Brasil – O fundamentalismo chegou aqui

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Não pensei que fosse viver para ver uma crise tão grave como essa que toma proporções inimagináveis em nosso país.

Quando largamos tudo na Ásia para voltar ao Brasil, sonhávamos com a possibilidade de construirmos novas políticas públicas de saúde e Direitos Humanos que beneficiassem o nosso povo.

Acredito que fizemos tudo que nos foi possível. Colocamos nosso coração nesse trabalho conjunto, irmanados a muita gente batalhadora que luta por um mundo melhor, mas o sonho virou pesadelo e hoje nos vemos diante do desmatelamento do SUS, do retrocesso dos direitos e do fortalecimento de setores conservadores e fundamentalistas da sociedade.

Nossas conquistas estão se desmilinguindo ante nossos olhos: professores respondendo na justiça por abordarem homofobia e diversidade em sala de aula (ato extremamente necessário, já que somos o país que mais mata transexuais no mundo e estamos no ranking dos países que mais matam LGBTs em todo o planeta. Leia Aqui); policiais atirando em crianças e adolescentes; deputados fazendo apologia ao estupro e à tortura; corrupção a torta e à direita.

Assistimos a tudo isso com uma dor lancinante em nossas almas.

Eu, que monto projetos e ações na área de Direitos Humanos e Juventude, não aguento mais ler sobre o genocídio da juventude negra, sobre a opressão aos LGBT e sobre a violência contra às mulheres. Isso sem contar com a violência institucional contra pobres e miseráveis, pessoas que usam drogas, profissionais do sexo e de gente que vive com HIV.

O fundamentalismo religioso tornou-se em muitos lugares um parâmetro para valores morais. Mas não somos um país laico?

Profissionais de uma unidade de saúde chegaram ao desatino de se recusar a atender uma paciente, porque essa usava guias no pescoço, por conta de sua religião de matriz africana.  Onde vamos parar?

Guardando um certo exagero, uso um meme bem popular de internet, que circulou por um bom tempo nas redes sociais e que nos leva à uma reflexão muito séria. A imagem mostra o Afeganistão antes e depois do Taliban.

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Não que eu creia (ou ao menos não quero crer) que nos tornaremos um Afeganistão (já basta o texto que escrevi, onde me pergunto se estamos também nos tornando a Índia), mas acredito que estamos subestimando o poder nocivo da religião na política.

Leia meu texto: A Índia é aqui?

A laicidade das nações é saudável e necessária. São tempos bicudos nessa terra de Felicianos, Cunhas, Malafaias e Bolsonaros, pessoas reacionárias e fundamentalistas que falam em nome de Deus , embora não tenham nenhuma procuração para fazê-lo.

O amor como religião

Apesar desses descalabros, há quem busque propagar o equilíbrio, amor e respeito à diversidade, seja entre pessoas de religiões, orientação sexual ou identidade de gênero diferentes.

O pastor José Barbosa Júnior,  de formação batista, tem batalhado para emplacar a campanha #JesusCuraAHomofobia, uma resposta sensata aos esforços de religiosos em promover a “cura gay”. José chegou a lavar  os pés de uma transexual que desfilou em 2015, representando Jesus Cristo na Parada LGBT de 2015. A intenção do ato foi demonstrar que muitos inocentes são martirizados por haver falta de amor no mundo. A moça foi enxovalhada por fundamentalistas e acolhida por Barbosa.

Na parada deste ano, ele e outros evangélicos (o movimento tem crescido) participaram da parada LGBT apoiando essa comunidade tão oprimida por evangélicos fundamentalistas. Bonito de se ver; gays e cristãos abraçados professando o amor como cura da violência.

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A igreja católica também tem tentado trilhar algum caminho de respeito à essas populações.

Recentemente o badalado (e galã) Padre Fábio de Melo, postou nas redes sociais uma foto sua com uma travesti, cuja legenda, conclamava ao respeito e ao reconhecimento da bondade humana naquela nova amiga. Errou no artigo, chamou a moça de O travesti, mas foi perdoado e abraçado pela opinião pública, por conta de seu amor e desprendimento frente à causa.

Confesso que chego a me sentir ridícula de ter que falar sobre algo que deveria ser tão prosaico, como algo que infelizmente acabou tomando proporções tão sérias. Fico pensando nos jovens que eram torturados na Idade Média, considerados aberrações por serem canhotos. Eram obrigados a renunciar ao mal comportamento, muitas vezes associado a algum tipo de influência espiritual maligna!

É muita violência e atraso para um país só. E esse país que eu amo tanto! Temos tentado estar na linha de frente para que nossos direitos não sejam ceifados. Para que haja amor e solidariedade em nossa terra, como sempre foi. Hoje temos uma morte LGBT a cada 28 horas(Leia aqui) e para nossa vergonha, a epidemia de violência homofóbica já foi citada até no New York Times.

Que não sejamos mais o país do machismo, da homofobia e lesbotransfobia, do racismo, do fundamentalismo ou da corrupção.

Não podemos apenas ser o país do amor?

Termino com essa tira fofa do Armandinho (segunda vez nos meus posts) porque ela define isso tudo!

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16 Comentários

  1. Olá Fabi! Realmente concordo com você sobre a mistura da religião na política. Acho totalmente errado eles quererem impor regras religiosas numa sociedade tão diversificada. Eu vejo isso com muita preocupação, porque na nossa Constituição, todos são iguais perante a lei, uma pena que na prática isso não existe. Ter que lidar com pessoas de diferentes crenças e culturas é um enorme desafio. Se a educação do Brasil, que é a base de tudo, está muito ruim, o que esperar do futuro? É difícil imaginar. Eu como cristão, coloco em prática o amor e respeito que devo ter pelo próximo, como deve ser feito. Se todos fizessem isso, nossa sociedade será muito melhor. Obrigado pelo post!

  2. Seu texto reflete o que eu sinto.
    Voltar para o Brasil cheia de esperança e se deparar com este caos atual, onde, em nome de egoísmo, as pessoas estão destruindo a construção de um País melhor.
    A cada dia fico mais triste ao perceber que quem poderia fazer a diferença pende para o lado mais fácil, ignorando o atual cenário político que nos encontramos.
    Mas o que acaba mesmo comigo é o preconceito que vem crescendo em todas as direções.
    To quase acreditando que o Mal sempre vence o Bem.
    E, com lágrimas nos olhos, começo a aceitar que o meu Brasil não está mais aqui.

    • Danny, o mal não vencerá o bem! Na verdade esse ataque aos direitos humanos também se dá em um momento que várias dessas minorias saem do armário e tomam conta de espaços tradicionalmente fechados para ela. Apesar de toda violência, hoje temos trans doutoras, filhos de catadores de papel médicos e jovens aos montes batalhando incansavelmente para mudar esse caos. Venceremos! Obrigada por tua visita! bjs

  3. Oi Fabi! Muito bom seu texto. É tanta falta de amor que tá dificil mesmo!!
    Mas eu acredito que a situacao esta tao ruim e insustentavel que estamos uma mudança nesse “paradigma” está emergundo com muita força.
    Fico muito feliz por saber que pessoas como você trabalham com tanto amor nessa area.
    Um abracao,

    • Concordo com você. Ninguém joga pedra em árvore que não dá fruto. Esses ataques tem vindo na medida do crescimento e da força de alguns setores da sociedade que finalmente estão começando a ter visbilidade. Muitos paradigmas estão caindo por terra. Fico feliz que meu texto tenha algum eco. Obrigada pela visita! bjs

  4. Aplausos, em pé, por muitos minutos, Fabi! Seu artigo diz tudo do nada em que estamos mergulhados, argumentos tão bem expostos no blog. Sou sua fã, beijos saudosos

  5. Fabi, infelizmente estamos vivendo tempos bem bicudos mas precisamos acreditar que se cada um de nós fizer a sua parte para mudar este cenário conseguiremos através do amor reverter isto. Bjs no coração

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