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A crise dos refugiados na França

A imagem do corpo de Aylan Kurdi, menino refugiado sírio de três anos inocentemente estendido nas areias da praia de Ali Hoca, em Bodrum, sendo tristemente observado e posteriormente carregado com cuidado por um policial turco abriu os olhos do mundo para um drama vivenciado diariamente por refugiados após a explosão da guerra na Síria em 2011.

Resumidamente, o levante contra o regime de Bashar al­-Assad teve início em 15 de março de 2011 durante a insurreição da Primavera Árabe, período em que as populações de países árabes como Tunísia, Líbia e Egito se revoltaram contra os governos de seus países. Embora o levante tenha começado pacífico, a partir de agosto manifestantes fortemente reprimidos passaram a recorrer à luta armada.

Segundo o observatório sírio para Direitos Humanos, do início dos conflitos até março de 2014 mais de 140 mil pessoas já morreram. Entre os mortos estão mais de sete mil crianças e cinco mil mulheres. O governo sírio controla as grandes cidades e as estradas mais importantes e tem usado a fome e a miséria como principal arma para punir a população civil, a maior vítima dos conflitos.

É inegável que o mundo vive a maior crise migratória de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial, quando as pessoas são forçadas a abandonar seus países por conta da violência. O papel humanitário de países europeus em ajudar na gestão dessa crise tem sido muito questionado mundo afora, embora não sejam os países que mais recebem os sírios.

 

Segundo a Anistia Internacional, 95% dos refugiados sírios estão em apenas cinco países: Turquia, Líbano, Jordânia, Iraque e Egito, em razão da proximidade. Frequentemente se indaga por que os refugiados não recorrem aos ricos países do Golfo Pérsico, considerando a maior semelhança de cultura e língua materna. O fato é que os sírios não possuem livre tráfego por esses países. O processo de obtenção de visto de turista ou permissão para o trabalho é caro e há restrições veladas se dificultam a obtenção de vistos.

Assim, os refugiados optam por recorrer à Europa migrando pelo mar Mediterrâneo, apesar do risco iminente de morte por afogamento num provável naufrágio. A reação dos governos europeus não é unificada.  Enquanto alguns países têm se mostrado receptivos aos refugiados, outros levantam barreiras diplomáticas.

Na França, o governo se comprometeu a acolher 24 mil refugiados em dois anos. Todavia, a opinião pública francesa é no sentido de ajudá­-los, mas não de acolhê-los. É a conclusão que se pode tirar da enquete realizada entre os dias 8 e 9 de setembro por amostragem de 1.010 pessoas, representando a população francesa de mais de 18 anos.

A população não é totalmente favorável à chegada dos refugiados. Para 70% dos pesquisados, o acolhimento proposto pelo governo francês é suficiente, enquanto que metade dos pesquisados não gostariam de que os refugiados vivessem em suas cidades. Embora a maioria seja contra o acolhimento dos emigrados, os franceses se mostram dispostos a auxiliá-­los com doação de dinheiro a associações ou com a doação de seu tempo livre, bem como estão abertos à contribuição com alimentos e cobertas.

Com a divulgação da foto do pequeno Aylan registrou-­se um aumento da mobilização de voluntários em prol dos refugiados. Contudo, mesmo com a sensibilização, não foi cogitada pelos entrevistados a liberação das fronteiras.

O real anseio da população é que seja encontrada uma solução definitiva para que os cidadãos sírios possam reconstruir suas vidas em seu país de origem. Inclusive 64% dos entrevistados são favoráveis a uma intervenção militar francesa na Síria, medida recentemente defendida pelo presidente francês François Hollande.

Em Toulouse, no sul da França, cerca de 130 refugiados se instalaram irregularmente num edifício abandonado de propriedade da prefeitura na área periférica da cidade, após uma primeira passagem pela Espanha. A maioria deles possui um visto temporário na Espanha, o que em tese permitiria o livre acesso por 26 países europeus, dentre eles a França, graças a vigência do Espaço Schengen, que nada mais é que uma zona de livre circulação europeia.

Embora as condições de vida sejam melhores das que eles possuíam na Síria, ainda assim as condições atuais são consideradas insalubres pelas autoridades. Inúmeras associações prontamente se mobilizaram em estender as mãos para esses refugiados desde sua chegada em Toulouse, em março deste ano, com a doação de água potável, alimentos e roupas.

Sob protestos da população, a justiça francesa determinou a expulsão dos refugiados do edifício invadido até o dia 28 de outubro de 2015, sob a alegação das famílias sírias estarem atualmente em perigo de acidente em razão das condições precárias do imóvel.

O futuro dos refugiados sírios no continente europeu é incerto. O momento certamente exige a sensibilidade dos governos europeus em contribuir para o bem-estar dos cidadãos sírios, sem esquecer que cada país possui autonomia e soberania para defender seus próprios interesses em detrimento de interesses secundários, sob pena de carregar um fardo que não lhe pertence.

 

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10 comentários

Juraci Pike Outubro 2, 2015 at 5:29 pm

Ola Carolina, aqui na Inglaterra, tb tem uma divisao de como auxiliar os sirios e sobre a intervencao militar para solucionar os conflitos da regiao, principalmente devido a complexidade da peculiar guerra civil. O que mais intriga e’ que eclodiu ha’ quatro anos e os cientistas politicos nao previram o exodo sirio e nenhum dos paises da comunidade se preparou para receber os refugiados, seja em regime de assistencia temporaria ou definitiva. Enquanto isto, ficamos petrificados diante da tela de TV nos sentindo miseraveis perante as imagens desoladoras de sofrimento, principalmente das criancas. Voce fez uma excelente radiografia de como o problema esta sendo tratado pelas autoridades francesas, que nao e’ muito diferente dos britanicos. Abracos xxx

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Carolina van Heesewijk Outubro 2, 2015 at 10:39 pm

Obrigada pelo seu comentário, Juraci! Muito boa sua análise também! Abraços!

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João Pedro O.da Costa Outubro 3, 2015 at 2:08 pm

Parabéns Carolina ,por sua excelente exploração sobre o tema da crise dos refugiados Sírios.

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Carolina van Heesewijk Outubro 3, 2015 at 7:00 pm

Muito Obrigada, João! Beijos!

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Cássia Outubro 4, 2015 at 2:27 pm

Parabéns Carolina pelo releitura do ponto de vista dos franceses. Realmente estamos vivendo uma crise humanitária que nos coloca em um situação de meros assistentes. Sob o ponto de vista Geopolítico a guerra da Síria é um estopim uma intervenção militar é delicada, pois envolve a Rússia que a poia o Presidente ( um ditador herdeiro do poder), os rebeldes apoiados pelos E.U.A , mais os Estados Islâmicos ( armados até os dentes matando os infiéis e aliciando jovens no mundo para sua causa), realmente esse povo não tinham outra saída ou morrem em precárias embarcações ou em seu país feitos cães explodindo nos ares.

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Carolina van Heesewijk Outubro 4, 2015 at 7:39 pm

Muito Obrigada pelo seu comentário, Cássia! Sempre bom aprender mais sobre o assunto! Beijos

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Cristiane Leme Outubro 4, 2015 at 11:47 pm

Seu texto é interessante porém na questão dos países árabes ricos é preciso mencionar que a razão preponderante pela qual eles não recebem refugiados é porque eles não são signatários do acordo humanitário com a ONU para dar asilo e abrigar refugiados de guerra – os países europeus como França, Dinamarca, Reino Unido, entre outros países europeus, são signatários desse acordo e por isso, têm obrigação de receber pedidos de asilo e refúgio. Muitos desses solicitantes de asilo nem querem, na verdade, ficar na França, devido à alta taxa de recusa de pedidos de asilo emitidas no país. Vi ontem mesmo um documentário sobre a situação em Calais, onde os postulantes a refugiados tentam, a todo custo e arriscando a própria vida, ir para a Inglaterra, onde acreditam que serão mais bem tratados que na França. O que tenho observado é que está surgindo uma grande onda conservadora-direitista em toda a Europa, onde a cultura do medo tem sido cultivada e alimentada às custas do sofrimento alheio. Felizmente há, todavia, muitas boas almas se encarregando de lutar por justiça e pela humanização do tratamento dessas pessoas nesses países.

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Carolina van Heesewijk Outubro 5, 2015 at 9:09 am

Obrigada pelas considerações, Cristiane! Informações complementares sempre são bem-vindas! ???? Abraços!

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Elias Outubro 18, 2015 at 3:31 am

Você vai ser colaboradora fixa do blog? Gostaria que você falasse sobre a cultura e o povo francês nos seus futuros posts, é algo que desperta minha curiosidade quando se fala do país. Deixo aqui minha sugestão. Um abraço!

Resposta
Carolina Coelho van Heesewijk Outubro 26, 2015 at 11:41 pm

Boa Noite, Elias! Sou colaboradora fixa do blog. Muito obrigada pelo comentário! Fique de olho nos próximos posts, pois em dezembro falarei sobre o povo francês e sua rica cultura! Abraços!

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