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Brasil – Quando amar machuca

Durante o tempo em que vivi na Ásia criei e participei de algumas associações de mulheres para defender e proteger o interesse de mulheres brasileiras. Ali me deparei com inúmeras vítimas de violência doméstica. Em alguns casos a situação dessas mulheres era tão gritante que não seria nem um pouco de exagero enquadrar o caso de algumas dessas moças em situação de tráfico de pessoas. Fiquei surpresa ao notar que mesmo de volta ao Brasil eu mantive um elo que não se quebra.

Por algum motivos devo ter me tornado algum tipo de referência porque volta e meia pisca meu WhatsApp com alguém me pedindo ajuda do Vietnã, das Filipinas… São muitos casos de espancamento, de abandono e até cárcere privado. Há questões complicadas do direito internacional que tornam-se ainda mais complicadas quando o casal é de duas nacionalidades, e particularmente críticas quando existe uma criança envolvida.

O que leva uma mulher a abandonar tudo para seguir um homem?

Em geral, amor, mas há também o sonho de uma vida melhor, a expectativa de sonhos realizados e muitas vezes uma oferta “imperdível” de abandonar um passado de miséria e falta de perspectivas.

Muitas de nós, mulheres expatriadas, somos pessoas esclarecidas, estudadas, profissionalmente ativas e com independência financeira, no entanto outras tantas são pessoas humildes, pobres, muitas vezes profissionais do sexo, atraídas pelo “canto da sereia”.

Lembro que quando decidir ir embora por amor, seguindo meu então namorado até a Indonésia, me deparei na Polícia Federal com um cartaz que continha os seguintes dizeres: “ Se alguém lhe oferecer casa, comida e roupa lavada no exterior, desconfie!”.

Untitled

Para muitas mulheres esse era o aviso que faltava para que não incorressem no maior erro de suas vidas.

O cartaz fazia parte de uma campanha da Polícia Federal Brasileira e do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, a UNODC, contra o tráfico de seres humanos.

A imagem do que temos sobre tráfico de seres humanos é às vezes muito fantasiosa, ligada ao imaginário cinematográfico de homens tatuados e moças lindas leiloadas, mas fora esses casos que de fato existem, a questão da mulher refém de uma situação dessas é muito mais prosaica. Outro cartaz da campanha sobre tráfico dizia: “Primeiro eles tiram o passaporte, depois a liberdade”.

Algumas dessas mulheres saem do Brasil com a promessa de se tornarem artistas, bailarinas, modelos e acabam vítimas da exploração sexual.

Esse vídeo é pra mim um dos trabalhos mais interessantes já realizados no sentido de falar sobre a questão da exploração sexual. É uma campanha que foi criada nos Países Baixos, no famoso Red Light District em Amsterdã.

Mas nem toda mulher expoliada, maltratada e espancada foi traficada. Muitas delas estão no seio de uma família aparentemente “normal” e ainda assim são espancadas, humilhadas e privadas de sua liberdade. Algumas dão a volta por cima; outras, aceitam a dor como sina.

Quando voltar para casa pode salvar sua vida

Nas Filipinas lidei com casos de maridos poderosos, europeus e asiáticos, que compravam o poder local e que faziam uso de sua influência junto às embaixadas para manter suas mulheres em situação de violência. Algumas delas teriam condições financeiras de voltar para casa, mas os filhos normalmente são a moeda de troca elas acabam ficando para não perderem seus rebentos, outras não tinham dinheiro ou documentação para voltar. Haviam entregue sua vida nas mãos de seus algozes. A dificuldade com a língua estrangeira é outro motivo que dificulta a busca por ajuda.

Presenciei sequestros de crianças e prisão de mulheres sob falsas alegações. Impossível contar tudo em um post, mas o que quero com essa breve introdução ao assunto é dizer duas coisas:

Não há maior amor que o amor próprio. Muitas dessas mulheres permanecem se submetendo a tudo isso por conta da vergonha de voltar para casa “fracassadas” e assumirem para a família que seu casamento, emprego, sonho, deu errado. Muitas dessas moças preferem a agressão do que a dor do julgamento da família e amigos. E é preciso que se saiba, a violência contra a mulher não escolhe classe social. Muitas das moças que socorri eram ricas e “bem nascidas”. Nesses casos, o medo do julgamento social era ainda maior. Meu conselho nesses casos é sempre o mesmo: Voltar para casa pode salvar sua vida!

Encontre aqui um guia de retorno ao Brasil, idealizado pelo Itamaraty.

A segunda coisa que quero dizer é que não importa o quanto você ame um homem, você não pode se limitar a viver a vida dele. Não pare de estudar, de trabalhar, de cultivar amizades e de sonhar seus próprios sonhos. Se o “seu homem” for tudo que você tem, então você tem muito pouco. Tenha sempre uma reserva de dinheiro, se possível; não pare de pagar sua aposentadoria, mantenha-se independente e com relação aos filhos, deixe sempre tudo “preto no branco”. Se estar na mão de alguém dentro do seu próprio país já é muito difícil, imagine a milhas de casa. Saiba que sua embaixada tem a obrigação de te proteger. Fico feliz de saber que desde a primeira moça que socorri, até às ultimas duas que socorri no mês passado, ajudando daqui do Brasil, as embaixadas brasileiras hoje estão muito mais sensibilizadas e comprometidas. Há ainda ONGs, Delegacias e Grupos de apoio. Peça socorro e saia dessa vida. Você merece ser feliz.

Núcleo de Assistência a Brasileiros no Exterior

Divisão de Assistência Consular

E-mail: [email protected]

Fax: (+ 55 61) 2030-8800

Em casos de emergência, acesse o site do Portal Consular.

Já há números gratuitos disponíveis para brasileiras em diversos países do mundo. Não hesite em buscar ajuda!

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27 comentários

Lyria Reis Março 18, 2015 at 9:14 am

Fabi, esse texto é SUPER IMPORTANTE! Parabéns!

Os números de telefone gratuito são:
Se estiver em Portugal ligue para 800800550, opção 1 e informar o número 61-37990180;
Na Itália ligue para 800172211, opção 1 e informe o número 61-37990180.
Na Espanha ligue 900990055, opção 1 e informar o número 61-37990180.
https://sistema3.planalto.gov.br/spmu/atendimento/atendimento_mulher.php

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Miriam Março 20, 2015 at 1:55 am

A verdade é que ainda temos uma longa e ardua estrada até conquistarmos de fato direitos iguais. Belo texto Fabi. Bj

Resposta
Fabi Mesquita Março 20, 2015 at 3:00 am

O mais dificil é conquistar os direitos iguais sem nos tornarmos iguais a eles…

Resposta
Ulisses Lacava Março 20, 2015 at 2:57 am

Fani, esse trabalho é da maior importância. Nunca desista, nunca duvide. Como homem, sinto vergonha de meus pares que tratam mulheres assim. Espero viver o suficiente para ver essa realidade mudar – e não quero viver séculos.

Resposta
Fabi Mesquita Março 20, 2015 at 2:59 am

Como já diz o slogan de nossas parceiras, o Valente não é violento. Precisamos nesse mundo de mais homens valentes como você! 🙂

Resposta
Patricia Souza Março 20, 2015 at 3:17 am

Ótimo texto Fabi! É extremamente importante alertar para realidade que é assustadora, ter pessoas como você nesta luta é uma dádiva.

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Fabi Mesquita Março 20, 2015 at 9:09 pm

Infelizmente isso tudo é mais comum do que desejávamos né? Obrigada pela visita
bjs

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Tiago Briccoli Março 20, 2015 at 4:17 am

Oi Fabi, Ótimo texto!
Parabéns!

Resposta
Fabi Mesquita Março 20, 2015 at 9:08 pm

Muito obrigada querido
bjs

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ana Março 20, 2015 at 6:03 am

Parabéns! Pela esta atitude linda e emocionante, o mundo necessita de mulheres guerreiras como você
um forte abraço.

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Fabi Mesquita Março 20, 2015 at 9:08 pm

Como nós né? Toda mulher tem uma guerreira dentro de si
Às vezes só precisamos despertá-las 🙂

Resposta
Gabriela Chagas Março 20, 2015 at 9:26 am

Muito bem Fabi….lembro de alguns casos la em Filipinas q vc ajudou…como sempre uma guerreira dentro de vc, como falamos uma fadinha! Otimo texto,parabens! Adorei!

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Fabi Mesquita Março 20, 2015 at 9:07 pm

ai minha linda
vc também ajudou e muito né?
penso que ser expatriada carrega no bojo essa necessidade de sermos solidarias umas com as outras
saudade de vc
bjs

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Eugenia Lisboa Homem Março 20, 2015 at 9:39 am

Fabi parabéns pelo texto e pelo exemplo de solidariedade. Ou divulgar, tenho uma amiga brasileira que mora na Ásia. Beijo grande egenia

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Fabi Mesquita Março 20, 2015 at 9:06 pm

tomara que eu tenha podido ajudar de alguma forma, né? Obrigada pela leitura do meu texto bis

Resposta
Inaie Março 20, 2015 at 9:41 am

Fabi, Graças a Deus não encontrei no meu caminho de expatriada mulheres que sofrem as barbaridades que você presenciou, mas conheço outras que vivem vidas miseráveis por ter vergonha de voltar para casa.
Conheço mulheres que dormiram com o principe e acordaram com o sapo – e se o sapo não bate, esconde passaporte e tranca a geladeira, muitas mulheres escolhem viver no brejo da relação sem amor, sem respeito, sem cuidado, por ter medo de recomeçar do zero.
Que cada dia mais as mulheres se libertem dos preconceitos e trilhem o caminho da liberdade.

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Fabi Mesquita Março 20, 2015 at 9:05 pm

Eu imagino que isso que vc aponta são barbaridades tão grandes quanto as agressões propriamente ditas
como pode né? saudade!

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Elianah Cunha Março 20, 2015 at 12:09 pm

Fabi!!!

Lindas e tocantes palavras – e realmente a sua frase “não importa o quanto você ame um homem, você não pode se limitar a viver a vida dele” – VERDADE VERDADEIRA!!!

Obrigada por ser um “ombro” amigo e conselheiro de tantos (e tantas)

Um beijo brava guerreira!!!

Resposta
Fabi Mesquita Março 20, 2015 at 9:04 pm

ai querida, que comentário reconfortante
obrigada de coração
bjs bjs

Resposta
Ilah Fadilah Março 20, 2015 at 2:08 pm

Fabi, adorei seu texto…parabéns!!!

Resposta
Fabi Mesquita Março 20, 2015 at 9:04 pm

obrigada querida
bjs mil

Resposta
Thereza Ferraz Março 21, 2015 at 1:34 pm

Fá, muito bom artigo. Infelizmente é muito difícil mudar a cultura, Recentemente estive num casamento em que o pastor em seu discurso dizia que o homem é o pastor e a mulher a sua primeira ovelha e que ela deveria ser SUBMISSA a ele. Tive vontade de me levantar e dizer a ele e a todos: OVELHA? Mais o que é isso? SUBMISSA a ele? Como? que atraso. E as mulheres que concordam com isso, vão ficar no limbo a vida inteira. É cruel, pois ninguém quer contrariar o pastor . . . ora.
Nossa luta por direitos e oportunidades iguais fica patinando diante de “verdades” como estas.

mas a luta continua . . .

Resposta
Fabi Mesquita Março 21, 2015 at 9:55 pm

muita gente já bebeu e ainda bebe dessa água…

Resposta
Lima Março 22, 2015 at 3:50 pm

Fabi, você é uma inspiração… também como são essas mulheres que tem a força e coragem para sobreviver um amor desses. Recentemente me familiarizei com o trabalho dos antropólogos brasileiros Ana Paula da Silva (UFV) e Thaddeus Blanchette (UFRJ)… eles falaram do grande valor do trabalho de abolir trafico humano mas ao mesmo tempo deram exemplos dos mitos propagados sobre o assunto. Queria saber o que você pensa dos problemas que ele cita… como você tem muito mais informação e experiência na área. O artigo que eu li se chama “Cinderella Deceived: Analyzing a Brazilian Myth Regarding Trafficking in Persons.”

Resposta
Fabi Mesquita Março 22, 2015 at 7:13 pm

puxa que legal! vou procurar o artigo! obrigada pela visita e pelo comentário! bis

Resposta
leila dos santos amorim Julho 13, 2016 at 2:37 pm

Fabi,

Muito bom seu texto, maravilhoso na verdade.

Tem como saber mais sobre as historias das expatriadas que você ajudou?

Achei isso incrivel!

Um abraço!

Resposta
Fabi Mesquita Julho 13, 2016 at 3:04 pm

Oi querida, muito obrigada por tuas palavras! O que vc gostaria saber sobre elas? Posso contar o milagre mas não o santos rs…elas precisam ter a identidade preservada, mas se eu puder ajudar em algo, estou à disposição 🙂

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