Cinquenta tons de cinza

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Cinquenta tons de cinza.

Se você se empolgou com o título desse post e achou que ia se esbaldar com tórridas histórias com conteúdo sexy e caliente, esqueça!

O papo aqui é literal.

Vou falar literalmente sobre os cinquenta (ou mais) tons de cinza que encontrei em Genebra.

Para começar, a cidade me parece majoritariamente cinza em suas construções e moradias. Vez ou outra a gente acha um bege, um branco, quiçá uma corzinha, mas no geral eu poderia dizer que Genebra é uma cidade cinzenta.

Não tem nada a ver com a cor do céu, que normalmente ostenta um lindo azul (graças a Deus) ou com poluição do ar. O que acontece é que muitas construções abrigam tons de cinza que vão do cinza claro ao grafite. Difere dos cantões de Genebra, (regiões mais periféricas de Genebra e bem residenciais) que abrigam bastante o branco – muitas vezes contrastado com detalhes em azul escuro ou marrom –  o amarelinho e até tons de verde desbotado ou pêssego pastel.

Os alpes e montanhas também acolhem casas graciosas em tons bem “limpos”. Parecem casinhas de contos de história, mas Genebra, quando não é cinza pela tinta, apresenta um ar empoeirado, principalmente nos bairros e ruas que circundam a estação ferroviária e seu centro com cara de velho.

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E veja bem, eu quis dizer realmente velho e não antigo, porque o centro antigo de Genebra é lindíssimo e contrasta com novas construções, lojas e restaurantes super agradáveis. É uma região muito viva na cidade, mas nas imediações da estação ferroviária (a Gare), tudo parece velho, cinza e com ar empoeirado.

Não estou dizendo com isso que a cidade seja feia. De modo algum! A cidade não apenas é muito bonita, como suas cores tem seu charme. São se estilo e isso não interfere em nada em sua beleza, até porque, há o céu imensamente azul para contrastar com a frieza do cinza.

Mas isso não é tudo! Os cinquenta tons estão nas vestimentas também.

Claro que também existem pessoas estilosas e cheias de atitude, rompendo a monocromia com cores alegres, mas basta pegar um transporte coletivo, para comprovar a minha teoria. O povo que vive em Genebra é fã dos cinquenta tons de cinza (não o filme né? Já disse isso). Oito entre dez pessoas no ônibus ou no trem, vão estar usando roupas que vão do cinza ao preto. Aliás, haja preto!

Me remete muito àqueles filmes sobre a segunda guerra mundial, onde aparecem aquelas pessoas cobertas por seus soturnos casacos caquis, cinzas e pretos!

Muitas vezes me remeto ao passado, fecho os olhos e me imagino naquelas eras onde até a atmosfera que cercava os povos parecia ser cinza também. Será que é isso? Algum tipo de herança?

Algumas pessoas atribuem esse estilo de vestir ao caráter discreto e assisado do povo. Faz algum sentido.

Quando mudei para cá, me aconselharam a rever meu guarda-roupa e meu jeito. Aparentemente eu seria muito colorida para o local.

Pois eu decidi que minhas cores seriam minha principal resistência ao inverno e à sisudez do estilo de vida desse povo, tão diferente do meu. Assim que logo que cheguei por essas bandas, fiz questão de desembarcar no aeroporto com um espalhafatoso casaco vermelho.

Já me avisaram que corro o risco de ser tachada como “exótica” (uma forma quase pejorativa de gringo tachar a gente de esquisita. (em português mesmo, de estranha e não em espanhol, de rara).

Essa é uma preocupação que eu não tenho. Sou assim essa moura-latina, também asiática por opção, que carrega as cores na pele, nos cabelos e nos gestos.

Acredito que estilo é algo inerente às pessoas, e claro, há algo de fortemente cultural na forma como manifestamos e interagimos. A rigidez de gestos se expressa na rigidez das cores, das roupas e até da comida.

Em nós tudo é exagerado! Muita cor, muito brilho, muita pimenta e sabor.

Aqui os gestos e sabores são contidos. As pessoas falam baixo, são discretas.

Em nós brasileiros, tudo é exagero. O riso é farto, a mesa que acolhe o amigo (sempre que possível) é cheia e a voz potente. As cores são vivas e a gargalhada é frequente.

No Brasil e na América Latina somos assim, quentes, coloridos e intensos. Não há nada de cinza em como manifestamos.

Até São Paulo, uma cidade que nasceu tão cinza por natureza, ganhou banhos de grafite e arte de rua por toda parte, inundando de cores aquela selva de pedra, aquele sertão de asfalto … e há cor e movimento por toda parte também.

A Suíça me ensina muito sobre se conter. Eu que sou um exagero de pessoa, talvez aprenda um pouco mais sobre sutilezas, delicadezas e outras miudezas. Talvez eu aprenda um bocadinho sobre diminuir certos gestos e debelar alguns exageros. Genebra me fala muito sobre dominar os impulsos e domar os instintos.

Nada sobre os cinquenta tons de cinza que você achou que seria, sobre o que eu iria falar.

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Fabi é uma mulher de fibra, que carrega no coração o mundo inteiro. Jornalista e bailarina, tem mestrado em Educação, Arte e História da Cultura e é doutoranda em Antropologia, mas nem liga para esses títulos porque o que ela gosta mesmo é de estar no meio da moçada, promovendo Direitos Humanos e empoderamento popular. Atua com educomunicação e juventude desde que se entende por gente, e ganhou em 2015 o título de mulher inspiradora pelo coletivo feminista "Think Olga" que nomeia os destaques femininos em suas áreas de atuação. Fabi é consultora em comunicação e mobilização social e ja trabalhou para diversas agências das Nações Unidas, além do CDC de Atlanta, além de diversas ONGs e Fundos. Escreve para esse blog desde 2013. Ela tem rodinhas nos pés e asas nas costas. Talvez por isso alguns a chamem de fada. Não tentem descobrir de onde ela é, porque ela pertence a muitos lugares e ao mesmo tempo a nenhum. Essa aquariana de riso farto, tira leite de pedra por onde quer que vá. Saiu do Brasil para morar na Indonésia em pleno pós Tsunami sem falar nenhuma palavra de inglês, se virou bem e daí pras Filipinas e Vietnã. Fez uma pausa no Brasil e agora está na Suíça. Por quanto tempo? Não se sabe. Ela segue à risca o conselho de Frida Kahlo que diz: Onde não puderes amar, não te demores...

4 Comentários

  1. Amei, Fabi! Aqui em Tallinn também tem muitos tons de cinza durante o inverno, agora que é verão pelo menos as mulheres estão mais coloridas! E assim como você, eu adoro minhas roupas coloridas (minhas botas de inverno são lilás), minhas camisetas “infantis” (você sabe do que estou falando, haha) e adoro ser a esquisitona. Afinal, esse povo sério precisa de um pouco de alegria andando na rua! Continuemos sempre assim, alegres e coloridas! <3

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