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Como ser ativista política pelo Brasil em plena Dinamarca

“Mesmo morando tão longe da pátria amada, entendi que aqui dessas terras distantes também posso fazer ecoar minha voz por um Brasil sem ódio e com justiça social.”

Uma conhecida que mora na Alemanha disse outro dia que nunca se sentiu brasileira, nem mesmo quando morava no Brasil. Hoje, inclusive, se sente totalmente alemã. Eu, por meu lado, devo dizer que só passei a me ver como brasileira de fato quando saí do Brasil para viver no exterior, em 1998.

Dentro do Brasil a gente nem pensa muito sobre isso. Afinal, imagina-se que sejamos todos brasileiros. Mas fora das nossas fronteiras, mesmo sem querer, tudo o que a gente faz de alguma forma representa nossa identidade nacional. Acredito muito nisso porque já me senti incomodada ao ver compatriotas se comportando mal em lugares públicos. Para mim, aos olhos do mundo, a pisada de bola deles representava um país inteiro e eu sempre me senti um pouco protetora da imagem do Brasil, por mais bobo que isso possa parecer.

Talvez seja porque nos states estudei justamente literatura brasileira e me tornei professora de português. Era como se involuntariamente eu fosse uma espécie de embaixadora informal do Brasil nas universidades onde trabalhei.

Nos meus 20 anos de expatriada, a maior parte nos EUA, com estada de quase um ano na Alemanha e outros três aqui na Dinamarca, o que sempre ficou claríssimo é que o fato de sermos brasileiros não nos torna iguais, nem amigos. É óbvio que vários aspectos culturais nos unem e, cá entre nós, somos algumas vezes capazes de identificar um dos “nossos” num grupo bem diverso de pessoas. Mas, infelizmente, pode acontecer com certa frequência que a única coisa em comum que se tenha com alguns conterrâneos é a nacionalidade e nada mais.

Leia também: Como ser brasileira na Dinamarca

Eu me senti assim em várias situações nos meus longos anos nos EUA, especialmente no que diz respeito ao posicionamento político. Era difícil encontrar alguém de esquerda, com uma visão menos conservadora. Por isso cheguei à Dinamarca, em momento de terrível polarização política no Brasil, sem grandes expectativas.

Além da experiência anterior, desta vez também havia um posicionamento muito mais forte da minha parte. Depois de temporada curta aqui na Dinamarca, em 2016, por conta de um sabático do meu marido, ficamos em São Paulo, minha cidade natal, por seis meses, justamente no momento do circo de horrores do impeachment de Dilma Rousseff. Aliás, fui acompanhar a fatídica votação ao vivo no Vale do Anhangabaú. Pra te dar uma ideia da guerra, os pró impeachment se reuniram em outro lugar, na avenida Paulista.

Nada será como antes

Depois de testemunhar os paneleiros e patos paulistanos, eu sabia que eu teria de radicalizar.

Acompanhando a política de longe, fui ficando cada vez mais paranoica, ligada nas redes sociais por tempo além do que é saudável.

Tivemos mais um break da Dinamarca, desta vez uma estada na Alemanha. Quando retornamos, percebi em pânico que tinha perdido o prazo para transferir meu título eleitoral para cá. Estava com tudo em dia para votar no Brasil, mas não aqui.

Leia também: Política não se discute, certo?

Mesmo assim, queria participar; não queria me omitir. Em 2016, organizei um piquenique contra o golpe, mas não teve cara de protesto. Desta vez eu queria algo mais sério. Uma amiga sugeriu que eu criasse um evento no Facebook e assim o fiz. Isso foi uma semana antes do primeiro turno, um sábado frio e a chamada do evento: #EleNão.

Cheguei cedo à praça da prefeitura, onde aconteceu o ato. Tinha uma bandeirinha do Brasil bem pequena nas mãos. Meu marido chegou logo depois pra dar uma força e aos poucos as pessoas, cerca de 20, apareceram. Revi brasileiros que já conhecia e descobri novos. Percebi também que o meu sentimento e angústia eram compartilhados por outros brasileiros.

Nosso primeiro ato em Rådhuspladsen, Aarhus: modesto mas promissor. Foto: Mariana Gil

Na semana seguinte, gastei uma grana para ir com um grupo de brasileiras que votariam em Copenhague, a quase quatro horas daqui. A frustração de estar lá e não poder votar era enorme. Com os resultados e a ameaça cada vez maior da vitória de Bolsonaro, eu já estava tendo insônias. E, claro, não hesitei em chamar mais um ato, novamente uma semana antes das eleições. Eu tinha consciência que muita gente animada no primeiro ato era de fato anti-petista e que isso iria comprometer o segundo ato, mas o boca a boca e o medo do que estava por vir provaram que meus temores eram exagerados.

Daquela vez, cerca de 40 pessoas participaram, entre elas uma visita especial: uma brasileira que veio de Copenhague, onde vive há 40 anos, e onde chegou em fuga da ditadura militar no Brasil.

Emoção, aliás, foi o que não faltou. Tivemos roda de capoeira, discurso e, de brinde, uma bela tarde de sol.

Naquele momento eu também já tinha certeza de que faria a loucura de ir ao Brasil exclusivamente para votar. Duranga, comprei as passagens no cartão de crédito, avisei a família – que confirmou o que suspeitavam, que eu era mesmo maluca – e lá fui eu para um bate-volta insano de seis dias.

Entre os recordes da minha viagem, constam três passeatas em dois dias e uma entrevista para a TVT. Entoei hinos de protesto novos e velhos sozinha na multidão, chorei em plena Praça da Sé ainda lembrando do comício pelas Diretas Já. A volta para a Dinamarca foi triste, como se pode imaginar. Mas durmo melhor sabendo que depositei meu voto contra o fascismo.

E tem mais, parte do grupo que se conheceu durante nossos atos resolveu continuar a jornada formando uma pequena frente de resistência, e assim nasceu o Coletivo Aurora – Brasileiros em Aarhus Contra o Fascismo. No momento em que escrevo, estamos preparando nosso evento aberto a todos em memória de Marielle Franco.

Nosso diminuto coletivo não está só. Junta-se a outros na Fibra – Frente Internacional de Brasileiros Contra o Golpe (fundado em 2016) que reúne grupos de 57 cidades, em 24 países. E para quem me provoca dizendo que é muito fácil ser oposição na Dinamarca, lembro sobre o papel importante que os brasileiros no exterior tiveram, durante a ditadura militar, denunciando os horrores que aconteciam no Brasil. E morando na Dinamarca, de escuro a gente entende e sabe que a aurora há de vir depois da escuridão.

 

  • Foto de capa: Camila Viero

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4 comentários

Marcia Nunes Abril 9, 2019 at 9:15 am

Selma, obrigada pelo texto cheio de emoção e esperança. O Brasil há de sorrir novamente. Estamos juntas, companheira.

Resposta
Selma Vital Abril 9, 2019 at 9:22 am

Obrigada pelo apoio, Marcinha! Vamos juntas!

Resposta
Sonia de Paula Abril 10, 2019 at 2:21 pm

Valeu por compartilhar conosco, nós que vivemos fora do Brasil, da sua consciëncia e suas emocões.
Tamos juntas!

Resposta
Selma Vital Abril 10, 2019 at 2:43 pm

Obrigada, Sonia! Sim, seguimos juntas, com toda a certeza. Abraço

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