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A Brasilidade da informalidade

Não existe nada no mundo que conforte mais um brasileiro do que caipirinha, brigadeiro e informalidade (não necessariamente nesta mesma ordem). Não gosto de generalizar, mas normalmente, somos um povo com natural aversão à formalidade e aos tradicionalismos. Afinal, pompa e circunstância não combinam em nada com nossa ginga marota de “malandro é malandro e mané é mané“, não é mesmo?

Somos um povo que gosta de acolher e ser acolhido. Conhecidos mundialmente por nossa alegria e espontaneidade, mas no final das contas, tudo isso é um reflexo de nossa brasilidade e sua internacionalmente conhecida informalidade habitual.

Fonte: Pixabay

Depois de um ano morando em Londres, voltei para visitar a família no Brasil e amei o clima de informalidade que tanto sentia falta. A vendedora da loja se maquiava enquanto me atendia: “Sabe como é, né, entrei muito cedo no trabalho hoje”. O senhor me servia um café enquanto falava ao celular. A aeromoça contava animadíssima para a colega sobre uma viagem que fizera. Interrompo para pedir água. Ela me serve e volta ao papo, tudo certo. Tu-do nor-mal!

Leia também: O Brasil fora do Brasil em Sydney

Depois de três anos morando fora, quando voltei para visitar o Brasil, esta informalidade toda me chocou um bocado. Lembro que uma das coisas que mais me chamou a atenção foi como a linguagem na televisão aberta ficou (muito) informal. Os apresentadores de noticiários deixaram de falar o português formal e falavam com a maior informalidade, como se estivessem sentados ali no sofá com o telespectador. Observei o William Bonner. Será que ele sempre falou assim e eu nunca reparei? Repórteres que pareciam mais comediantes do que qualquer outra coisa. Tudo muito informal demais. Nossa, que estranho… Será que sempre foi assim e nunca percebi?

Claro que esta é uma percepção muito particular minha, mas é nítida a aversão à formalidade no Brasil. E por conta disso, tudo virou muito informal. O atendente, o apresentador, a aeromoça, o político, o ator da novela, o garçom, as pessoas, as relações, tudo. Eu, com meus amigos e família, sou uma pessoa super informal. Mas eu, como cliente de qualquer serviço, gosto de um pouco de formalidade e acredito que neste quesito o Brasil está deixando muito a desejar.

Somos um país com dimensões continentais, o que nos deixa muito isolados de convívio com outras culturas. Algumas línguas diferenciam o pronome de tratamento para conversas formais e informais. Interessante que no português de Portugal, só se usa o “tu” em conversas informais e com pessoas com quem já se tem alguma proximidade. No português do Brasil não temos esta distinção linguística. Mas tenho a sensação que, mesmo se tivéssemos, não seria mais usada.

Esse traço cultural nos faz únicos, mais despojados, espontâneos. Mas por outro lado, nos faz perder credibilidade se não soubermos usar a nosso favor.

Não discuto o quanto esta informalidade toda é boa ou ruim, acredito que como tudo, tem dois lados. O ponto é que quando saímos do Brasil, carregamos conosco esta semente da informalidade e isso não é lá muito bem visto em todo lugar. Um certo distanciamento é necessário. Uma atitude mais madura e profissional para quem almeja empregos fora do Brasil, é fundamental. Tentar ser legal demais e informal demais com alguém de outra cultura, que não está acostumado com isso, pode comprometer a sua credibilidade. E, por mais incrível que isso possa parecer, mais afasta do que atrai as pessoas.

Sobre nossa informalização na comunicação, fico aqui pensando, qual foi o marco que culminou nesta quebra com a formalidade em nosso país? Terá sido algo desta nova geração super conectada? Será a linguagem das redes sociais que tomou forma e virou uma linguagem atual?

Uma coisa que fico impressionada é com a rapidez que os jargões de letras de funk e de personagens de novelas caem em uso na vida cotidiana das pessoas. Muitas vezes quem mora fora não consegue acompanhar e fica totalmente por fora do uso dessas expressões. Quantas vezes já tive de pesquisar no Google para entender algumas expressões que começaram a ser usadas pelos meus amigos. A exemplo, a onda de vídeos com a música “Que tiro foi esse” – que para os desavisados, como eu, parece um ataque de mau gosto coletivo. Mas na verdade, fui descobrir que, não é banalização da violência, é mesmo só uma brincadeira. Levar as coisas a sério demais parece que pega mal, então vamos levar tudo na esportiva mesmo. Pessoas reproduzindo o vídeo em ambiente de trabalho, festa da igreja, churrasco com os amigos. Tu-do nor-mal!

Será que morar fora me injetou uma dose de chatice? Aqui no velho continente, tudo é antigo, com muita história, poeira e até um pouco de mofo. No Brasil, tudo é fresco, com roupas de verão, sol, cerveja gelada. Não tem como comparar. As pessoas no Brasil estão sendo expostas a outro tipo de realidade, diferente da realidade fria e cheia de histórias de guerra como no continente europeu. Não precisa ser igual, ainda bem que não é, inclusive. Mas se queremos como país, sermos mais respeitados mundialmente, temos de melhorar nossa credibilidade. E principalmente, cuidar para que o inaceitável não se torne “normal”.

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1 comentário

Carla Março 20, 2018 at 8:25 pm

Gostei muito do seu post. As vezes me calo porque acho que eu que “fiquei chata”. Mas agora vejo que tem mais gente que ve as coisas como eu. 😊

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