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Como mudar de cidade influencia nosso estilo de vida

Cidades têm configurações próprias que o Urbanismo e a Arquitetura definem, carregando com elas personalidades únicas que a História e a cultura têm o hábito de explicar. Quando escolhemos um novo destino, costumamos levar em consideração o fato de que viveremos nesse meio de ciência construída e ciência contada sem ter erguido tijolo ou escrito linha. Para preencher a falta de vivência e entendermos melhor o que nos espera, buscamos informações, estudamos. Com sorte, por lá já passeamos e talvez tenhamos até gostado. Mas acontece que não adianta o que contam os outros ou os livros, pouco serve a dica dos sites de expatriados e podemos esquecer a impressão guardada como souvenir das férias. É  preciso juntar o comprar o pão do todo dia à passagem por aquela esquina, para sentir no vai e vem das nossas necessidades como a alma dela nos toca.

É que cidades têm alma e É esse sopro movedor do invisível que nos empurra por suas ruas, delineando o modo como passaremos a conduzir nossas vidas.

Estéticas urbanas mais apelativas com fachadas bem cuidadas, construções em “tamanho humano”, ruas limpas e segurança, costumam nos acolher melhor do que o seu oposto. É fácil transitar por esse tipo de cidade e guardamos um sentimento de boa acolhida, importante à primeira vista de um recém-chegado. Comigo foi assim em Lausanne, na Suíça. Em contrapartida, o caos de calçadas esburacadas, trânsito agressivo e prédios caindo aos pedaços, pode a princípio repelir. Esta foi minha realidade em Bucareste, na Romênia. Já quando o quesito “expectativa de violência” entra em jogo, por mais que a cidade pareça bem cuidada, a ansiedade é certa. E assim foram muitos dos meus momentos em Joanesburgo, na África do Sul.

São situações que certamente afastam quem pouco conhece, mas, com o tempo, é possível descobrir novos caminhos, entender a que hora do dia deve-se visitar tal lugar, qual o tipo de transporte mais indicado e, “pirlimpimpim”, a cidade caótica ou a cidade agressiva se abre, mostrando os seus oásis, convidando-nos a desfrutá-los como só os locais sabem.

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Por isso jogo fora minhas impressões de viajante. Elas não cabem nunca na vida da moradora. É certo que algumas cidades são mais convidativas, passando a impressão de que basta um bom guia de turismo para desvendá-las, como Lisboa, em Portugal. Já outras são mais ariscas e bem menos evidentes, como Dallas, nos EUA. Mas a verdade é que cidades, por mais generosas que possam ser com seus visitantes, não se entregam jamais na primeira visita, nem na segunda. Elas pedem compromisso e vão aos poucos revelando-se para quem faz delas morada. Se Lisboa é vedete e Dallas, puritana, uma ainda me conta e a outra já me explicou seus cantinhos preciosos, sussurrados de ouvido em ouvido para que não caiam na página de nenhuma revista de viagem. Aos segredos bem guardados, apenas os iniciados na arte de sorver “aquela” cidade.

Sabem o porquê de insistir tanto em cantinhos, oásis, segredos? Porque esteja você em alguma vila primorosa da Suíça, na confusão de algum centro urbano romeno, no fuzuê turístico da capital de Portugal, ou na assepsia das ruas texanas, é preciso encontrar na nova cidade caminhos que levem a lugares seus, a ambientes de respiro e abrigo. Lugares que por mais estrangeiros que sejam espelhem um tanto de você. É preciso que a cidade nova que nos desafia e ensina, aprenda conosco a levar-nos de volta aos nossos hábitos e gostos antigos.

Nessa hora, pegamos-lhe a mão e apresentamos o nosso mundo dentro dela: a cidade interage com a gente e respondemos de volta como parte presente de seu corpo urbano: contemplando, trabalhando, estudando, festejando, fazendo uma pausa para o cafezinho, deixando nossa marca, buscando espaço, identificando ou (re)descobrindo quem somos, no quanto e no tudo que oferece.

É assim que aprendemos a nos soltar em seus espaços públicos, confiando nela, especialmente quando a “coisa pública” pertence a todos, sem restrições, sendo por esse todo também cuidada e preservada. Integramo-nos – tão bonito isso, o “integrar-se” – tornando parte ativa do que antes nos era estranho, adotando horários até então pouco familiares, seguindo regras legais ou de costume nunca antes ouvidas, compreendendo lógicas diferentes das nossas, adquirindo hábitos ditados pelo clima, ritmos e rumos daquele mundo.

Se penso, por exemplo, na mobilidade, um pontinho desse universo de tantas outras mudanças, lembro que, em Joanesburgo, era a única branca andando nas ruas comerciais do bairro onde morava. Gosto de andar e o receio de muitos, naquela localidade e horário, nada justificado, não me impediu de seguir meus caminhos e nele interagir com a educação e boa vontade de quem também se permitia sair às ruas. Cheguei em Lausanne e era liberadamente livre para transitar por largos convidativos a pedestres. Aquela cidade foi feita para ser andada. Um luxo, achei eu brasileira, sem ter que me preocupar com “mãos ao alto, é um assalto” – ou coisa pior.

Cheguei em Dallas e voltei para o carro. As distâncias imensas e a largura das ruas americanas deixavam-me confusa, estando eu habituada às proximidades apertadas da Suíça. Voltei para São Paulo e conseguia fazer muito a pé, outro tanto de carro, com a atenção desconfortavelmente voltada para a minha segurança. Por que vivemos assim? Mudei para Bucareste, era seguro, mas também era preciso andar muito para que houvesse algo de útil a ser feito a pé. O metrô me ajudava a driblar o trânsito pesado, mas quando andava, prestava atenção redobrada ao atravessar a faixa de pedestres. Acidentes aconteciam. Pousei em Cascais e os caminhos me levam para o mar que me enche dele, enchendo-se de mim.

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Não há cidades iguais, nem vivemos as mesmas coisas na mesma cidade, em fases e vontades diferentes da vida. Elas se abrem em graus variados de amabilidade e não necessariamente nos chamam, de boa vontade, a tomar parte delas. É preciso ter paciência, às vezes, é preciso insistir, dar segundas chances, reaprender rotas, compreender o diferente, ser empático mesmo recebendo antipatias.

Acho bom sabermos que podemos, sempre, ser elemento de mudança e bons ventos naquele novo lugar e que assim sejamos. Mas não podemos esquecer de que ela, cidade, mudar-nos-á nesse mesmo sempre.

Lembre-se: cidades têm alma. Penetram-nos a pele, redefinem hábitos, ensinam coisas novas, fazem-nos sonhar, criam oportunidades, realizam vontades ao preço de se alimentarem de quem somos. Ninguém deixa uma cidade do jeito que entrou. Comigo carrego cada uma delas, por elas deixo pedaços meus. São partes minhas. São minhas. Sou eu.

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1 comentário

Sara Abril 22, 2019 at 9:48 pm

Que texto legal! Talvez devido à minha trajetória bastante itinerante também gosto muito de refletir sobre isso, como as cidades nos mudam, de que formar interferimos na cidade em que moramos. Me lembrei de um livro, que gosto muito, As cidades invisíveis, de Italo Calvino. Adoro ler livros sobre isso, e aceito dicas, se tiver. Abraços!

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