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Como ser mãe longe da própria mãe?

Tenho certeza absoluta de que esta pergunta já martelou  a cabeça de toda mulher que mora longe da mãe e que já passou (ou passará em breve) pela experiência da maternidade. Se, tornar-se mãe já dá um medo enorme, imagine sem a presença carinhosa e experiente da própria mãe, em uma ocasião em que nos sentimos tão vulneráveis e assustadas? Ou ansiosas e inseguras? Ou tudo ao mesmo tempo e misturado?

Quando fui mãe pela primeira vez, tive mãe e sogra morando em cidades próximas e foi tudo muito tranquilo: estava eu com 25 anos, não tinha a presença das duas o tempo todo, mas sabia que podia contar com elas, caso “o bicho pegasse”. E isso, para mim, era um conforto, já que eu não ficava nem sufocada pela presença 24/7, nem desprovida nos momentos de necessidade (ou de lazer, muitas vezes). Era o arranjo perfeito…

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Pena que durou pouco: minha mãe mudou-se para o Japão quando o meu mais novo estava com dois anos (e lá ficou por sete anos). Em poucos meses,  nós nos mudamos para outra cidade… depois para outro estado e, finalmente, para outro país… neste vai-de-um-lugar-para-o-outro, já se vão 15 anos e, de lá pra cá, perdi minha mãe, e meus filhos veem a avó paterna uma vez por ano.

Mas não dividi essa história com você à toa, só para mostrar meu lado desamparado ou triste, pelo contrário. Foi justamente para levantar a questão de que, apesar da distância, da saudade, das perdas, é possível sim, ser mãe (e uma boa mãe) longe de tudo e de todos, principalmente, da querida mamãe.

É possível sim, parir em um hospital com padrões diferentes dos que estamos acostumadas, com referenciais inusitados de atendimento médico (como parteiras ou enfermeiras que vêm à nossa casa para nos ajudar nos primeiros dias). É até compreensível que a nossa mãe não esteja por perto no momento em que tudo isso acontecer e que só possa conhecer o neto alguns meses ou até anos depois. Sorte a nossa que existem o Skype, o Whatsapp e o Facebook!

Contudo, a pergunta que sempre vem à minha mente é: como lidar com a questão da maternidade e todas as escolhas que ela implica em um ambiente internacional, diversificado, de multiplicidade cultural? E eu nem entro no terreno das culturas (e línguas) diferentes dentro da própria casa, já que sou casada com brasileiro e não tenho experiência pessoal nesse tópico. Confesso que sempre fico intrigada e curiosa com essa realidade, que não é a minha.

Outra angústia que me inquieta com frequência é de que, se meus filhos sobreviveram sem a presença das avós (e sem grandes traumas por conta disso) se eles no futuro também não acharão “normal” que eu não esteja por perto, se eu voltar para o Brasil e eles resolverem ficar por aqui.

Uma outra pergunta, que não tira meu sono, mas que me deixa um pouco apreensiva: que língua eu falarei com os meus netos? Outra dia pensei essa pergunta em voz alta em um encontro de brasileiras e uma amiga respondeu prontamente: “a sua”… verdade. Posso sim, perpetuar minha língua e minha cultura com um neto “híbrido” (pai: brasileiro/ mãe: múltiplas possibilidades!), mas será que ele vai me entender? Será que ele se sentirá confortável com isso? Será que minha nora vai aprovar? São muitas as dúvidas de uma mãe que ainda nem sonha em ser avó e que já lida com esses questionamentos…

 

Para mim, as questões são muito mais amplas: Todos eles falarão (confortavelmente) a mesma língua entre si? Quantas línguas serão faladas em um jantar de Natal em família? Haverá cochichos paralelos em múltiplos idiomas? Perguntas que passam pela cabeça de toda mãe que cria os pimpolhos fora da zona de conforto.

Mas aí você pode refutar: “ah, mas isso são detalhes. São meras bobagens especulativas, diante de tantas vantagens em criar filhos em ambientes multiculturais”. Concordo: os prós são muitos e evidentes, mas ainda assim, os contras sempre estarão presentes…

Para aliviar as tensões que essa situação mãe-à-distância pode causar, é muito importante encontrar maneiras de driblar os desafios ou desconfortos. Aqui em casa, há muito tempo já nos libertamos da “convenção das datas”. Então, Dia dos Pais, das Mães, do aniversário etc, é qualquer data mais próxima em que possamos todos estar juntos. Não cobramos a presença um  do outro, nem nos ressentimos com a ausência.

Outra maneira saudável e divertida: unir-se com pessoas passando pela mesma situação e viver o momento com uma atitude positiva. Certa ocasião, recebi um convite de uma amiga para comemorar o Dia das Mães em sua casa. Os filhos dela estavam estudando nos Estados Unidos, meu filho mais velho não tinha vindo para casa e, assim como nós duas, havia outras mães “desfalcadas”. Fizemos um churrasco bem democrático: quem estava com maridos e filhos, beleza. Foi acompanhada. Quem não estava, foi e curtiu mesmo assim, sabendo que não tê-los por perto faz parte da vida.

E assim segue a vida expatriada: nada de “mimimi”, nada de sentir culpa, mágoa, arrependimento. A vida nos brindou com a maternidade: seja por termos sido concebidas, seja por termos concebido um ser (ou mais). Não existe presente maior do que o dom da vida, que está aqui, e agora, para ser celebrada com um sorriso no rosto, um peito aberto e um pensamento leve.

Então se você, que está lendo este texto agora, é mãe, aqui vai o meu desejo de que seu dia seja abençoado, porque”Feliz Dia das Mães” , é todo dia em que acordamos e nos lembramos, de imediato, de que somos mães.

 

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10 comentários

Danny Maio 11, 2016 at 9:35 pm

Lindo! Perfeito! O vic semrpe beliscando o pescocinho. Que saudade!

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Regina Oki Maio 12, 2016 at 6:37 am

Verdade, minha linda… também tenho saudade da época em que era só colocar as coisinhas deles numa mochila e falar “vamos”? Beijo com muita saudade de você!

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marcia Maio 11, 2016 at 10:03 pm

Tive minha filha sem ninguem da familia ,moro no Japao ha muitos anos.
Mas tive uma amiga maravilhosa por perto e um marido super presente!!
Ligava p/o Brasil quase todos os dias,perdi meu pai no inicio da gravidez.
No ano 2000.E faco sempre o melhor para minha filha,nada me impediu de ser simplesmente Mae!

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Regina Oki Maio 12, 2016 at 6:35 am

Oi, Marcia! Que legal ler o seu testemunho. A vida no exterior nem sempre é fácil. Temos que encontrar um jeito de driblar a solidão e a saudade da família. Os bons amigos que fazemos nessa trajetória acabam sendo um presente e passam a ser a nossa família, também. Também perdi minha mãe logo que mudei para a Holanda, o golpe mais duro que já recebi da vida… mas temos que seguir em frente, né? Um grande abraço e obrigada por sempre prestigiar o meu trabalho!

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Lilian Maio 12, 2016 at 3:30 pm

São tantos os desafios né, Regina ?
Que lindo texto, ótimas reflexões !
Beijos

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Regina Oki Maio 15, 2016 at 5:01 pm

Querida Lilian, fiquei muito feliz com sua leitura e comentário. Bom demais quando uma colega de ramo nos prestigia com um comentário tão afetuoso! Um grande beijo para você!

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Gabriela Maio 12, 2016 at 6:08 pm

Minha mãe falaceu há 26 anos mas sinto muita falta do meu pai…Graças a Deus tenho uma sogra holandesa que me ajuda muito e meu esposo é maravilhoso. Com a minha primeira filha ainda morava no Brasil então meu pai me ajudou muito e agora com o segundo eu conto com meu pai pelo Skype, whatsapp…ele é médico entao qualquer coisa que acontece com as kids é pra ele que eu ligo primeiro…hahaha
Ah, e que legal saber que és descendente de japonês. Morei um ano lá estudando, sou apaixonada !!!

Bjs

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Regina Oki Maio 15, 2016 at 5:00 pm

Oi, Gabriela! Muito obrigada pela leitura e por compartilhar conosco sua história. A saudade é uma desafio e tanto na vida de quem mora fora do Brasil. Felizmente, você tem o seu pai, que mesmo à distância, continua muito presente na sua vida. Ah, a maravilhosa tecnologia…E temos muito em comum, então. Também sou apaixonada pelo Japão e tenho muito orgulho das minhas raízes. Um grande beijo!

Resposta
Cintia Maio 15, 2016 at 10:51 am

OLá Regina,

Gostei muito do seu texto e das reflexões levantadas. Eu sou uma mãe longe da própria mãe e com uma filha ainda pequena.~Me sinto feliz de ter podido contar com a presença da minha mãe nas 4 primeiras semanas após o parto, mesmo com enfermeira especializada em casa por 10 dias, mãe é mãe. Alguém que a gente confia plenamente e nos passa carinho e segurança. Acredito que ser mãe em outro país, muitas vezes, requer uma flexibilidade, paciencia e resiliencia maior do que se estivermos em nosso próprio país, na nossa zona de conforto.Por outro lado, aprendemos a ser mais objetivas e como voce disse sem “mimimi”.
. Falo portugues, conto histórias e canto músicas do folclore brasileiro. Como ela irá assimilar isso ? Vai ser consciente de suas raízes brasileiras ou a esquecerá em detrimento da holandesa ? Afinal o pai e a família próxima são holandeses.. São muitas perguntas , cujas respostas só virão com o tempo. , Bjs

Resposta
Regina Oki Maio 15, 2016 at 4:57 pm

Oi, Cintia! Muitíssimo obrigada pela leitura e pela sua participação neste debate. São muitos questionamentos, de fato. As respostas virão com o tempo, mas independentemente do desfecho, acho que as experiências ao longo do processo valem a pena. Todos enriquecem com este aprendizado: mães e filhos. O importante é que estejamos certas de que, apesar de não ser uma tarefa fácil, ser mãe é a coisa mais gratificante do mundo. Fico muito feliz em você prestigiar meu trabalho. Um grande beijo!

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