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Roteiro pelo Marrocos: Trekking no Saara

Roteiro pelo Marrocos: Trekking no Saara - Foto:acervo pessoal

Vamos continuar nossa jornada pelo Marrocos iniciada com o primeiro texto. Agora, o deserto, Trekking no Saara!

A estrada

Fábrica artesanal de cerâmicas – Foto: acervo pessoal

 

Saímos de Marrakech deixando para trás um Souk ainda sonolento. Tínhamos 450 km de estrada, instalados em uma 4×4, até chegarmos em M’Hamid, nossa porta de entrada para o deserto. À medida que avançávamos, as montanhas perdiam a tonalidade ocre que fazia das casas construídas com o mesmo barro continuidade natural daquela mãe terra, e ganhavam aspecto mais alto e rochoso. Boa parte da estrada estava em obras e o percurso era vagaroso. Um país bonito e verde, até começarmos a subir o Atlas. Em Tichka Pass, o ponto mais alto da África do Norte, a 2260 m, a temperatura esfriou, as montanhas acinzentaram-se e a luz perdeu seu tom amarelado para se tornar azul. Ao lado da estrada, homens vestindo grossas capas de lã marrom, com capuz, vendiam artesanato, confirmando que fazia mesmo frio.

Seguimos viagem em direção ao oásis do Vale de Draa, mas antes uma parada para conhecer o trabalho de uma das cooperativas femininas produtoras do óleo de argan. Existem várias do gênero espalhadas pelo país, com o intuito de incrementar a renda das mulheres. Já quase em nosso destino, mais uma visita, dessa vez a uma fábrica artesanal de cerâmicas, onde aprendemos sobre o processo milenar utilizado na confecção dos potes. Àquela altura, munida de panela de barro e óleo, era uma questão de honra aprender a fazer as deliciosas tajines. Vou dar um “spoilerzinho”: eu aprendi.

Leia também: O desconhecido deserto Agafay no Marrocos

Ao cair da tarde, nos arredores de M’Hamid, a paisagem árida passou a nos acompanhar até que saímos da estrada em uma longa curva acostamento adentro, e lá estava ele em toda a sua majestade: Alsahra’, o mítico Saara dava-nos as boas vindas, fazendo-nos serpentear por suas dunas sob a direção do guia e motorista para aquele percurso, o primeiro dos Mohamed, marroquino de origem berber, que estava literalmente em casa ao nos conduzir pelos caminhos de areia.

A primeira noite no deserto passamos em um dos tantos acampamentos fixos, nas tendas que são suites confortáveis com, dentro do possível, facilidades de hotel. Hospedar-se em um desses acampamentos já é incrível, mas, em nossa experiência, nada se comparou ao que nos trouxe a manhã seguinte.

Trekking no Saara

Pôr do sol nas dunas – Foto: acervo pessoal

 

A pequena caravana estava à nossa espera. Fomos rapidamente apresentados aos dois novos guias, Salin, 32 anos, e Mohamed, 19. Seríamos um grupo de 4, além dos 3 dromedários que nos fariam companhia, carregando o que seria usado durante o acampamento, afinal, seguiríamos por 3 dias em direção às dunas gigantes de Erg Chigaga e se ainda não ficou claro, é isso mesmo: não haveria como voltar ao acampamento fixo, não teria banho e o banheiro disponível era o que eles delicadamente chamavam de “toillet berber”.

Andávamos entre 2 a 3 horas pela manhã, parávamos no auge do calor para comida e descanso, e seguíamos por mais umas 3 horas, até assentarmos o acampamento da noite. Durante o almoço, Mohamed preprava o “pão de areia”: após sovar a massa, abria um buraco por baixo das brasas, deitava a pasta dentro, cobria com areia e lenha. Vinte minutos depois, batia o pão já assado para espantar os grãos e estava pronto para comer. Fazia um pouco “cro-croc”, mas era bom!

Acampamento no Saara – Foto: acervo pessoal

A caminhada foi dura e o deserto, para minha surpresa, trocava de paisagem com facilidade. No início, era como pastos agrestes, ainda com vegetação, onde encontramos muitos dromedários a se alimentar. Depois, um chão de pedras redondas e pretas, até perder-se de vista, dando-me a sensação de estar em Marte. Finalmente, quando as pernas já pediam descanso, a suavidade das dunas no primeiro pôr do sol visto de um deserto selvagem. Com ele, o silêncio do vento; o tempo que se recusava a passar; as palavras que não abarcavam o sentimento.

Leia também: Acampamento beduíno no deserto 

A noite caia e os tapetes eram desenrolados sobre a areia. Tudo muito rústico, mas organizado com cuidado. Sentávamos em volta da fogueira enquanto Mohamed preparava o chá de menta fresco, com o cuidado precioso de quem faz algo importante. Nisso, Salin cozinhava uma de suas gostosas tajines. Jantar servido, bebemos a sopa camponesa direto da tigela, enquanto os dois rapazes mantinham o hábito local de se servir da tajine com um pedacinho de pão em uma das mãos.

Salin falava francês. Já o  mais jovem fazia uma mistura de várias línguas, dirigindo-se em árabe ao colega para que assim nos explicasse algo mais. Foram dias de andança e boas conversas. Contamos um pouco da nossa vida, eles, do trabalho como guias na indústria do turismo, das origens nômades. Rimos todos, somos nômades também, meu marido e eu. Mais silêncio. O fogo crepitava. Mohamed puxa um batuque e cantam os dois canções da sua gente. Fui encorajada a entoar um samba. Cantei É Hoje e, de repente, chegou a  hora de falarmos das estrelas. Num céu de lua quase cheia, elas não eram tão nítidas como costumam ser no deserto, mas a noite tinha uma clareza mágica de luz cristalina. Refletindo o céu, Mohamed desenhava constelações na areia.  Explicamos para ele que do meu lado Sul do Mundo, o céu era diferente. Os olhinhos dele faiscaram. Antes de nos recolher, infusão de verbena. Salin prometeu ensinar-me como se faz uma boa tajine. Não só cumpriu a promessa como conduziu-nos à bela Erg Chigaga onde, meu marido e eu, despedimo-nos de dois amigos.

Mohamed e Salin – Foto: acervo pessoal

 

O deserto tem muito de mar. A mesma imensidão. O mesmo vento soprando ondas nos ouvidos. A capacidade de acolher e de afogar. Vi miragens de água e achei a mais (in)crível das ilusões. E o seu povo tem uma noção de distância diferente da nossa: “Perto” é uma questão de quilômetros e as referências para seguir a rota são árvores, poços, estrelas. Ter vivido o deserto, mais do que apenas visto, foi uma experiência física e sensorial extremamente valiosa. Foi sair – mesmo – da zona de conforto, fazer o nunca feito, conhecer gente com vida tão diferente, mas, ao mesmo tempo, tão igual. O deserto me ensinou muito, anotei para nunca esquecer:

    • No seu ritmo, você pode e vai cruzá-lo
    • É seco, mas fértil de vida
    • Dunas e miragens são uma questão de perspectiva
    • É possível passar alguns dias sem tomar banho
    • Caminhe na vida como um nômade: pés descalços na areia quente, sem perder a simpatia ou a elegância
    • “Logo ali” pode demorar duas horas
    • O segredo da tajine são as especiarias
    • Prepare o seu chá com o tempo requerido pelas coisas importantes
    • Alimente os dromedários e deixe-os descansar
    • Sente-se em volta do fogo para cantar e contar estrelas
    • Os grãos de areia caem desse mesmo céu
    No dia que comecei esse texto, fiz minha primeira tajine de cordeiro em casa, seguindo as insruções do Mestre Salin. Meu marido e eu sentamos em volta dela e nos deliciamos. Ele abriu a garrafa de um bom Douro, e serviu com a calma que as coisas importantes pedem. Saimos do deserto, mas o deserto não sai da gente. Quando fechamos os olhos, sabemos que aquela duna estará sempre à nossa espera para que, juntos, possamos subi-la e assim assistir a mais um pôr do sol.

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1 comentário

Inis Agosto 2, 2019 at 4:40 pm

Lindo texto e experiência ! Me emocionei ao ler!!! Onde posso encontrar mais informações sobre como fazer esse roteiro que vc fez?

Resposta

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