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Cursos de gastronomia em Buenos Aires: parte I

O primeiro curso superior de gastronomia no Brasil foi criado em 1994. Desde então e, principalmente, na última década, com o “raio gourmetizador” que atravessou todo o território nacional, a procura por cursos da área só aumentou – sejam eles amadores ou profissionais. Para saber qual escolher, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, o primeiro passo é ter claro o objetivo pretendido com ele. Essa definição é indispensável ao direcionamento do tipo de curso a ser escolhido, duração, instituição de ensino e investimento a ser desembolsado.

O tema deste e do próximo texto é a oferta e funcionamento dos cursos de gastronomia em Buenos Aires (Capital Iberoamericana de la Cultura Gastronomica durante 2017). A parte I sobre os cursos profissionais longos, chamados “carreras” na Argentina, e, a parte II, sobre documentação e trâmites, cursos curtos e de especialização.

A formação profissional em gastronomia geralmente envolve cursos de larga duração. Portanto, antes de decidir vir estudar em terras porteñas, é imprescindível considerar a disponibilidade para morar e manter-se fora durante 5 meses a 4 anos (dependendo do curso desejado) e os altos custos de vida da cidade. Além de alimentação e moradia – que possuem seus valores majorados com grande frequência e intensidade devida à altíssima inflação no país –, é necessário considerar que as mensalidades também sofrem reajustes constantes. No Colégio Gato Dumas, por exemplo, foram anunciados em março/2017, para os alunos já matriculados e cursando, um primeiro reajuste de 9% no segundo mês de aulas e outro de 10% no terceiro, resultando em quase 20% de aumento no decorrer de um único semestre. Por causa disso, inclusive, as escolas não costumam aceitar o pagamento integral do semestre. Estudar e trabalhar ao mesmo tempo é difícil em qualquer lugar, mas ser estrangeiro é uma carga que você irá carregar sempre quando sair do país e que costuma ser um fator complicador na busca do primeiro trabalho fora.

O segundo ponto a ser considerado é o idioma. As escolas de gastronomia daqui não exigem fluência no espanhol. No entanto, é mais do que razoável ter conhecimento básico a intermediário da língua para permitir cursar, compreender, aprender e realizar as provas.

A terceira importante questão é investigar as grades curriculares e escolas. Enquanto no Brasil a maioria dos cursos de gastronomia é oferecida a nível superior em faculdades e universidades, e a nível profissionalizante em instituições como o Senac, em Buenos Aires são comuns escolas exclusivamente dedicadas ao universo gastronômico. Claramente, há diferenças importantes entre as grades brasileira e argentina, como cozinhas regionais e do país. A oferta de ingredientes, também, é completamente influenciada pelos hábitos e oferta local e as técnicas, ainda que clássicas, sofrem adaptações culturais.

Considerando minhas experiências em Belo Horizonte (Estácio de Sá e SENAC) e em Buenos Aires (Gato Dumas), posso dizer que cada escola tem seus pontos fortes. Aqui me deparei com laboratórios (cozinhas) muito bem montados, com equipamentos de ponta. Na especialização que cursei, a disciplina de cozinha a vácuo contava com embaladeiras e equipamentos de sous vide dos melhores existentes no mercado. Como o foco dessas escolas é único, todo o investimento vai para ele. Os programas de estágio são variados e bem organizados, há muitas parcerias com hotéis de todo o mundo e apoio nesse intercâmbio no exterior. Além disso, sempre são organizados seminários, oficinas de apoio e mini cursos de temas específicos, disponibilizados aos alunos sem custo.

Por outro lado, no Brasil, contei com melhor estrutura acadêmica e corpo docente com maior nível de escolaridade, além de mais acessíveis (o que decorre de fator cultural), sempre disponíveis para esclarecer dúvidas extracurriculares. A verdade é que estranhei muito não viver aqui aquele clássico primeiro dia de aula com e-mail do professor no quadro para quaisquer consultas ou necessidades e as conversas que se estendiam depois das aulas com rica troca de experiências e dicas.

Outro ponto em que o Brasil me enche de orgulho é o das Boas Práticas de Fabricação e Segurança, primordiais para um profissional de gastronomia em formação. Alunos e professores de brincos, aliança e barba, utensílios de madeira e pano de prato, itens abominados em qualquer instituição brasileira de respeito, são comuns aqui, além de não usarem diferenciação de cor para tábuas de corte segundo o tipo de alimento, álcool 70% e não exigirem sapatos de EPI (é permitido ir às aulas práticas de tênis, sapatilha, etc).

Definir qual é o melhor curso, no Brasil ou em Buenos Aires, é impossível. A escolha deve ser pessoal, considerando todos os detalhes, acompanhada de muita investigação, leitura dos planos de curso, visita às escolas sempre que possível e deve ser feita por aquele curso com o qual se identifique mais. Ainda que as expectativas profissionais mudem no transcorrer do curso, ter uma ideia de aonde se quer chegar ajuda a determinar qual proposta atende melhor às próprias aspirações. Estudar no exterior é enriquecedor, mas também há desvantagens. Seja onde for, o principal é a dedicação pessoal, a força de vontade e a persistência para realizar os próprios sonhos!

Abaixo exemplifico algumas “carreras” de gastronomia oferecidas pela Gato Dumas e disponibilizo também links das principais escolas de gastronomia em Buenos Aires.

  • Tecnicatura
    Título oficial: Tecnicatura Superior en Cocina Profesional
    Pré-requisito: Ensino Médio
    Duração: 4 quadrimestres (2 anos e meio). 1600 horas presenciais totais
    Modalidade da cursada: 16h/semana em 4x/semana
    Plano de estudo: prática (cozinha, panificação, massas, confeitaria, vinhos e harmonização, operações culinárias, produtos gourmets, alta gastronomia, bebidas e coquetéis, cozinha diet e planejamento gastronômico), bases (higiene e nutrição, atenção e serviços, eventos, matérias-primas, equipamentos de cozinha e serviço de A&B), administração (gestão de restaurante), cultura (história da cultura, ética e deontologia, sociologia do consumo) e idiomas (inglês e francês).
    Investimento: Matrícula AR$8.250 + 11 mensalidades de AR$8.250
    Equivalência no Brasil: Tecnólogo em Gastronomia / Tecnólogo em Gestão em Gastronomia (geralmente oferecido em Faculdades e Universidades)
  •  Profesional
    Certificado de formação profissional: cozinheiro
    Pré-requisito: estudos primários (ensino fundamental) completos e aprovados
    Duração: 4 quadrimestres (2 anos). 362 horas presenciais totais.
    Modalidade da cursada: 4h/semana em 1x/semana (2 anos) ou 4h/semana em 2x semana (1 ano) ou intensivo de 5 meses com 16h/semana em 4x/semana.
    Plano de estudo: prática (cozinha, confeitaria, panificação, cozinha fria e para eventos, massas e molhos), bases (higiene e nutrição), administração (gestão e serviços)
    Investimento: Matrícula AR$10.610 + 5 mensalidades de AR$23.345
    Equivalência no Brasil: cursos de formação de cozinheiro no Senac, por exemplo
  •  Licenciatura
    Certificado recebido: Licenciado en Gastronomía
    Pré-requisito: Ensino Médio
    Duração: 4 anos
    Plano de estudo: Cozinha e Gastronomia, Administração, Nutrição, Introdução à Gastronomia, Introdução à Pesquisa, Projetos Gastronômicos, Comercialização, Comunicação Oral e Escrita, Contabilidade, Enologia e Bebidas, Relações Públicas, Comercialização, Fundamentos de Economia e Finanças, Administração de RH, Cerimonial e Protocolo, Análise de Custos, Serviços Gastronômicos, Organização de Eventos, Idioma Estrangeiro, Estratégias Empresariais, Direito, Imagem e Ambientação + seminário de integração e uma eletiva.
    Equivalência no Brasil: Bacharel em Gastronomia
    Investimento: Matrícula AR$7950 + 48 mensalidades de AR$7950

Links
Colégio Gato Dumas
IAG
ISMM
Mausi Sebess
IGA
EAG
Instituto Lycée
UADE
Universidad de Palermo

*Atenção! As informações contidas neste texto são baseadas na experiência da autora, quem cursou Gastronomia na Estácio de Sá em Belo Horizonte – MG de 2007 a 2009, lecionou nessa mesma instituição e no Senac-MG e, atualmente, é aluna do Colégio Gato Dumas. Outras ofertas, detalhes e possibilidades existem e podem não estar contemplados aqui. Os valores estão em pesos argentinos. As informações dos cursos podem sofrer alteração e não são de responsabilidade da autora.

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12 comentários

Priscila Frade Setembro 29, 2017 at 6:13 pm

Oi Sara, estou pensando em fazer um curso de gastronomia em Buenos Aires, mas o curso intensivo! Uma ideia é fazer no Gato Dumas, mas também olhei na IAG e no Lycee. Você tem alguma referencia do Lycee, se o curso é bom? O que me chamou atenção no Lycee é a possibilidade de estagio tanto na Argentina quanto na França, e que o curso é mais barato!

Resposta
Sara Martins Outubro 3, 2017 at 7:11 pm

Ei, Priscila! Tudo bem?
Não tenho referências do Lycee, mas sei que é uma escola que há possui alguns anos aqui!
Quase todas as escolas oferecem a possibilidade de estágio em outros países e possuem um mural com ofertas de estágio/trabalho. Informe-se bem sobre o programa de estágio porque geralmente as escolas são apenas pontes entre o aluno e empresas que cuidam desses programas (na maioria das vezes o aluno paga a própria passagem e os gastos com vistos e a empresa faz a intermediação com restaurantes e hotéis que aceitam alunos em troca de moradia/alimentação, por exemplo). Se a ideia de vir é apenas pelo estágio fora, vale lembrar que esse tipo de empresa também atua no Brasil e, se for conveniente, você pode cursar Gastronomia aí mesmo.
Recomendo que avalie a grade curricular dos cursos que te interessam para chegar naquele que tem mais a ver com você e com o que você busca! Se tiver chance, visite as escolas antes, assim você pode sentir aquela com a qual você se identifica mais. Entendo que o valor é uma questão importante, mas quando se trata da nossa formação pessoal, às vezes vale a pena sacrificar um pouquinho o bolso para ter retorno lá na frente!
No mais, te desejo muita boa sorte nessa nova trajetória! 🙂

Resposta
Thiago Collares Outubro 5, 2017 at 10:46 pm

Olá Sara, muito bom o seu esclarecimento sobre gastronomia na argentina. Estou a um passo de fazer minha matricula no Gato Dumas para fazer o curso intensivo, estou em Buenos Aires e fui ontem conhecer a escola, gostei muito da estrutura, de primeira linha, porém o atendimento que recebi da atendente que me mostrou a escola foi muito frio e nem um pouco acolhedor, tenho receio de isso acontecer tambem com o corpo docente, principalmente por ter dificuldade com a lingua, sei somente o basico! Vc teve dificuldade com isso ou o pessoal foi de boa com vc?! Obrigado desde ja!

Resposta
Sara Martins Outubro 6, 2017 at 1:05 am

Ei, Thiago! Seja bem-vindo!
Essa frieza é bem comum entre muitos porteños, rs, não se preocupe!
Gostei muito dos professores que tive na Gato Dumas! Claro que há gente de todo o jeito, mas no geral eu senti os professores menos próximos que os que eu tive no Brasil, o que acredito que seja uma questão cultural realmente (e nada que chegue a comprometer a qualidade do ensino). Sobre a minha experiência com a língua, cheguei com um espanhol além do básico e não tive nenhuma dificuldade – mas morei no México antes de vir para cá e meu esposo é mexicano, ou seja, já estava bem acostumada em escutar e ter que entender o idioma. Avalie como você se sentirá nesse quesito… as pessoas facilitam, mas não podem alterar o ritmo da aula em função de um aluno que não fale espanhol – afinal, o idioma do país é esse e não seria justo com os demais alunos. De repente fazer um intensivo de espanhol pode te ajudar a aproveitar melhor o curso!
Boa sorte! Espero ter ajudado! 🙂

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Ismael Lacerda Dezembro 8, 2017 at 2:19 am

Quanto pagou pelo curso?

Resposta
Sara Martins Dezembro 11, 2017 at 8:24 pm

Olá, Ismael, tudo bem?
Fiz vários cursos aqui, o mais longo terminou já faz um ano. Recomendo que você verifique os valores diretamente com a escola de interesse, já que ele é diferente para cada curso e sofre reajustes consideráveis periodicamente por causa da alta inflação na Argentina. 🙂

Resposta
Natasha Janeiro 9, 2018 at 10:47 pm

Muito bacana os seus esclarecimentos Sara.
Faço gastronomia no Brasil e gostaria de ir pra Buenos Aires me especializar em algo e trabalhar. A princípio estou de passagem por BA e os preços são bem mais em conta que não Brasil. Porém não sei como seria morar aqui. O que me fala da escola Mausi Sebess ?
Grata
Natasha

Resposta
Sara Martins Janeiro 18, 2018 at 12:39 pm

Olá, Natasha!
Não sei de qual cidade você é, mas na verdade Buenos Aires me parece muito mais cara! rs!
De qualquer forma, passar uma temporada aqui, trabalhar e fazer uma especialização seria muito enriquecedor! Só não se esqueça de considerar que a inflação aqui é bem alta e os preços sobem constantemente (e muito!).
Sobre a Mausi Sabess, é uma escola com muito renome, apesar de que eu mesma nunca fiz cursos nela.
Um abraço e sucesso! 🙂

Resposta
Isabela Dezembro 3, 2018 at 11:23 am

Olá, Sara. Eu moro em BA já a algum tempo e comecei a me interessar muito por confeitaria recentemente. Para vc que já está no ramo da gastronomia, vc acha que voltar para o Brasil já tendo feito um curso no exterior faz realmente diferença no currículo? Gostaria de fazer mais uma pergunta kk. Estou olhando o curso de pastelero professional no IAG. Vc conhece este instituto? Tem alguma referência ou sugestão?

Resposta
Sara Martins Dezembro 6, 2018 at 7:31 pm

Ei, Isabela! Tudo bem?
Ter um curso no exterior é sempre positivo, já que demonstra buscar o conhecimento com uma outra abordagem e inserida em outro meio. O quanto isso fará diferença no seu currículo depende muito do caminho que você busca seguir.
Lembre-se que há diferenças estruturais entre os cursos de gastronomia do Brasil e da Argentina e que grande parte dos cursos daqui é considerada profissionalizante, e não curso superior.
O IAG é um dos institutos mais tradicionais da Argentina, certamente você ficará muito feliz com o curso. É uma boa oportunidade para aprender as bases da confeitaria, que é bem diferente nos dois países também.
Sugiro que além do curso profissional, busque outros cursos curtos com pasteleros renomados e faça muitas pasantias. A melhor combinação, sem dúvidas, é da sala de aula com o estágio (prática). Boa sorte e sucesso para você!

Resposta
Iury Avena Novembro 6, 2019 at 11:58 pm

Ola Sra, meu nome é Iury Avena
Estou terminando de cursar gastronomia no brasil, e estou bem tendencioso a buscar uma Pós-Graduação em Buenos Aires, vi que as Instituições mais renomadas é o Gato Dumas; IAG e Mausi Sebess. Saberia me indicar qual das três valeria mais a pena investir em uma Pós graduação em cozinha Internacional e se elas possuem reconhecimento internacional?

Resposta
Liliane Oliveira Novembro 7, 2019 at 3:08 pm

Olá Iury,
A Sara Martins parou de colaborar conosco, mas temos outra colunista na Argentina chamada Fabiola Lima que talvez possa te ajudar.
Você pode entrar em contato com ela deixando um comentário em um dos textos publicados mais recentemente no site.
Obrigada,
Edição BPM

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