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Ena Ono, uma mulher destemida

Entrevista com Ena Ono, uma mulher destemida.

Conheci a Ena Ono há mais ou menos um ano. Eu tinha acabado de me mudar de cidade e um amigo me indicou um restaurante brasileiro na região, então fomos lá conhecer. Ena, a proprietária, estava sentada com seus familiares, conversando, quando entramos. Ela se levantou pronta para nos atender, e seu irmão também ofereceu um sorriso logo de cara. Começamos a conversar, eu disse que eu tinha acabado de chegar à cidade e ela, muito prestativa e gentil, colocou-se à disposição para ajudar no que fosse preciso. Perguntou o que fazíamos, de onde viemos, o que precisávamos.

Fonte: Acervo Pessoal

Ela contou um pouquinho de sua história e eu já sabia que estava conhecendo uma mulher muito forte, mesmo sem muitos detalhes. Ena nasceu no Amazonas e mora no Japão há 26 anos. Filha de pai japonês e mãe brasileira, tem quatro filhos, aprendeu o idioma japonês sozinha, é muito esforçada e coleciona histórias inspiradoras. No mês da mulher, não poderia deixar de contar um pouco da história dessa brasileira pelo mundo que não tem medo de nada.

Ena veio ao Japão porque tinha o sonho de conhecer o país de seu pai, e ouvia dizer que era um lugar muito correto e rígido. Queria conhecer tudo: a cultura, os costumes, a comida… Ela estava trabalhando em um hotel quando conheceu o ex-marido (japonês), que trabalhava em outro hotel menor em frente. Foram devidamente apresentados e ele se interessou por ela. Ena diz que ele teve que fazer muito esforço para conquistá-la: “Eu falei a ele que eu tinha medo de muitas coisas, e que a gente só poderia levar o relacionamento em frente se nos casássemos. Então, em uma semana ele me apresentou à família dele, nós namoramos por seis meses e depois casamos e continuamos casados por 14 anos.”

Mas nem tudo foram flores e conquistas nesse relacionamento. Ena conta que aprender o idioma era uma grande dificuldade para ela. “Mas aprendi sozinha. Encaro tudo como um desafio, gosto disso”, conta.

Leia também: Superando problemas no relacionamento intercultural

Depois que aprendeu o idioma e conviveu mais tempo com o então marido, começou a sentir as diferenças culturais: “Apesar de ser filha de japonês, fui criada nos costumes brasileiros, né? O carinho é muito diferente. O calor humano. Japonês não tem isso de carinho, beijo, abraço, beijo no rosto… Por exemplo, eu gosto de beijar, mas ele não gostava, ele acha que só um beijinho às vezes já está bom demais! Na nossa cultura brasileira, carinho, beijo, abraço, é tudo importante. Para japonês, é nojento. Essa era a minha briga com ele. Depois, fomos a trancos e barrancos.”

Apesar das dificuldades do casamento, Ena e seu ex-marido se davam muito bem nos negócios. Vieram para Yokohama, onde Ena recebeu o estabelecimento da sua tia, que gerenciava um restaurante brasileiro. Foi assim que Ena começou a empreender junto com o ex-marido. Ela era quem cozinhava, dirigia e tomava conta da contabilidade, enquanto ele fazia toda a divulgação. Eles fizeram tanto sucesso com o restaurante que tiveram que abrir mais uma unidade, voltada para eventos.

Orgulhosa do seu trabalho, Ena diz que sentiu-se realizada em estar no Japão e poder mostrar a cultura brasileira – pelo menos um pouquinho de cada estado – aos japoneses, além de ter sido um grande aprendizado: “Tive bastante sucesso, fiz muitos eventos, conheci muitos empresários, até apareci na TV… Aprendi a gerenciar um estabelecimento sem medo. Hoje, se eu for montar qualquer coisa, eu não tenho medo. Não importa o quê, como, em qualquer país que seja. Não vou mais ter aquele impacto da insegurança, sabe? Me sinto muito segura. Antes, eu era muito tímida e medrosa. Tinha medo do Japão, medo de homem, medo de inseto, medo de tudo! Agora eu só tenho de inseto (risos). Me sinto muito forte!”

Mas o restaurante não foi a única coisa que a fortaleceu. Ena diz que seus filhos a tornaram um animal feroz, e faria de tudo para protegê-los. Ela relembra uma das situações mais assustadoras que passou no Japão: quando foi ameaçada pela máfia japonesa.

“Aqui, todo estabelecimento que vende bebida alcoólica acaba tendo um envolvimento com a máfia. Eles impõem para todo comerciante uma taxa, e te obrigam a pagar para eles protegerem o estabelecimento. Eu odiava isso, mas eu tinha dois estabelecimentos: um restaurante e outro voltado a eventos, onde tinha muita bebida alcoólica. Aí, tive que me submeter a isso. Quer dizer, na verdade meu ex-marido que tinha uns esquemas, mas era segredo. Eu nunca me envolvi com isso, não queria nem saber. Não gosto desse tipo de pessoa. Eu sempre dizia não. Eles ficavam revoltados comigo e queriam chegar a mim. Eu falava que preferia trabalhar numa fábrica a dar dinheiro para mafioso. Não queria pagar para ninguém.

Quando eu estava grávida da minha filha mais nova, meu ex-marido não estava mais no restaurante. Eu estava sozinha e eles foram lá falar que queriam comandar meus estabelecimentos. Eu tinha vários eventos para fazer e eles falaram que iam fechar tudo se eu não pagasse a eles. Eu falei que não ia pagar e nem ia fechar. Eu ia continuar até o fim. Aí, eles começaram a ameaçar a mim e a minha família.

Virei um animal feroz. Falei que eles não iam tocar nem nos meus filhos e nem em mim, porque eu não tenho medo nem da morte. Eles falaram que eu teria que resolver com o chefão da máfia, que ele que ia resolver. Eu disse: Não, quem vai resolver sou eu. Eu que sou a dona, ninguém vai mandar em mim!”

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Ena conta que foi depois disso (e graças aos filhos dela) que não sentiu mais medo algum. “Eu tenho que lutar pelos meus filhos, fiquei muito forte. Até hoje, tudo o que eu faço, faço por eles: levantar cedo, cozinhar, trabalhar duro… Deus me dá forças e eu faço tudo por eles.”

Emocionada com sua força, eu pergunto se ela teria algum conselho para dar a outras mulheres, para que todas sejamos fortes como ela. Ela diz que a chave de tudo é a confiança em si mesma. “Nunca desista dos seus sonhos, siga em frente sem olhar para trás para buscar isso. E tenha muita confiança em si mesma. Se você confiar que vai conseguir, só depende de você. Da sua luta. Se você se entrega à fraqueza, você cai e se deixa levar. Se você sabe que é capaz e vai conseguir, aí sim! Tudo depende da sua força, de você lutar pelo que você quer. Eu acredito nisso.”

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