Como é viver no limbo

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Uma música do Tom Jobim diz assim:

Estou no topo do monte
Não rio e não cismo
Fito o imenso abismo
Minha vontade é uma asa parada no ar

Pois é assim, caro leitor, que eu me sinto há mais de um ano, quando ao enfrentar setores corruptos da saúde pública no Brasil, logo após o golpe que colocou como ministro da saúde um fantoche das empresas de planos de saúde, um engenheiro que está sucateando dia após dia, tudo que se construiu pelo Sistema Único de Saúde em nosso país, minha família precisou se reinventar mais uma vez “fora de casa”.

Desde então eu perdi a conta das vezes que mudei de casa, mas foi algo em torno de 5 vezes em seis meses. São diversas mudanças profissionais, que não se ajustam assim de uma hora para a outra.

Fui de mala e cuia para a indonésia, levando na mala bastante saudade que eu guardava de lá (morei dois anos lá, em 2005).

Me enchi de esperanças em fincar meus pés em algum lugar, só que não.

Houve mudanças de plano na organização e cá estou no limbo, com metade das minhas quinquilharias em um guarda-móveis e a outra metade a caminho de um depósito no fundo de casa em São Paulo.

Enquanto isso estou aqui em Brasília, contando os minutos para rumar para a Europa em busca de minha nova aventura.

Durante os mais de oito anos que vivi na Ásia, me deparei muitas vezes com famílias em situações similares a minha, onde por um “capricho” da empresa ou organização a qual serviam suas vidas eram lançadas ao vento.

Pessoas que se mudavam com todos os seus pertences e de uma hora para outra tinham seus contratos cancelados, seus postos removidos, ou mesmo transferidos.

Você não tem tempo para recolher suas lágrimas, para viver seu luto ou mesmo se despedir.

Quando viemos embora do Vietnã pro Brasil, também foi assim. O posto no Brasil saiu “a toque de caixa”, e viemos correndo sem nem mesmo olhar para trás. Era férias de verão e todas as minhas amigas estavam fora. Saí de lá sem me despedir.
Dessa vez estou há um ano me despedindo, adiando a cada mês uma partida eminente.

É necessária uma alta dose de desapego ou loucura, para passar por isso sem enlouquecer.

Você não consegue fazer planos concretos. Não dá para marcar uma aula de dança, uma pós-graduação, nem para estar à frente de algum grande projeto. Não dá pra comprar muita coisa, nem para fazer um plano sequer que seja para mais de um mês. É um exercício insano de literalmente viver um dia de cada vez.

Sempre encarei essa rotina com muita galhardia. Nunca tive apego nem covardia.

Aos trinta a vida está lá vibrando diante de nós, mas aos quarenta, os anos começam a pesar sobre os ombros. Ainda haverá tempo para construir algo de novo nessa vida? Nessa Europa que me parece tão fria e impessoal?

Eu que amo andar de pés nos chãos, comendo Pho e Nasi Goreng (comida asiática) em barraquinhas de rua, saias longas coloridas, blusas leves de seda e algodão fino o que vou fazer no meio da neve, entre pessoas chiques e descoladas? Privilegiadas e tão distintas com seus longos, sisudos e elegantes casacos de lã? Pensar nesse tipo de coisa me ajuda a vislumbrar a vida para além do limbo.

Acho que em alguns casos, ser expatriado é como sorver algum tipo de droga, que sempre nos exige uma dose a mais. Quando vivia na Ásia, estar no mesmo lugar por mais de um mês era quase angustiante. Trinta dias era o meu teto máximo para estar em único lugar e logo mais eu ansiava por cruzar os céus ou mares em busca de alguma terra a qual eu ainda não conhecesse.

Quanto mais peculiar e única, mais meu coração se enchia de alegria. Agora estou encurralada no eixo Brasília – São Paulo, e nada encontrei de novo debaixo do céu. (Embora Brasilia seja um encanto!).

Dia após dia, encaro o tédio deste universo paralelo entre uma vida estável e permanente em casa, ou o se dispersar pelas ruas  do velho mundo.

Que post ingrato! Não ganharia uma nota seis no quesito coerência e ordem, mas fazer o quê se minha vida não tem tido nada de coerente? Façamos assim, vou seguir meus dias cantando, contando os minutos para ser perene ou fluida.

Quando chegar a hora de partir, lembrar de arranjar um casaco vermelho bem escandaloso, daqueles que me destaque em meio à cinza multidão. Cabelo rosa e colares de barbantes excêntricos, uma rebeldia tosca que nâo servirá para absolutamente nada, exceto para mostrar que eu sou mesma uma cucaracha exótica, meio latina, meio asiática, jamais europeia.

Nunca tive tanto medo de uma jornada exilada, mas estou pronta para enfrentar novos caminhos.

Deixo muito para trás (essa é a verdadeira vida dos deportados), mas estou pronta para ir. O limbo não serve para muito, então “vambora que o que você demora, é o que o vento leva.”

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Fabi é uma mulher de fibra, que carrega no coração o mundo inteiro. Jornalista e bailarina, tem mestrado em Educação, Arte e História da Cultura e é doutoranda em Antropologia, mas nem liga para esses títulos porque o que ela gosta mesmo é de estar no meio da moçada, promovendo Direitos Humanos e empoderamento popular. Atua com educomunicação e juventude desde que se entende por gente, e ganhou em 2015 o título de mulher inspiradora pelo coletivo feminista "Think Olga" que nomeia os destaques femininos em suas áreas de atuação. Fabi é consultora em comunicação e mobilização social e ja trabalhou para diversas agências das Nações Unidas, além do CDC de Atlanta, além de diversas ONGs e Fundos. Escreve para esse blog desde 2013. Ela tem rodinhas nos pés e asas nas costas. Talvez por isso alguns a chamem de fada. Não tentem descobrir de onde ela é, porque ela pertence a muitos lugares e ao mesmo tempo a nenhum. Essa aquariana de riso farto, tira leite de pedra por onde quer que vá. Saiu do Brasil para morar na Indonésia em pleno pós Tsunami sem falar nenhuma palavra de inglês, se virou bem e daí pras Filipinas e Vietnã. Fez uma pausa no Brasil e agora está na Suíça. Por quanto tempo? Não se sabe. Ela segue à risca o conselho de Frida Kahlo que diz: Onde não puderes amar, não te demores...

4 Comentários

  1. me identifico com o seu texto talvez pq me encontro em situação semelhante…
    Mas, boa sorte no futuro, li esses dias que os 40 são os novos 30; já que a longevidade no mundo como um todo se estica a cada década. Portanto, não se sinta velha…

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