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Romênia

Cultura brasileira em Bucareste

Uma vez por semana, durante as tardes de primavera e outono, passo pelo portão de acesso da elegante casa situada no número 40 do Bulevardul Aviatorilor, sempre saudada pelo aconchego de um bem pronunciado: “Boa tarde, tudo bem!?”. É que estou em solo brasileiro, na Embaixada do Brasil na Romênia, onde chego para dar aula como professora voluntária de português e cultura brasileira.

O curso, implementado em 2012, é gratuito e aberto a qualquer pessoa maior de 18 anos. Ministrado por voluntários, os professores são funcionários da Embaixada ou membros da pequena comunidade local. Este é o meu caso! Nesses cinco anos de existência, já recebeu cerca de 500 alunos que passam por quatro níveis e um módulo de conversação. Frequentado, em grande parte, por universitários, termina por atrair um público eclético, incluindo profissionais liberais, empreendedores e também aposentados.

Como descreve um de seus idealizadores, o cônsul Zauder Castro: “Nossa ideia era oferecer um curso gratuito de língua portuguesa, utilizando a cultura brasileira como base.” E assim tem sido! Intercalando lições de gramática com temas livres, que abrangem desde a atual crise política a receitas de acarajé narradas com sotaque baiano; sem deixar de passar pelos batuques do maracatu pernambucano, letras de Chico Buarque e dicas de ecoturismo, a professora em questão, não esconde a empolgação ao falar sobre o país dela.

Da esquerda para a direita, alunas do curso de português: Anca, Mihaela Mirea, eu, Elena, Daniela e Mihaela Virginia – Foto: acervo pessoal

A troca é rica, fazendo-me compreender a visão do outro sobre essas questões nossas e aprender a respeito de facetas da Romênia que eles terminam me ensinando. Na sala de aula, as minhas 11 alunas e 1 aluno (nesse curso, mulheres são maioria absoluta!) compartilham o interesse em falar mais uma língua estrangeira, alem da curiosidade de alguns ou, até mesmo, de certo carinho nutrido pelas coisas do Brasil, especialmente pela música.

Que os versos e acordes de nossos cantos conquistaram o mundo é sabido, não existindo surpresa ao se deparar com música brasileira tocada ao fundo de bares, restaurantes e afins, especialmente os temas mais conhecidos da bossa nova. Apesar disso e por isso, naquela noite de inverno, em um Café no centro de Bucareste, me surpreendi com o Carinhoso de Pixinguinha, cantado pela voz mansa da romena Gabriela Costa, com arranjos do também romeno Alex Man.

Gabriela opta por uma seleção longe do óbvio, por acreditar que, certas músicas, de tão repetidas, acabam perdendo o seu significado. Assim, incorpora às suas apresentações sons preciosos e pouco divulgados no estrangeiro, como canções de intérpretes e compositores do calibre de Elis Regina e Dorival Caymmi. Segundo ela: “A gente toca uma música brasileira menos conhecida que bate na porta do coração de quem a ouve, num ritmo suave e sofisticado. Para isso, tento me aproximar o máximo possível do original, usando apenas voz e violão.”

O show é do tipo intimista, cativando os ouvidos e os gostares de uma plateia local que se deixa envolver pelas melodias poéticas da nossa língua bonita, seja com o abraço quente daquele Carinhoso cantado em Café de inverno, ou o beijo fresco de um Quem te viu, Quem te ve, em Jardim de verão.

Aliás, saindo do palco e da sala de aula, encontro, com frequência, pelas ruas, certo apreço por esse país tão distante. Basta informar a minha origem para olhos se arregalarem e sorrisos surgirem: “Meu sonho é conhecer o Brasil!”. A afirmação, muitas vezes, vem embalada pelas cenas retratadas em nossas telenovelas. Acreditem, elas também chegaram na Romênia. O Clone, Terra Nostra e, claro, sempre ela, A Escrava Isaura, fazem parte do repertório pop de alguns deles.

Essas novelas fizeram sucesso sobretudo no final dos anos 1990, começo dos anos 2000. Com o fim do comunismo, a Romênia se abriu para o mundo, consumindo e conhecendo o que a tv, antes limitada a um único canal estatal, focado em propaganda do regime, tinha para mostrar. Nesse contexto, o Rio de Janeiro narrado por Glória Perez e Manoel Carlos ganhou o imaginário local.

Agora andando, literalmente, por essas mesmas ruas, qual não foi a minha surpresa ao descobrir que a Biblioteca Publica Ioan Slavici, no Setor 1, possui uma coleção de autores brasileiros. Iniciada através de uma doação feita pela Embaixada do Brasil, para ter acesso aos livros da Colecţiei Brasiliana basta se registrar como usuário geral da BMB – Biblioteca Metropolitană București. O cadastro pode ser feito na hora da visita, apresentando documento de identidade e comprovante de residência local.

E saindo das ruas e entrando na academia, posso dizer que foi a Romênia quem me apresentou à capoeira. O Capoeira Vadiação Bucureşti, no Setor 6, liderada pelo dançarino e mestre Antonio dos Santos, inicia de crianças a adultos nas artes da ginga. E quem quer aprender a jogar capoeira na Romênia? Sem dúvidas, os romenos! Além de alguns brasileiros, como a colunista que aqui escreve. Antonio, meu conterrâneo de Recife, recebe os praticantes com um sorriso acolhedor e o seu romeno fluente, combinados a uma paciência sem fim para repassar posições em diferentes níveis de prática. No final do treino, fica a sensação de que ele oferece o que o Brasil tem de melhor: gente que sabe acolher e cultura rica de se aprender e vivenciar.

Pensando nesse melhor, lembrei de um comentário comumente feito, ao me identificar como faladora nativa de português. Os romenos aprendem na escola que as línguas romena e portuguesa têm algo bonito em comum. Ambas “substantivaram” o ato de sentir falta. Em romeno, “dor” significa “saudade”.

E fica a pergunta: neste 7 de setembro, ainda vale a pena comemorar o Brasil? Logo o Brasil dos últimos tempos, com a sua realidade sórdida esfregada diariamente nas nossas caras? Logo o Brasil, eterno país de um futuro nunca realizado, mandando embora para o resto do mundo milhares dos seus? De longe, com saudade, mas sem romantizar, por sentir a dor – dor nossa, não a saudade romena – dessa realidade, a minha resposta é: sim; pelo o que a gente ainda tem de bom; para que nada nos roube nossas qualidades.

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2 comentários

Matias Marcier Janeiro 7, 2019 at 11:27 am

Oi Cristina, adorei o seu texto. Também sou encantado pela Romênia. Tenho alguns amigos lá, meu pai era romeno, nasceu em Cluj, viveu grande parte da sua vida no Brasil e morreu em Paris em 1990 aos 74 incompletos. Foi um grande pintor…Emeric Marcier (fiz para ele uma pagina no Facebook, se tiveres curiosidade dê uma olhada). O curso onde você dava aulas ainda existe?
Atenciosamente, um abraço, Matias Marcier.

Resposta
Cristina Hélcias Janeiro 22, 2019 at 4:57 pm

Olá, Marias, obrigada pelo comentário! O trabalho do seu pai e belíssimo e admirável, gostei bastante do que vi. E, sim, o curso segue na Embaixada brasileira em Bucareste. Abraços, Cristina

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