Café com gatos na Indonésia

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Café com gatos na Indonésia.

Imagine um lugar onde você vai para tomar um chá, comer um bolo gostoso, jogar conversa fora e deitar e rolar com…gatinhos?!

Para os adoradores de bichanos isso poderia ser um sonho, mas aqui na Indonésia é realidade.

Parece que a iniciativa nem é tão exclusiva assim, dei uma pesquisada na net e descobri que alguns países possuem a mesma iniciativa e até no Brasil há um café semelhante no interior de São Paulo, mas confesso que para mim isso foi uma grata novidade.

No começo fiquei um pouco intrigada sobre se para os gatinhos seria tão divertido quanto é para nós, mas bastou alguns minutos no local para entender que os bichanos que vivem no café são mais do que bem tratados e felizes. Fácil de se notar pela maneira como eles se relacionam com as pessoas que vão visitá-los.

Quem é gateiro sabe que gato é um bicho com autoestima para lá de para cima né? Então, na verdade, a impressão que dá é que eles encaram cada visitante como um novo súdito que foi até lá para prestar-lhes homenagem.

Para começar, há um monte de regras para os clientes no que diz respeito ao trato com os animais: você não pode pegá-los no colo, irritá-los, acordá-los, puxá-los pelo rabo (óbvio!) e nem cutucá-los para “forçar uma amizade”.

O que pode:
Fazer carinho, massagem, deixar que venham até você para ronronar e se aninhar, e ainda há uma cesta enorme cheeeeeeeia de brinquedos especiais para que os clientes possam usar para distrair os bichinhos.

O local é super limpo e tem um design todo especial para deixar os gatinhos confortáveis e felizes. São prateleiras, caixas, túneis, tendinhas e casinhas por onde eles passam, brincam e se escondem.

Os gatos são sempre os mesmos. Aquele lugar é basicamente a casa deles e você pode ir visitá-los por um preço de aproximadamente três dólares.
No dia que eu fui havia cinco gatinhos, de pelo longo, curto e até um sem raça definida, mas o que me deixou enlouquecida foi um gatinho de Bengala (região da Índia) que parece uma oncinha pintada em “cinquenta tons de cinza”. Nunca tinha visto nada parecido. Fiquei encantada, mas era um dos mais preguiçosos e arredios, por isso tivemos pouco contato, mas me senti muito grata pela oportunidade de estar tão bem acompanhada.

Crianças são bem vindas ao café, mas são supervisionadas e, abaixo de doze anos, só entram com a presença de um responsável.

Fiquei imaginando que seria muito difícil controlar crianças pequenas no Brasil, já que culturalmente nossas crianças são muito mais animadas/agitadas do que as asiáticas, mas aqui as que estavam comigo na salinha eram tão cuidadosas, que ao passar a mãozinha nos gatinhos mal encostavam nos pelos. Uma delicadeza! E eles carinhosamente retribuíam com rom rom para lá e para cá e com o motorzinho da alma fazendo trrrrrrrr de felicidade.

Observei que são muitas as mães que levam suas crianças para passar a tarde com os bichanos. A Indonésia ainda não é exatamente aquilo que poderíamos chamar de um país amigável para os bichos de estimação, então ter um em casa ainda não é uma coisa muito comum.

Há dez anos quando morei aqui pela primeira vez não via bichos em lugar nenhum. Principalmente cães, que são considerados impuros e, dependendo da raça, até demoníacos, pela religião islâmica.

Podíamos encontrar um ou outro por aí, em bairros chineses (para consumo alimentar) ou em locais de expatriados, já que muitos trazem seus animais em suas viagens. Apesar de hoje notar um aumento nas quantidades de pet shops na cidade de Jakarta, observo que o mercado é muito maior para gatos do que para cães, o que difere completamente da realidade no Brasil.

A verdade é que a religião muçulmana acabou incentivando uma verdadeira cultura “gateira” por aqui. O efeito colateral ruim é que nunca vi uma cidade com tantos gatos de rua como Jakarta, e a parte boa, é que muitos estão se abrindo para conhecer e amar os bichanos, que pelo menos aqui não sofrem preconceitos do tipo: “gato da azar”, “gato é traiçoeiro”, “gato gosta da casa e não do dono”, entre outras pérolas da cultura brasileira.

Em compensação os cães sim. Há lugares onde não se pode sequer passear com um cão pela rua. Isso acontece porque embora não haja nenhuma menção negativa sobre esses animais no Alcorão (os cães são mencionados apenas duas vezes no Alcorão e nenhuma é negativa), na verdade, alguns acreditam que essa resistência em adotar cachorros se dá por conta de uma situação mencionada em suas escrituras, onde o anjo Gabriel, considerado um dos mensageiros mais importantes da religião islâmica, não consegue encontrar o profeta Maomé porque um cãozinho filhote havia andado dentro da casa do profeta. O anjo teria dito: “Anjos não entram em casas onde haja um cachorro”.

Essas afirmações e histórias não estão registradas no Alcorão e sim na Hadice, que são inúmeras coleções de tradições islâmicas que pautam boa parte das leis e regras muçulmanas. Depois do Alcorão, as Hadices são os livros mais importantes da religião islâmica, por isso, apesar de muito dessas tradições já estarem mudando e os indonésios começarem a se render à cultura dos animais de estimação, cachorros ainda seguem como animais impopulares por aqui. Talvez por isso o sucesso do café de gatinhos seja garantido.

Quem não gosta de afagar um bichinho? Ir até um café para poder trocar afeto com um gato é uma boa escapatória para quem não pode ter o seu próprio. E acredito que tudo isso tenda a mudar com o tempo.

Já foi aberto na cidade o primeiro shopping amigável para animais onde é possível passear com seus bichinhos e encontrar outras pessoas que sejam amantes dos animais.

O número de crianças que frequenta o “Cutie Cat” café também me anima. Isso mostra que há um grande número de mães empenhadas em ensinar as crianças a amarem e respeitarem os animais.

Conversei com as funcionárias do café que me confirmaram que o grande público da casa são as crianças que vão acompanhadas por suas mães. A empresa busca difundir os benefícios de se conviver com os animais para a melhoria da qualidade de vida das pessoas, principalmente no que diz respeito à sua saúde física e mental.

Indonésios estão se abrindo para isso e eu torço para que, em breve, os cachorros possam também sair da lista de proscritos e passar a viver entre nós. Afinal, quem tem um bichinho sabe o bem que faz ter um amigo para todas as horas.

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Fabi é uma mulher de fibra, que carrega no coração o mundo inteiro. Jornalista e bailarina, tem mestrado em Educação, Arte e História da Cultura e é doutoranda em Antropologia, mas nem liga para esses títulos porque o que ela gosta mesmo é de estar no meio da moçada, promovendo Direitos Humanos e empoderamento popular. Atua com educomunicação e juventude desde que se entende por gente, e ganhou em 2015 o título de mulher inspiradora pelo coletivo feminista "Think Olga" que nomeia os destaques femininos em suas áreas de atuação. Fabi é consultora em comunicação e mobilização social e ja trabalhou para diversas agências das Nações Unidas, além do CDC de Atlanta, além de diversas ONGs e Fundos. Escreve para esse blog desde 2013. Ela tem rodinhas nos pés e asas nas costas. Talvez por isso alguns a chamem de fada. Não tentem descobrir de onde ela é, porque ela pertence a muitos lugares e ao mesmo tempo a nenhum. Essa aquariana de riso farto, tira leite de pedra por onde quer que vá. Saiu do Brasil para morar na Indonésia em pleno pós Tsunami sem falar nenhuma palavra de inglês, se virou bem e daí pras Filipinas e Vietnã. Fez uma pausa no Brasil e agora está na Suíça. Por quanto tempo? Não se sabe. Ela segue à risca o conselho de Frida Kahlo que diz: Onde não puderes amar, não te demores...

4 Comentários

  1. Fabi!!!

    Sou apaixonada por sua forma de viver, e amo quando posta algo. Preciso da sua ajuda! Sou formada em história, e tenho boa base de inglês. Atualmente me sinto frustrada e infeliz no Brasil. Gostaria de morar em outro país e exercer minha profissão, porém me vejo perdida. Poderia me ajudar? Tenho marido que trabalha na área da informática, programação e TI.

    • Oi florzinha, muito obrigada por tuas palavras tão gentis! Dá até mais ânimo pra gente continuar escrevendo. Tem um site, o UN Jobs que sempre tem oportunidades interessantes na ONU ou em organizações internacionais. Sua experiência profissional é com aula ou pesquisa? TI é uma profissão que sempre tem vagas no mundo todo. Ele domina o inglês também?

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