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Viajar e a alegoria da caverna

Quando viajamos, nos abrimos para o mundo. Conhecemos novas culturas, e aprendemos que o nosso jeito não é o único jeito de fazer alguma coisa. Aprendemos, ouvindo idiomas diferentes, que sempre temos o que aprender. E que, estranhamente, há tipos de sons que simplesmente não conseguimos pronunciar.

Viajando, ganhamos a oportunidade de testar toda a nossa habilidade com mímica: a linguagem corporal é a nossa melhor amiga. Experimentamos comidas que não são nem um pouco familiares para o nosso paladar. E nos apaixonamos por sabores novos, ou passamos muito mal, também. E, acima de tudo, ao abrirmos os nossos horizontes para uma cultura diferente da nossa, aprendemos o quanto o planeta é plural, quantas coisa temos a aprender e de quantas crenças precisamos abrir mão para entender que há hábitos e formas de pensar diferentes dos nossos.

Inevitavelmente, quando viajamos, acabamos nos transformando um pouco. Absorvemos as coisas que consideramos boas em outras culturas, ou em alguns casos exaltamos coisas da nossa cultura brasileira – tão rica e maravilhosa – depois de conhecer outras.

Quando cheguei ao Japão, logo me apaixonei pela cultura, em especial pela educação japonesa. Porém, depois de um tempo percebi que muitas das minhas crenças estavam equivocadas, e que há muitas coisas na nossa cultura que – ao meu ver, claro! – são muito mais positivas que na japonesa, mesmo. Aprendi que o melhor jeito de acabar com o nosso complexo de vira-lata é viver outra cultura. Estar em contato com a cultura japonesa me fez muito mais orgulhosa do nosso Brasil.

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Conhecer tanta coisa diferente, morando fora ou viajando, faz com que ampliemos nossa visão de mundo. Traz para nós mesmos um exercício de empatia e respeito, e nos faz perceber que não somos quase nada diante da grandeza do mundo. Costumo dizer que não há nada melhor que viajar para entendermos o nosso lugar, e pararmos de achar que somos o centro do universo. Viajar inspira a humildade e te força a se libertar de preconceitos. Para mim, é o melhor investimento que podemos fazer. Voltamos com a mala cheia de ideias, aprendizados, lembranças boas. Uma viagem bem aproveitada vale muito. Com perrengues ou não.

Convivendo com japoneses, é nítido o quanto isso pode transformar as pessoas. Os japoneses costumam ser muito frios, tímidos e introspectivos. Muitas vezes até tristes. Porém, quando são pessoas que viajam mais, costumam ser diferentes. Conversam mais, se interessam pelas diferenças culturais, riem mais.

Fonte: pixabay

Mas, infelizmente, não são apenas coisas boas que as viagens trazem. Depois que você viaja, adquire uma visão de mundo diferente. E isso pode ser danoso para todas as suas crenças e pensamentos anteriores, e até mesmo relacionamentos. Explico: quando retornei ao Brasil, de férias, as pessoas da minha convivência me disseram que eu estava diferente. E, bom, dois anos haviam se passado. Eu achava que era apenas natural que eu tivesse mudado muita coisa dentro de mim, e que fosse ficar claro para as outras pessoas. Acabei tomando um grande choque quando percebi que, sim, eu havia mudado bastante, mas as pessoas que ficaram no meu país continuaram iguais. Com as mesmas ideias, as mesmas crenças, os mesmos problemas.

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Eu achei que o sentimento havia mudado, apenas. Senti-me distante deles. Até solitária. Uma sensação de não pertencimento, como se não tivesse mais casa: o Japão não é exatamente meu lar, mas tive a sensação de que o Brasil também não era mais. E todo lugar que visito, faço moradas temporárias, levanto acampamento e vou embora. Deixo para trás o que já vivi e carrego na mochila todos os sentimentos do mundo: abraço aquilo que me foi ensinado, agradeço por todo o acolhimento e oportunidade, fecho a mochila e anseio pela próxima viagem.

A verdade é que há muitas coisas difíceis de lidar quando você mora fora ou viaja: diferenças culturais, manter amizades, saudades da família, trabalho, problemas com o idioma… Todos estes são superáveis. Mas acho que ninguém fala muito sobre a volta para casa.

Depois que voltamos, aquela sensação de que ninguém está acompanhando o nosso pensamento e a nossa evolução é forte. Não é arrogância ou prepotência, eu juro: não é que a pessoa que esteve fora do país se acha melhor que os outros, longe disso!

É que quem realmente aproveita das novas experiências, inevitavelmente aprende uma gama de coisas que só quem viveu isso entende. Platão, na Alegoria da Caverna, explica: imagine que alguns seres humanos estão presos desde o nascimento em uma caverna. Dentro dela, à luz do fogo, sombras viram personagens. As pessoas começam a interagir com a caverna, viver aquela realidade acreditando ser a única. Então, um dos presos visita o mundo exterior àquele que já conhece, e vive uma realidade muito maior que a que ele acredita ser a única. Depois de explorar, seu impulso é retornar à caverna e contar aos outros seres humanos a nova realidade que conheceu, que imediatamente negam a nova informação, ridicularizam e ameaçam o locutor, como se ele jamais tivesse vivido nada disso; e voltam à realidade que conhecem, de dentro da caverna.

Nós, enquanto seres humanos, temos uma visão distorcida da realidade, baseada em nossas crenças, culturas, pensamentos, influências, livros que lemos, filmes que assistimos, alimentos que comemos. Mas quando temos a oportunidade de conhecer outras realidades, subimos alguns degraus na escada do conhecimento e da visão de mundo. Reconhecemos nosso lugar. E quando voltamos à realidade que vivemos anteriormente, não conseguimos mais acompanhar. Estamos demasiadamente transformados, e não desejamos mais aquela vivência.

Viajar é sair da caverna. E voltar para ela dói tanto quanto sair de lá. É por isso que quem viaja, não fica na caverna por muito tempo. É por isso que seguimos viajando.

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