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Guarda de filho compartilhada na Alemanha

Marcelly Lima vive na Alemanha desde 2008 e seu filho nasceu durante o namoro com seu então companheiro alemão. Sem serem casados, ela concordou em compartilhar a guarda do filho, a separação veio depois de dois anos e meio do nascimento e, com muita força de vontade, reconstruiu a sua vida, estudando, trabalhando e tomando conta da criança.

BPM – Em que época da sua vida você e o seu então companheiro se separaram?

Nós nos conhecemos na Itália, quando estava lá a trabalho pela minha empresa de consultoria, e ficamos quase cinco anos juntos. O nosso filho nasceu depois de quase dois anos de relacionamento. A separação veio em 2012 quando meu filho ainda tinha 2,5 anos e eu ainda estava estudando no terceiro ou quarto semestre.

BPM – O que você cursou?

Estudei administração na Universidade de Munique. Aqui o curso abrange também ciências econômicas.

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BPM – Qual foi a maior dificuldade que você enfrentou naquela época?

Minha maior luta naquela época, além dos estudos, foi me defender na justiça para manter a guarda do meu filho pois, o pai dele entrou na justiça para me tirar o direito de educá-lo. Venci por duas vezes. Na época da separação, minha prioridade era estar perto do meu filho e terminar meus estudos, e foi isso que eu fiz. Terminei a universidade no início de 2015 e já tinha iniciado a trabalhar como estagiária desde 2013.

BPM – Onde você procurou ajuda para sair de casa?

Quando nos separamos eu não tinha um emprego, nem apartamento. Eu procurei ajuda no órgão alemão de serviço de assistência social à infância, o Jugendamt. Eles me indicaram uma instituição de ajuda às mães solteiras. Eu consegui alugar um apartamento que uma dessas instituições oferecia para mães solteiras por um preço abaixo daquele do mercado. No início, recebi pensão alimentícia do pai (na Alemanha a mãe solteira recebe pensão até a criança completar 3 anos). Daí dei entrada na bolsa de estudo e procurei um emprego que eu pudesse combinar com meus estudos para completar a renda. Eu fiquei nesse apartamento por quase dois anos até quase concluir meus estudos, então eu consegui um emprego melhor e me mudei.

BPM – Como é a questão da guarda compartilhada na Alemanha para pais que não são casados?

Na Alemanha, naquela época, se você não era casada e tivesse um filho do relacionamento, você poderia ou não assinar um documento compartilhando a guarda da criança (hoje em dia os homens têm direito, casados ou não, à guarda compartilhada. Caso a mulher se negue, eles podem entrar na justiça). Eu assinei esse documento ainda durante a gravidez porque acho injusto um pai não ter o direito de decidir nada na vida do filho. Além disso, eu não queria assumir toda a responsabilidade de criar um filho sozinha. Então, para mim, sempre foi claro que eu iria compartilhar a guarda do meu filho com o pai da criança.

Eu assinei o documento, mas me arrependo. Não pelo fato de ter que decidir juntos sobre o nosso filho, mas porque ele dificulta a minha vida sem necessidade. A guarda compartilhada me impede de tomar decisões sobre a minha própria vida, pois ele nunca vai concordar que eu mude de cidade ou de país com o nosso filho.

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BPM – O que você acha que o governo alemão faz bem para dar suporte às mães na mesma situação que a sua e o que ele poderia oferecer de melhor?

Na Alemanha, temos Leis trabalhistas que visam proteger as mulheres e mães de um modo geral. A licença maternidade e a proteção da vaga de emprego, são coisas bacanas, mas que infelizmente não funcionam 100% na prática. Muitas mulheres se veem obrigadas a descer da posição que tinham anteriormente quando voltam de um longo período de licença maternidade. A taxa de imposto para a mãe solteira ou o pai solteiro (cerca 37%) também é um pouquinho mais baixa que a de uma pessoa solteira e sem filhos (cerca 40%). Infelizmente uma mãe solteira, no geral, paga mais imposto que uma mãe casada. Em relação às creches e escolinhas, não tive problemas pois temos uma estrutura boa na minha cidade e como mãe solteira e que trabalha, tive prioridade em receber uma vaga. Mas, por exemplo, em Munique existe um déficit de vagas nas creches. Acho que os horários e férias escolares e das creches não batem com os horários de trabalho – deveria existir mais flexibilidade dos dois lados. Por exemplo, seis semanas de férias de verão, somadas com as outras tantas durante o ano, não dá para cobrir com o total de dias em que posso tirar férias por ano para cuidar do meu filho.

BPM – Você se considera uma pessoa com muita força?

Quando eu me separei, eu trabalhava, estudava e ainda cuidava do meu filho. Eu não dava conta de comparecer a todas as aulas na faculdade. Assistia somente as aulas de presença obrigatória. Eu baixava todo o material, imprimia, estudava em casa à noite. Foi muito cansativo, mas quando você tem uma meta, você encontra força. Tem muita gente que fala: “Nossa você é forte”. E eu acho que você é forte quando não tem outra alternativa. A minha alternativa era desistir e voltar para casa, mas isso não era uma opção para mim. A minha única opção era chegar ao meu objetivo e eu tinha uma caminhada a seguir. Tem um ditado em alemão que fala: “A meta é o caminho”, para chegar a um objetivo você vai ter que caminhar todos os dias e era isso que eu tinha em mente. A jornada fica mais leve quando você pensa assim. Eu acho que a minha força veio tanto do meu filho, porque eu gostaria de proporcioná-lo uma vida confortável, como também provar que eu sou capaz de atingir os meus objetivos.

BPM – Qual o seu próximo objetivo?

O meu próximo objetivo é terminar o meu mestrado, que está sendo bem difícil, pois eu trabalho 40 horas semanais. Está meio puxado, mas vou me organizar melhor para conseguir isso.

A chave é acreditar no próprio potencial, organizar o meio e seguir em frente.

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