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De dona de casa a empreendedora na Alemanha

De dona de casa a empreendedora na Alemanha.

Lurdete Sombra Pohl é amazonense e conheceu seu marido alemão enquanto ele morava no Brasil a trabalho. Quando o seu contrato de trabalho acabou, decidiram mudar-se para a Alemanha. Lu, como gosta de ser chamada, deixou, assim, sua profissão como cabelereira, seu próprio salão, sua família e seus amigos para seguir o esposo em terras germânicas. Nesta entrevista ela conta a sua trajetória de como chegou na Alemanha até realizar-se profissionalmente como empreendedora, dona de um salão de depilação em Dresden, na antiga Alemanha Oriental.

BPM – Como foram seus primeiros tempos na Alemanha?

Chegamos em julho de 2003 na Alemanha e moramos primeiramente na casa da minha sogra, no interior de Sachen, ex Alemanha Oriental. Para mim, era uma experiência totalmente nova, não falava alemão e dependia completamente do meu marido. Em outubro de 2003 nos mudamos para uma cidade perto de Stuttgart, ali comecei a fazer um curso de alemão. O primeiro ano em Stuttgart foi um ano especialmente difícil, pois não dominava o idioma, ficava sozinha em casa, sem ocupação, sem contato, enquanto meu esposo se concentrava nos estudos dele.

Nesse período fiquei grávida do meu primeiro filho, que nasceu em setembro de 2004. Após o nascimento, estava ocupada com ele, mesmo assim queria contribuir para o sustento da família, então comecei a trabalhar como manicure, pedicure e cabelereira para brasileiras de Stuttgart. A renda familiar era curta, eu o ajudava financeiramente como podia, trabalhei também com limpeza em casas particulares e em um supermercado.

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BPM – Quando você começou a “reaprender” a sua profissão aqui?

Depois de três anos em Stuttgart, nos mudamos para Dresden por causa de uma oportunidade de trabalho. Eu não queria mais ficar em casa, procuramos, portanto, uma vaga no jardim de infância para o nosso filho. Logo depois iniciei um curso de aprendizagem de cabelereiro que teve duração de dois anos. Acompanhar o curso foi bastante difícil, pois o meu alemão ainda não era suficiente, mas com muita luta, empenho e ajuda do meu esposo, consegui concluir o curso com sucesso. Trabalhei quase três anos como cabelereira, mas devido a problemas de saúde, alergia e mal entendimento com meus colegas alemães, tive que parar de exercer a profissão que eu mais amava.

BPM – Como você teve a ideia de abrir o salão de depilação em Dresden?

Essa ideia surgiu de uma amiga turca. Eu atendia a ela e às filhas, fazia cabelo, depilação. Ela me sugeriu trabalhar com depilação e me apresentar a uma brasileira que trabalha com esse serviço em Berlin. Pensei muito nessa alternativa, analisei com meu esposo as chances e riscos e, como a Secretaria do Trabalho queria me mandar para um trabalho como secretária, e esse trabalho não é para mim, decidi encarar o risco de me tornar autônoma. Conversei com uma conhecida que já tinha um salão de depilação definitiva e perguntei se haveria a possibilidade de trabalhar com ela e a resposta foi sim. Esse foi o sinal que Deus estava me mandando, abrindo mais uma porta para mim.

A técnica de trabalhar com cera quente eu havia aprendido no curso profissionalizante no Brasil, então eu levei para frente essa ideia. Com a ajuda do meu esposo e da minha conhecida, fechei um contrato de sublocação do local e assim cada uma trabalhava por conta própria e dividíamos as despesas do aluguel, energia e água.

Aí veio o processo de registro do salão: Lu Brazilian Beauty. Paralelamente elaborei junto com o meu esposo um business plan. Através disso, consegui um pequeno crédito promovido pela Câmara de Artes e Ofícios, e assim pude fazer os primeiros investimentos necessários para abrir o negócio.

BPM – Quando você abriu o seu negócio, foi alvo de alguns comentários céticos de pessoas que não acreditavam que você teria público em Dresden. Como foi a receptividade dos alemães?

Realmente, o início do meu próprio empreendimento não foi fácil, várias conhecidas brasileiras fizeram seus comentários dizendo que um negócio desse tipo não daria certo com as clientes alemãs. Ouvi muitos comentários do tipo “que homem vai fazer depilação?”. Até hoje eu ouço comentários maldosos e sou discriminada por prestar esse serviço. Mas eu confio em mim, meu marido confia em mim, eu sou muito positiva e não deixo que as pessoas entrem na minha vida. Eu faço o que acho certo e não me deixo abalar por esse tipo de comentário.

Hoje tenho um bom número de clientes regulares para manter o meu negócio sustentável. A maioria deles são alemães, além de estudantes de diferentes países. Eu me sinto muito bem aceita no mercado de trabalho. Eu sou muito feliz por ter chegado onde cheguei, não foi fácil, mas você precisa acreditar em si. Através dos meus clientes conquistei novos contatos, novas amizades e isso para mim é o que conta.

BPM – Quais as maiores dificuldades que você enfrentou para abrir o seu negócio?

A maior dificuldade incialmente foi a conquista de clientes. Como os meios financeiros eram limitados, não pude investir massivamente na divulgação do salão. Abri o salão com um site próprio, elaboramos cartões de visita, panfletos, mas não foi fácil. Eu ficava dias imaginando como eu iria continuar a levar tudo isso. O telefone não tocava, não aparecia ninguém na loja, fiquei muitas vezes bem desanimada e com vontade de abandonar tudo. Mas nessas horas minha amiga e meu esposo me diziam que eu precisava de paciência e que tudo nessa vida vem no tempo certo. Aí eu ampliei meu serviço, ofereci manicure, pedicure, pintura de cílios, pintura de sobrancelha, extensão de cílios e aos poucos a clientela aumentou.

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BPM – Qual o segredo do seu sucesso?

Simplicidade. O segredo foi acreditar que ia dar certo, que eu podia contar com a ajuda da minha amiga e do meu esposo, além da maneira de tratar meus clientes, sempre muito profissional, gentil, alta qualidade professional, e assim fui conquistando cada vez mais clientes. Minha propaganda é a boca-a-boca, essa é a melhor de todas. Eu sou muito agradecida a Deus por essa oportunidade que ele me deu e também aos meus clientes, que confiaram em mim e no meu trabalho.

BPM – Além do reconhecimento profissional através dos clientes, qual a sua maior conquista?

Em 2016 tive a surpresa de ouvir que a minha sócia ia desistir da parte dela e com isso tive que assumir sozinha o salão todo. Fiquei surpresa e um pouco temerosa, mas sempre acreditei que ia dar certo e encarei o desafio. Usei a oportunidade para renovar o salão, reformei tudo de acordo com o meu gosto. Custou tempo, dinheiro, mas valeu a pena por eu ter um espaço em que eu realmente me sinto bem. Uma grande conquista também foi o lançamento de produtos de beleza da minha marca, Lu Brazilian Beauty.

BPM – Quais são os seus desafios?

Os meus planos são que continue assim, eu tenho número suficiente de clientes regulares para manter o meu negócio sustentável. Existe uma possibilidade de ampliar o salão. Eu estou sempre em buscas de novas técnicas e aprimoramento. Estou satisfeita e feliz com o que eu alcancei até aqui, com os meus clientes e com os amigos que fiz, as pessoas que valorizam o que eu faço. Isso conta muito.

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4 comentários

Debora Pedroni Fevereiro 18, 2019 at 7:05 pm

Larissa, parabéns pelo texto! Gosto bastante de fazer entrevistas com empreendedoras brasileiras aqui no exterior. Também sou colunista no BPM e me encantaria saber mais sobre o projeto Carlotas. Obrigada.

Resposta
Larissa Da Costa Fevereiro 22, 2019 at 8:27 am

Oi Debora, muito obrigada pelo teu comentário. Sim, acho importante entrevistar as mulheres brasileiras que conquistaram seu espaço no exterior. Isso é fonte de muita inspiração para outras mulheres. O projeto Carlotas realmente é encantador, vou te escrever e te passar informações. Um abraço

Resposta
Bruno Backes da Silva Fevereiro 22, 2019 at 7:00 pm

Eu tenho uma curiosidade, o pessoal aI na Alemanha não fala pra voçê que voçê não se parece brasileira por causa da sua aparência? eu não sei porque mas tem alguns gringos que acham que no Brasil todo mundo é indio kkk

Resposta
Larissa Da Costa Fevereiro 27, 2019 at 8:00 am

Olá Bruno, classificar as pessoas por um estereotipo é natural e acontece em todos os lugares. Nós, brasileiros, achamos, por exemplo, que todos os alemães são loiros, de olhos azuis, tomam cerveja em caneco e usam calça de couro, o que tampouco é verdade. O importante é sempre responder com simpatia e explicar porque somos de um jeito e não de outro. A diversidade brasileira é enorme e talvez nem todo mundo tenha conhecimento da nossa história. Situações como essa são sempre uma boa oportunidade de explicar um pouco mais sobre o nosso país. Abraço, Larissa

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