Brasileiros são como mágica

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Fonte: Pixabay
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“Brasileiros são como mágica” – foi o que disse uma moça de Uganda no fim de uma festa de forró em uma casa brasileira em Tóquio. O arrepio tomou conta do meu corpo inteiramente, os olhos encheram de lágrimas e o coração batia forte, constante, orgulhoso.

Nós? Logo nós? O que tem de mágico em um povo sofrido, uma nação com tanta corrupção, tanta gente passando necessidade por consequência? O que tem de mágico em um país que tinha tudo para ser uma super potência mas se afunda em medidas paliativas para problemas estruturais? Um país lindo cuja beleza não pode ser inteiramente aproveitada por conta da violência?

Eu, como brasileira, precisei sair do meu país para entender a nossa mágica. Foi aqui no Japão que entendi melhor a nossa essência, como nós pensamos e agimos. Foi depois de conhecer outra cultura e outra realidade que larguei mão do meu complexo de vira-lata para me emocionar e bater no peito com orgulho quando digo que sou brasileira. Só assim consegui explicar o que faz de nós tão especiais.

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Para começar, tem a nossa alegria. Muita gente acha que isso não devia contar na construção de um país, já que alegria não abre hospital nem escola. Porém, isso posso garantir, a alegria é transformadora. Aqui no Japão, ela é quase inexistente. Aparece de vez em quando nos festivais de verão, ou em uma data comemorativa aqui e outra ali. Às vezes, para existir no dia a dia, precisa que seja na base do álcool, o que na verdade é até um pouco triste. O resultado é um país de primeiro mundo com taxas de suicídio maiores que de muitos países subdesenvolvidos, e uma sociedade com dificuldade de envolvimento social, que tem poucos amigos e pouca autoconfiança. Pessoas frágeis e solitárias, que têm dificuldades para se impor e – pior ainda!– para pedir ajuda quando necessário.

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Atrelado a isso, tem a nossa capacidade de se adaptar a qualquer situação. Não estou dizendo que é fácil para todo mundo, mas acredito que todo ser humano consegue se adaptar a quase tudo. Mas costumo dizer que o brasileiro, de maneira geral, tem o nosso “borogodó”. A gente se adapta, se vira, se acostuma, aprende, ensina, reclama, briga e faz piada da situação. É muito mais que adaptação: é domínio. É maestria. A gente não tem medo de ser feliz. Muda, se joga, se arrisca e dá risada, sempre exalando a liberdade e independência completamente brasileiras. Sinceramente, isso é que devia significar o “jeitinho brasileiro”.

A nossa criatividade é só nossa mesmo. Somos o país que mais produz memes na internet. Somos os país da “gambiarra”. Nosso Brasil sempre se coloca entre os mais premiados do mundo nas propagandas e campanhas publicitárias. Nossos artistas e atletas são mundialmente conhecidos. Aqui no Japão, quase sempre que digo que sou brasileira, escuto comentários sobre samba, Neymar, Ronaldinho, Carnaval. Há quem diga que isso é porque o resto do mundo só conhece um estereótipo, mas não é legal que o nosso estereótipo seja arte, música, dança, esporte, alegria?

A solidariedade também é notória. O povo japonês é realmente bastante gentil e educado, mas de uma maneira completamente diferente de nós. Uma vez a corrente da minha bicicleta quebrou de madrugada, no frio. Não estava conseguindo movimentá-la nem empurrando, teria que carregá-la. Fiquei mais de 40 minutos parada tentando consertar, sem sucesso. Tinha acabado de chegar aqui e não sabia sequer pedir ajuda em japonês. As pessoas passavam por mim, notavam a minha aflição e continuavam andando. A única que parou para perguntar se eu estava bem foi uma moça do Vietnã, que me abordou em inglês e acabou pedindo ajuda a um atendente da loja de conveniência, para que eu deixasse a bicicleta estacionada lá para buscar no dia seguinte. Pois eu tenho certeza, quase que absoluta, que se algo parecido acontecesse no Brasil, alguém pararia para ajudar. Esse é nosso jeito solícito de ser.

Esses dias estava em um restaurante brasileiro e uma pessoa com baixa visão entrou. A atendente, de trás do balcão e sem notar que a pessoa tinha deficiência, fez sinal para que ela sentasse à mesa. Ao perceber que ela não estava entendendo, eu contei pelo menos 4 brasileiros que fizeram menção de levantar para orientá-la, e um que se prontificou mais rapidamente. Os japoneses? Todos sentados.

Uso o serviço de trens regularmente aqui no Japão, e pasme: com toda a educação e gentileza do japonês, é muito raro que se levantem para dar lugar a pessoas idosas, gestantes ou com necessidades especiais. A maioria finge que nem vê. Eu sempre levanto para dar lugar e não teve uma só vez que não fui agradecida com uma certa surpresa e até espanto. Uma vez eu e meu marido auxiliamos uma moça que estava sendo assediada, oferecendo para trocar de lugar com o meu marido. Todos ficaram só observando o que estava acontecendo. Mas brasileiro que é brasileiro, pega e põe a mão na massa, faz acontecer, ajuda, pergunta, se impõe.

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É claro que sei que o Brasil ainda tem seus problemas e que não são todos os brasileiros que têm essas características. Contudo, ao aprender a valorizar a nossa cultura, eu criei uma esperança de aço. Uma armadura impenetrável que impede que o sofrimento do nosso povo, a impunidade e a desonestidade presente na humanidade, destruam a nossa – só nossa! – magia. E esta, cada vez mais forte e presente no coração de cada brasileiro, moverá montanhas.

1 COMENTÁRIO

  1. Nossa Juliana, agradeço a você e ao brasileiraspelomundo por compartilhar essa experiência! Precisava muito ler algo positivo porque não está fácil, mais difícil ainda é estabelecer um diálogo com as pessoas, por mais simples que seja. Me parece que a nossa cultura e as do mundo todo também como você relatou estejam se voltando ao ódio e à indiferença. Ódio de tudo, que vem da ignorância e insegurança que só cresce. Nesse ano de eleições ainda veremos qual discurso reflete mais a mente do povo brasileiro, e confesso: Tenho medo da porcentagem dos maus brasileiros, do estereótipo do jeitinho, do cada um por si que se revelará nas urnas, seja pela ignorância ou pelo mau caráter.
    Um abraço!

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