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Camboja

Conhecendo uma guerreira cambojana

Esse artigo é especial, pois este mês comemoro 1 ano como colunista para o BPM. E para celebrar, não poderia dedicar este texto para outra pessoa a não ser uma cambojana que conheci pouco tempo atrás. Trabalhamos juntas numa guest house (pousada) e ela virou minha amiga, parceira e confidente.

Conheçam a Kun Thea: cambojana, 23 anos e uma história de vida que irá te emocionar, assim como me emocionou. Também vai fazer você refletir sobre suas conquistas e fazer você agradecer pelo o que você possui, seja herdado ou conquistado, seja material ou sentimental.

Desde pequena ela foi mimada pela família, filha mais nova, super protegida, até que, aos 10 anos, viu seu mundo virar do avesso. O seu pai trabalhava como vendedor na área de construção. Eles viviam de aluguel, até um cambojano oferecer um emprego de fazendeiro e, em troca, ofereceu uma terra para ele construir sua casa. Três anos depois viu sua casa tomada, já que a terra não era sua propriedade.

Kun Thea foi obrigada a parar de estudar para ter que trabalhar e ajudar a pagar o aluguel de uma nova casa. Ela conseguiu estudar até o ensino fundamental. Mas não pense que ela tinha aula de história, geografia e ciências; apenas khmer (língua nativa) e números (a matemática mais simples). Uma observação um tanto quanto interessante: a criança ingressa na escola em torno de 5 anos e só é apta a iniciar seus estudos após um teste: quando ela consegue colocar a mão direita na sua orelha esquerda (pausa para questionamentos). Ela gostaria de voltar a estudar, mas trabalha em período integral e se considera velha para terminar o ensino médio, impossibilitando-a de ingressar na faculdade.

Após a perda da casa, o pai começou a beber e ficar agressivo e seus pais se divorciaram. Foi então que ela, sua mãe e sua irmã se mudaram para a casa dos tios aqui em Siem Reap. Vivendo na área rural, Kun Thea passou a trabalhar na fazenda. Ela recebia 1 dólar por dia para 8 horas de trabalho, fizesse chuva ou sol, ela plantava, colhia e alimentava os animais. Nesse meio tempo, seu pai virou monge e passou por um processo de purificação, se afastando da família por 5 anos.

Após a fazenda, ela também trabalhou com construção, pegou no batente, construiu parede, pavimentou rua etc. Isso entre 13-14 anos de idade.

Na guest house, ela começou a trabalhar com 15 anos como faxineira e não falava absolutamente nada de inglês, se comunicava através de mímica e com muitos desentendimentos. Então, a dona pagou para ela uma escola de inglês por 1 ano e assim ela aprendeu inglês.

Seu salário inicial era de 40 dólares e hoje ela ganha 250. Quase caí para trás! Para mim, ela era uma gerente, afinal, ela trabalha neste lugar há 8 anos! E não parou por aí: ela e os demais funcionários ganham 1 dólar para refeição (a comida de rua custa entre 1 e 3 dólares), já que não é permitido comer e beber “da casa”. Kun Thea tem outro emprego como faxineira. Ela cobra 2,50 a hora e ganha em torno de 200 mensais.

Naquele momento, a minha vontade era entregar todo o meu salário para ela e dizer: “Toma, é seu. Você merece muito mais”. Mas eu sei, e infelizmente, que ela não é a única nesta situação. Quantas Kun Theas têm por aqui no Camboja e no mundo afora? Quantas no nosso Brasil? Quantos que não tem oportunidade, mas vão atrás e fazem verdadeiros milagres para conseguir sobreviver e avançar na vida? Aqui há inúmeros cafés, restaurantes e até mesmo hotéis voltados para o lado social, com a função de dar oportunidade para os locais, treiná-los e capacitá-los para melhores condições e oportunidades de trabalho.

Perguntei para ela também sobre como a sociedade a enxergava e ela me disse desanimada: “Quando comecei a trabalhar aqui na guest house, vizinhos e ‘amigos’ pararam de falar com a minha família. Eu era má vista por trabalhar atrás de um bar. Trabalhar à noite não é para uma mulher de família”. Anos depois, com seu restabelecimento, quem virava a cara para ela e sua família hoje a considera novamente. Ela dá uma risada e diz: “Hoje faço com eles o que faziam comigo. Não cumprimento, passo reto. Agora que eu tenho dinheiro e posses sou considerada?” (Risos).

Com o passar dos anos, Kun Thea conquistou sua casa própria. Com ela moram sua mãe, duas irmãs, uma com seu marido e seus dois filhos, e seu irmão com sua mulher e seus dois filhos. São dez pessoas dividindo dois quartos e sala. Até hoje seus pais não se falam, quando ele dorme em casa, fica na área de fora, quando não dorme em seu próprio tuk tuk na rua.

Kun Thea com amigos em sua casa

Sua propriedade custou em torno de 2.500 dólares. Ela acredita que em mais dois anos ela termina de pagar o banco. Quem a ajudou também financeiramente foi um namorado cambojano que até então iria se casar. Mas a família dele recusou pelo fato de, na época, eles serem considerados pobres por não terem casa própria e por ela trabalhar à noite. Mas ela também não está muito preocupada, pois não pensa mais em se relacionar com cambojanos. Ela também já se relacionou com estrangeiros e disse que prefere por sermos mais mente aberta. As meninas aqui se casam muito cedo (tem mais detalhes neste meu artigo sobre as mulheres do Camboja), logo, ela é considerada velha (23 anos) para casar.

Conversando sobre sonhos, ela me disse: “Quando era pequena, via um avião e falava para minha mãe que queria voar. Ano passado realizei esse sonho e fui conhecer Kuala Lumpur (capital da Malásia) com um casal de ingleses que moram em Siem Reap e me conhecem há anos. Nunca vou me esquecer da sensação de voar, todos no avião me olhavam e achavam engraçado, estava eufórica!” Além do sonho realizado de conquistar sua casa própria, ela possui uma moto, um iPhone (símbolo de status) e disse que sempre vai trabalhar para conquistar o que sonha. Seu pai virou motorista graças a ela, que comprou a moto e deu a ele uma chance de recomeçar a vida. O pai dela também trabalha aqui na guest house e ele não paga pelo ponto pelo fato da Kun Thea trabalhar aqui há anos.

Esta é a Kun Thea, jovem, guerreira, batalhadora, forte e ambiciosa, que começou a trabalhar aos 10 anos e desde então sustenta sua família. Uma lição de vida em forma de mulher.

No Camboja eu vivo em constante aprendizado. Quando conquisto algo agradeço e quando perco tento entender o porquê. Sou grata por ter tido acesso a educação, pelos meus pais sempre me apoiarem nas minhas decisões, e o mais importante, sou grata a tudo que tenho e que conquisto.

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3 comentários

Alberto Neute Abril 23, 2017 at 3:09 pm

Belo texto para uma bela história de vida. Parabéns.

Resposta
Roberta Jorge Maio 9, 2017 at 7:14 am

Obrigada pelas palavras Alberto 😉

Resposta
Leandro Henrique Fevereiro 17, 2018 at 12:36 am

Estou amando seus relatos
Sobre o país…
Foi incrível a viagem

Resposta

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