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Como é ter um cachorro na Suíça

foto: www.minhasuica.com

Como é ter um cachorro na Suíça?

Minha história com Roger começou quando ele ainda era um espermatozoide, em fevereiro de 2016. Recebi um “vale-cão” de aniversário do meu namorado, depois de refletir por quatro meses sobre a ideia de termos um cachorro na Suíça.

Sim, quatro meses refletindo é normal para os suíços. Eles não são nada impulsivos, pelo contrário, são bastante ponderados. Eu queria um cãozinho, ele reticente. Sabíamos que um cachorro nos tolheria. Fim de arrumar as malas e ir, sem pedir permissão para ninguém. Seria o preço que ele finalmente também topou pagar.

Compromisso é marca dominante no povo suíço. Uma vez comprometidos, conte com eles. Ainda bem!

Recebi um vale, um livro para escolher a raça que melhor se adaptaria às nossas expectativas e um lindo cartão. Como é bom estar acompanhada de alguém sensível, comprometido e generoso.

Depois de várias discussões resolvemos que queríamos um Golden Retriever. Dóceis, não imporíamos perigo às crianças da vizinhança, inteligentes,  não teríamos problemas em educa-lo e muito companheiros, para nossas caminhadas. Perfeito!

Nos escrevemos no curso teórico. Um curso de 4 a 6 horas de duração desenhado para quem nunca teve cachorro. Contam como é, o que fazer, os custos e as responsabilidades envolvidos, além de alguns princípios básicos para escolha da raça e educação do animal. O certificado é obrigatório para o registro do animal.

Fomos então a caça de conselhos para identificar um criador confiável. Ouvimos que os cachorros vindos de criadores responsáveis são mais inteligentes e mais saudáveis. Identificamos  a melhor criadora da região e claro, marcamos um horário para conhece-la pessoalmente.

Lá chegando percebemos que quem entrevistava era ela, não nós. Perguntou quem éramos, o que fazíamos, quem ficaria com o filhote, se moravamos em casa ou em apartamento e daí para frente. Resgatei meus talentos de quem trabalhou com marketing, entrei no jogo e nos vendi. Contei que moramos em uma casa com jardim e que já tínhamos até feito o curso teórico. A cartada final foi dizer que nosso cãozinho se chamaria Roger, homenagem ao Federer, paixão nacional. Bingo. Um filhote seria nosso. Só faltava a cadela entrar no cio e, claro, engravidar.

Interessante que em momento algum tratamos de valores. Planejamento e confiança são qualidades por aqui.

Estávamos em Março e a cadela nem havia entrado no cio. Fomos avisados que não havia garantia alguma que a cadela engravidaria e, se engravidasse, quantos filhotes teria. Mesmo assim, colocamos nossas fichas nela.

E esperamos. Esperamos e esperamos até que recebemos a notícia que no final de maio Jalisca havia entrado no cio e visitado Bond, um cão alemão. Sim, a cadela foi até a Alemanha para cruzar, já que o macho completaria a genética de Jalisca brilhantemente.  Melhor para Roger, pensamos.

O suíço é pragmático e jamais conta com o ovo dentro da galinha portanto, antes de comemorar, tivemos que esperar a confirmação da gravidez. Ecograma feito, eu pronta para soltar rojões e fui novamente puxada das nuvens: “Não existe garantia que Jalisca terá um macho”. Eu a essa altura não via problema algum em mudar de Roger para Mirka. Meu santo é forte.

Dia 27 de julho Roger nasceu. Quatro machos e seis fêmeas. Nas primeiras três semanas os filhotinhos não poderiam ser visitados. A partir da quarta, deveríamos visita-lo semanalmente, tempo para que nos acostumassemos com ele crescendo e ele conosco.

Roger nos escolheu. Era o único macho que não dormia quando chegamos. Ficou mordendo nossos sapatos e querendo brincar. A criadora disse que chamava ele de Roger, pois era o mais forte e o mais atlético da ninhada. Virou nosso Roger, claro.

E fomos visita-lo semanalmente, como tinha que ser. O filhotinho que crescia exponencialmente. A cada semana uma atividade nova era introduzida à vida dos filhotinhos.  Faz parte da socialização dos filhotes ser exposto a coisas diferentes, para se acostumar e se desenvolver intelectualmente.

Durante nossas visitas semanais aprendíamos muito com a experiente criadora, que começava timidamente a deixar as formalidades de lado. Ríamos dos filhotinhos, discutíamos como o alimentaríamos, nos orientávamos sobre a necessidade de castração. Nada tem regra. Impera o bom senso e a vontade de acertar.

E também nos preparamos. Cercamos o jardim, compramos bichinhos para ele brincar e dormimos até tarde. Tudo iria mudar.

Nove semanas depois fomos buscar Roger. Recebemos uma pasta com informações sobre a raça, os registros dos pais, seu pedigree, a dieta acordada, algumas fotografias dele bebezinho com a mãe e irmãos, o passaporte, a comprovação da vacinação e o registro do chip subcutâneo. Roger recebeu também uma bola de tênis gigante com os cheiros da família e uma coleira vermelha. Caprichosa a criadora nos deu também uma semana de comida para que ele não estranhasse nada. Recebemos um vale para a primeira aula prática com um adestrador de sua confiança. Quanto carinho.

Na semana seguinte fui a prefeitura, levando a pasta com tudo o que recebi e mais o certificado do curso teórico, obrigatório por lei. Na prefeitura o registro canino é anexado ao de seu proprietário. Todos os cachorros suíços devem ser registrados e manter um chip.

Recebemos um boleto para pagar CHF 150, algo próximo a R$ 450 anuais, referentes ao imposto do Roger. Cada cidade cobra um valor diferente, que deve custear a fiscalização, administração e os custos dos sacos plásticos oferecidos em quase todas as esquinas das cidades suíças para recolher o cocô dos animais. Faz sentido. Quem quer ter cachorro que pague por deles. Acho justo.

Decidimos fazer um seguro não obrigatório para cachorros, para doenças e acidentes não esperados, além de estragos, caso ele faça alguma besteira descomunal a algum terceiro.

No decorrer do primeiro ano temos que seguir um curso prático de 8 horas, onde aprendemos a controlar o cão. O certificado deve ser apresentado à prefeitura.

Diferente do Brasil, somos estimulados a sair com os filhotinhos assim que ele tomar a dose da primeira vacina, aos 21 dias. Expor o animal ao máximo de situações ajuda a socializa-lo, o que faz com que ele não estranhe tudo e todos. Escrevi sobre esta experiência aqui.

Foto: Lago Genebra - www.minhasuica.com
Foto: Lago Genebra – www.minhasuica.com

Cabe aos donos recolherem as sujeiras dos cães, mantê-los alimentados e caminha-los frequentemente. Um cãozinho maltratado pode ter seus donos denunciados e processados. Existem placas em todos os lugares alertando como proceder com animais. Quer ter? Cuide!

Muitos restaurantes e hotéis na Suíça aceitam cachorros. Eu sempre ligo antes de leva-lo e até agora, nunca recebi um não, pelo contrário, ele recebe um pote de água fresca e fica quietinho embaixo da mesa. As vezes eu brinco que cachorros são mais bem vindos que crianças por aqui.

A legislação está atualmente sendo rediscutida. Existe a possibilidade de cair a obrigatoriedade dos cursos. Pessoalmente acho que eles valem a pena.

Roger já completou nove meses e, como a maioria dos filhotes, ainda faz besteiras. De longe, temos mais progressos que recuos.

Ouvi de uma amiga belga que seu cachorro era uma peste na Bélgica e depois que mudou para cá, virou um santo. Ela advoga que estar rodeado de cachorros educados e respeitadores influencia positivamente o animal. Vai ver é a água cristalina dos Alpes que faz milagres, brinquei. Eu sinceramente não sei. Observo compromisso, seriedade e respeito. Isso certamente ajuda. Que continue assim.

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11 comentários

Arnaldo S Schver Maio 15, 2017 at 10:26 am

muito legal, e muito bem escrito, parabens – pergunto, existem cachorros para adoção na sua Suiça, existem SRD.
Acabei de voltar da sua Suiça, ja tinha estado outras vezes, mas desta vez me encantei demais, salve Roger

Resposta
Teca Hungria Junho 1, 2017 at 10:42 am

Olá Arnaldo,
Muito obrigada pela sua mensagem.
Sim, existem cachorros para adoção por aqui sim. Aliás, existem também ONGs e voluntários que facilitam o processo de adoção.
Uma amiga minha adotou Gipsy, um cachorro maluquíssimo, vindo da Espanha.
A Suíça realmente encanta. Adoro viver aqui e principalmente saber que os brasileiros se encantaram por aqui.
Salve Roger! Roger já está um meninão, e eu babo a cada dia com ele.
Abraço, Teca

Resposta
Malu Junqueira Julho 17, 2017 at 2:01 am

Adorei a história do Roger e o seu texto, além de bem escrito, é suave e gostoso! A Suíça deve ser um país encantador, a educação é a chave do desenvolvimento! Parabéns pela decisão de ter um cachorro, tenho duas meninas, além dos meus dois filhos; compromete uma grande parte das nossas vidas, mas não existe compromisso melhor!

Resposta
Teca Hungria Julho 22, 2017 at 7:35 pm

Obrigada pela sua carinhosa mensagem Malu.
A Suíça é realmente encantadora e quanto mais o tempo passa, mais eu gosto daqui.
Verdade, um cachorro exige muito compromisso e trabalho mas nada que não se pague com o carinho e o amor recebido deles. Estou amando a experiência. Parabéns para nós duas!
Abraço, Teca

Resposta
Maria Cecília Freeland Agosto 18, 2017 at 11:39 pm

Adorei ler seus relatos, Teca! Que delicia! Sua escrita e comentários inteligentes ….. fluem com suavidade. Não sei se vc vai se recordar de mim. Trabalhamos na Dow há muuuuitos anos atras. Acho que naquela época eu ainda era Maria Cecília Thompson….
Lhe desejo tudo de bom, felicidades com seu Golden Roger. Aliás vc fez uma feliz escolha. Também tenho uma Golden de 11 anos, uma doçura, inteligentíssima, carinhosa e protetora. Ama meus 7 netos. Faz uma festa danada quando pode estar com eles.
Beijocas Teca.

Resposta
Teca Hungria Agosto 21, 2017 at 9:00 am

Olá Cecília,
Claro que me lembro de você e fiquei muito feliz em saber que você leu e gostou do que escrevi. Obrigada!
Pensamos bastante em qual raça escolher pois a raça, que nem sempre é decisiva, ajuda muito no carater do cão. Acho que fomos felizes. Roger já está com um ano e é a sensação da nossa vizinhança, tem milhões de amigos. Aqui tem até uma garotinha, de 7 anos de idade, que vem visita-lo de vez em quando. Uma fofura! Eu babo de tanto amor.
Espero que você esteja bem e curtindo muito seus netos e claro, sua Golden.
Beijo grande para você!

Resposta
carmell louize Outubro 7, 2017 at 3:51 am

Oioi Teca, adorei seu texto, você escreve muito bem e torna o fato muito leve e gostoso de ler. Gostaria de saber quanto a já ter animais. Por exemplo eu tenho 2 gatinhos e moro no Brasil, me mudando para a Suíça obviamente que não deixarei eles para trás, como é o processo? Você saberia me responder?

Resposta
Liliane Oliveira Outubro 12, 2017 at 6:50 pm

Olá Carmell,
A Teca Hungria parou de colaborar conosco, mas temos outras colunistas Na Suiça.
Você pode entrar em contato com elas deixando um comentário em um dos textos publicados mais recentemente no site.
Obrigada!
Edição BPM

Resposta
cris Junho 28, 2018 at 9:58 pm

Que legal! e eles aceitam animais provenientes do Brasil? tenho uma labrador e penso em visitar uma tia e gostaria de levar minh Flor , uma vez que passaria um mês!

Resposta
Liliane Oliveira Junho 30, 2018 at 10:12 pm

Olá Cris,
A Teca Hungria parou de colaborar conosco, mas temos outras colunistas na Suíça que talvez possam te ajudar.
Você pode entrar em contato com elas deixando um comentário em um dos textos publicados mais recentemente no site.
Obrigada,
Edição BPM

Resposta
Martins Novembro 14, 2018 at 8:32 pm

Sou toda a favor do bem estar dos animais ,mas acho que hoje em dia o exagero tomou conta das pessoas .Aqui quase todas as crianças tomam medicaçao porque sao hiperativas ,principalmente as estrangeiras e os caes nem sequer podem ladrar coisa que é natural neles.É ver as pessoas a passar todas vaidosas com os seus caes que nem sequer podem olhar para o lado .E uma vaidade desmedida e que nao digam que e para o bem do animal.Um paìs que ate Fevereiro deste ano usava coleiras de treino (de choque ,de agua e de ar ).Usaram durante anos mas agora sao proibidas . A Suiça tem coisas muito boas mas é um pais muito racista .

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