Ser um casal longe do Brasil

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Ser um casal longe do Brasil.

Outro dia fui abordada por um amigo que mora no Brasil e tem a intenção de casar com a namorada e se mudar para outro país. Ele perguntou o que eu achava e, conversando também com uma outra amiga que mora com o marido na Itália, chegamos à algumas conclusões.

De início, o que eu disse ao meu amigo foi: “Casa! Casa e vai!”. E mantenho a minha posição. Acho que só há um jeito de descobrir se um relacionamento vai dar certo: vivendo-o. Porém, é preciso considerar algumas coisas quando se vai mudar de país a dois. Para explicar tudo isso, acho que preciso contar a minha história.

Eu, particularmente, fiz uma loucura de amor. Quando conheci meu companheiro, ele já estava de viagem marcada para o Japão. Em cinco meses ele viria para cá, e o nosso relacionamento que mal tinha começado, acabaria. Parece drama de novela mexicana, mas acontece que nós nos conhecemos trabalhando com eventos, em uma temporada de verão em outra cidade. Dormíamos juntos, acordávamos juntos, comíamos juntos, trabalhávamos juntos, numa rotina que durou 2 meses. Costumo dizer que era como um Big Brother. E como a intensidade de um reality show manda, nós nos apaixonamos e ficamos naquele impasse: o que fazer quando a viagem chegar?

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Quando faltava mais ou menos um mês para a vinda dele ao Japão, nós resolvemos sentar e conversar sobre a data tão temida. Ficou acordado que ele viria para cá e eu viria depois, e então comecei a pesquisar tipos de visto que eu poderia tirar. Infelizmente, não me enquadrava em nenhum. Ele é nikkei (descendente de japoneses), mas eu sou descendente de várias nacionalidades diferentes, porém sem cidadania em qualquer outro lugar do mundo. 100% brasileira mesmo. Minha área de formação é a comunicação, e esse tema não existia para pós-graduação. Eu não falava japonês e também não tinha muito dinheiro para investir em um curso de última hora. Não tinha jeito, decidimos nos casar. Assim, de maneira fria e prática.

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Obviamente a minha família se assustou. “Casar? Mas quem é esse cara?”, “Você mal o conhece, tá maluca?”. Hoje, olhando friamente, acho que eu estava sim. Apaixonadíssima, vim ao Japão de mala e cuia para casar com o meu namorado. Ele veio cinco meses antes de mim, se organizou com casa e trabalho, e depois eu cheguei. Casamos sem a certeza de que a troca de visto seria viável, mas conseguimos. Tudo dentro da lei, é claro.

E aí, como se não bastassem as dificuldades de morar junto com alguém pela primeira vez, também tivemos, ao mesmo tempo, o período de adaptação a outro país. No nosso caso, o Japão, ainda por cima! Tudo tão diferente da cultura ocidental, com um idioma nada parecido e sem conseguir sequer usar o inglês para alguma coisa.

Confesso que dei sorte. Meu marido sempre foi solícito, companheiro. Sempre damos gargalhadas juntos e temos um relacionamento muito saudável. Tenho algumas conhecidas brasileiras aqui que não tiveram a mesma sorte. Ainda mais pelo Japão ser um país bem machista, muitas estrangeiras acabam tendo que se moldar aos costumes japoneses de desvalorizar a mulher e, infelizmente, muitas vezes serem até maltratadas. O lado ruim é que, nesse caso, não tem muito para onde correr. O país oferece alguns centros de apoio ao estrangeiro, mas a legislação japonesa mesmo é muito complicada para conseguir um auxílio. É possível, mas bem trabalhoso, e muitas vezes se a mulher sofre violência doméstica, por exemplo, tem toda a questão emocional envolvida para aumentar a dificuldade. E não existem delegacias especializadas nisso, o que deixa tudo mais complicado.

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Porém, posso falar por mim mesma sobre o lado bom. Não é que não seríamos um casal tão unido no Brasil, mas estando fora, a união é meio que compulsória. Você chega em um país estranho, com uma cultura bem diferente da sua. Certamente precisará de algum apoio uma vez ou outra. Sabe quem será o seu apoio número um? Seu(sua) companheiro(a). Nem que seja para sofrer com você, para procurar algo no Google junto, para se perder em companhia um do outro. Não tem mais família perto, e o único lugar para correr, caso você precise de um ombro para chorar, é a pessoa com quem você divide seus dias. Algo de bom aconteceu e você precisa contar a alguém e compartilhar a sua felicidade, e você já sabe para quem vai ser. A saudade do Brasil apertou e doeu. Sabe quem com certeza vai te entender para poder desabafar?

Morar fora sendo um casal ensina sobre união e respeito. Você ganha um(a) melhor amigo(a), uma família maior ainda. Não tem mais tanto a divisão de amigos de cada um, pois haverão mais amigos que vocês construíram juntos. A minha casa é o meu porto seguro. Lugar de descanso e de repor as energias, de receber amigos e de felicidade. Felizmente, é o porto seguro do meu marido também, com quem tenho o prazer enorme de dividir, não só a casa, mas a vida.

É preciso muito amor para se casar, mas muito mais que amor para ter um relacionamento saudável. Morar fora a dois pode ser uma experiência traumática se sua relação já não é legal em terras tupiniquins. Caso contrário, pode ser maravilhoso! Eu recomendo.

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