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Holanda

Os holandeses e as férias de verão

O verão na Holanda é uma época aguardada com ansiedade e entusiasmo. Todo mundo fica com o mesmo frenesi que sentimos com relação às festas de fim de ano no Brasil. Curiosamente, o final de junho tem o mesmo astral do início de dezembro no nosso país: aquele clima de expectativa, confraternização e encerramento, graças ao término do ano escolar.

No primeiro verão que passei por aqui estranhei muito este aspecto cultural, pois para mim essa sensação vinha junto com o Natal. Fiquei muito encafifada com isso: não consegui distinguir se isso acontecia por causa do verão, propriamente dito (afinal, ele demora a chegar por aqui!), ou se era porque todo mundo não via a hora de estar, finalmente, livre para curtir a nova estação. Anos depois, ainda acho tudo isso muito curioso, mas tenho a tendência a opinar que é, de fato, porque o ano escolar acabou…

 

Bem, mas independentemente de ter ou não compromisso acadêmico, o holandês celebra e curte esta estação o máximo possível. Muita gente opta por viajar. Aliás, este povo viaja muito! Para se ter uma ideia, em 2015, cerca de 12.7 milhões de holandeses viajaram pelo menos uma vez durante o ano. É muita gente, se considerarmos que a população atual é um pouco menor que 17 milhões de habitantes.

Porém, mesmo quem não viaja, encontra uma forma de aproveitar o verão por aqui mesmo… e o jeitão deles de curtir pode parecer meio estranho pra nós, brasileiros, mas é garantia de diversão para eles e para aqueles que, de peito e mente abertos, resolvem experimentar o “Dutch way” de aproveitar o verão, que é a melhor semana do ano!”

Fatos e fofocas de um verão holandês…

Essa frase de que “o verão é a melhor semana do ano na Holanda” é muito difundida entre os de fora. Até em Inglês, já ouvi a piada… isso se deve à instabilidade do clima. Às vezes, em um mesmo dia, você passa pelas quatro estações… Chove, faz sol, chuvisca, faz frio, venta, cai um pé-d’água, faz sol de novo!… Você acorda com 10 graus do lado de fora, às três da tarde está fazendo 25 graus e, na madrugada pro dia seguinte, está abaixo dos 10°C de novo… é preciso ser flexível. Mas há dias lindos e estáveis, também. O fato é que duas semanas ininterruptas de tempo bom e quente, juro, nunca vi! Talvez nem exista tal ocorrência nos registros climáticos de bancos de dados holandeses!

Eu, brasileira, caiçara, nascida em Santos e com os últimos anos vividos no Rio de janeiro, sempre achei o verão daqui muito fraquinho. Morava no norte da Holanda, onde um dia tórrido de sol mal passava de 20 graus. Todos os anos, ia para o Rio durante o mês de julho e o povo comentava: “Nossa, você vai deixar de curtir o verão?! Não é inverno lá agora???”

Mas o fato é que, às vezes, um dia invernal no Rio ficava mais quente do que um de verão daqui. E eu achava isso hilário. Com o tempo, fui percebendo que é melhor que as temperaturas não fiquem muito altas por aqui, mesmo. As casas não tem ar-condicionado ou ventilador de teto e com as enormes janelas de vidro, muito comuns,  a casa vira uma estufa num dia bem quente. E fica bem desconfortável, especialmente, para dormir.

Outra coisa curiosa: morar perto da praia na Holanda  é bem diferente de morar perto da praia no Brasil. Honestamente, moro a três quilômetros da praia mais famosa do país: Scheveningen. Confesso que até esqueço disso. Primeiro, porque na maior parte do ano, está frio e não há o apelo de “pegar um bronze”. Segundo porque, mesmo nos dias de verão, curtir a praia aqui é bem diferente de curtir no Brasil.

 

Não há água de coco no final de uma corrida. Não há gente de biquíni ou de sunga andando pelo calçadão. Muitas vezes, você esbarra com gente usando indumentárias que não combinam com um dia quente, como casaco, bota de couro ou calça jeans. Isso sem contar o vestuário relativo a certas religiões. Eu, honestamente, fico encabulada de tirar a camiseta e ficar só de top de ginástica… mesmo que o sol esteja L-I-N-D-O e eu doida para pegar uma corzinha.

Outra coisa extremamente “estranha” para nós: alguém trocar de roupa ao chegar e ao sair da praia. E quando digo “trocar”, não estou me referindo a cangas, vestidinhos e afins. Muita gente chega de roupa normal, abre a bolsa, pega o calção ou o maiô e troca ali mesmo, na frente de todo mundo e sem a menor cerimônia. Tudo bem que, às vezes, o(a) dito(a) cujo(a) enrola uma toalha ao redor do corpo (com uma destreza impressionante!), mas se não o fizer… ninguém se abala com isso. Além disso, sentar na areia de roupa e tudo, ou vestir de novo o jeans depois de pegar uma praia e ir embora para casa com roupa de “passeio” é algo comum.

Outro fato bem interessante: como há pouquíssimas praias na Holanda, a maior parte da população curte o verão mesmo é nos inúmeros parques, lagos (alguns com “praia”, também), praças ou qualquer outro lugar que tenha uma grama verdinha e convidativa para estar com os amigos ou mesmo sozinho. Não raro, você vê pessoas aproveitando o solzinho, até nos centros das grandes cidades, na hora do almoço, no meio do expediente ou no final do dia. Tudo sem a menor frescura nem complicação. Qualquer lugar ao sol é bom!

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E lógico, os canais… água é água e a diversão fica garantida para esse povo que adora navegar. Aliás, muita gente mora em casas cujos quintais têm acesso a algum canalzinho ou canalzão. Barcos de todos os tamanhos ficam atracados no fundo do quintal. São usados com a mesma naturalidade e com o mesmo fim que usaríamos um carro: simplesmente para ir ao centro da cidade, por exemplo. Eu ousaria dizer que é possível ir de qualquer ponto da Holanda a outro, usando transporte aquático, coisa que os locais sabem fazer como ninguém!

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São por esses e outros traços da cultura holandesa que eu defendo que não existe forma certa ou errada de curtir uma estação. Cada um curte como quer, como acha melhor e mais gostoso. O que importa, no fim, é ser feliz. O esquisito para um é o familiar para o outro. E vice-versa. Eu, com o passar dos anos, aprendi a apreciar muito o verão daqui e confesso: nem acho mais as coisas que contei tão escalafobéticas assim… mais ainda: muitas vezes, já me percebo agindo bem “holandesada” em diversas situações!

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