão (praticamente todos os canais) ensina o tempo todo as regras básicas para impedir que o mosquito se reproduza. Além disso,  independente das trapalhadas governamentais, por vezes acompanhadas de frases hilárias como a da Presidente convocando o povo a matar o mosquito antes que ele nascesse (todo mundo entendeu o que ela quis dizer, mas que foi uma “pérola” do humor, ah isso foi…). A guerra ao mosquito deveria ser responsabilidade de todos nós e é aí que entra o que quis dizer com sermos “mimados”.

A culpa é sempre de alguém e a responsabilidade nunca é nossa. Nos queixamos das enchentes, mas quando ninguém está vendo, jogamos lixo no bueiro. Não queremos adoecer, mas não nos responsabilizamos minimamente pelo cuidado com o espaço que nos cerca.

Devemos sim cobrar dos governos que cumpram seu papel, no entanto, não devemos jamais abrir mão de cumprir o nosso.

A situação está gravíssima. Antes o aedes necessitava de um quantidade razoável de água para se reproduzir, no entanto, graças a uma evolução da espécie, o mosquito já consegue produzir larvas até mesmo em uma minúscula tampinha de garrafa. Além disso, estudos estão demonstrando que outras espécies de mosquito, inclusive o pernilongo,  também estão se tornando vetores dos vírus que causam essas doenças.

Como se não bastasse, a zyca também pode ser transmitida sexualmente. A criticidade da situação é tamanha, que o próprio papa Francisco, “autorizou” o uso de camisinha entre casais casados para evitar o contágio. A Organização Mundial da Saúde, da mesma maneira tem aconselhado o uso de preservativos ou abstinência sexual.

A mortalidade entre as pessoas acometidas por essas doenças encontra-se sob controle, o motivo do pânico é a possibilidade de microcefalia entre os bebês de mulheres grávidas infectadas. Hoje um problema de saúde pública, no futuro um possível problema social. Estaremos preparados para receber todas essas crianças no âmbito social e educacional? Estaremos prontos para acolhê-las sem discriminação e preconceito?

Essa é uma reflexão mais do que necessária. Até porque muitas vezes, sem perceber, falamos dessas crianças como quem fala de gado. Esquecemos que por trás de cada número, de cada estatística, há um ser humano real, um bebê aguardado e, Deus queira, muito amado.

Assim deixo a reflexão eterna de que cuidar do mundo, do país, da cidade e do bairro, pressupõe uma responsabilidade compartilhada.

Se em uma medida maior os governos têm o dever de conter essas epidemias, em certa medida esse dever também nos compete. Não custa nada fazer a nossa parte, pois o resultado beneficia a todos. Só precisamos “crescer” um bocadinho e tomar para nós a parte que nos cabe nessa luta, que no final são duas: deter as epidemias e nos preparar para acolher os “filhos dela”.

Para tal são necessários alguns valores básicos como: pertinência, responsabilidade coletiva, compromisso com as futuras gerações e por que não dizer, uma certa dose de compaixão humana que nos leve a olhar além de nosso próprio umbigo?

 

Related posts

Marielle presente em Genebra

Fabi Mesquita

Brasil e Inglaterra em forma de verso

Johana Quintana

A expressão da cultura brasileira em Portland

Lorena Nascimento

4 comentários

Ana Dietmüller Março 30, 2016 at 7:28 am

Excelente abordagem, Fabi! Parabéns!

Resposta
Fabi Mesquita Março 30, 2016 at 1:50 pm

Muito obrigada querida! beijinhos

Resposta
Paula Maio 24, 2016 at 1:34 am

Olá Fabi, tudo bem?
Conheci esse site pois estava procurando conteúdo sobre o Vietna, mais precisamente Hanoi e cai nos seus textos. Primeiramente parabéns pelos seus textos e como você consegue colocar os seus mais profundos sentimentos neles. Se o mundo tivesse mais pessoas autênticas e sinceras assim, com certeza seria um lugar muito melhor.
Meu noivo está com uma proposta para ir trabalha no Vietnã e eu confesso que mesmo já morando várias vezes fora e ter sempre apoiado essa possibilidade, ao saber que seria Hanoi fiquei um pouco sem chão. Lendo seus posts me tranquilizei um pouco… Gostaria de poder conversar mais com você a respeito. Você morou lá certo? Quanto tempo?
Pode me passar seu email?

Muito obrigada pela sua atenção!
bjs
Paula

Resposta
Fabi Mesquita Maio 24, 2016 at 4:01 pm

Olá querida, que bom que meus posts deixaram você mais tranquila. Tenho uma comunidade no Face sobre brasileiros no Vietnã, acredito que sejá útil para você ! :))

Resposta

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Este site ou suas ferramentas de terceiros usam cookies Aceitar Consulte Mais Informação