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Depressão na Alemanha, uma história de superação

Depressão na Alemanha, uma história de superação.

Andrea Lang, brasileira, natural de Fortaleza, veio para a Alemanha em 2006 por causa do amor. Anos depois, sofreu uma depressão profunda, passou pelo doloroso processo de separação, chegou ao fundo do poço, mas por amor aos seus filhos venceu a doença. Com vocês, uma história de superação.

BPM – Como foram os seus primeiros anos na Alemanha?

Foram bons, estávamos muito apaixonados, vivendo aquele romance, eu engravidei, tivemos gêmeos, passei todo o processo de viver a maternidade, ele me ajudava muito, nós vivíamos muito bem.

BPM – Quais os motivos que te levaram à depressão?

Os motivos foram muitas situações mal resolvidas ao longo dos anos, que se tornou uma bola de neve até virar uma avalanche. Foi com o passar dos anos, a partir do momento em que eu comecei a me enxergar aqui como pessoa. Como eu não dominava o idioma, era muito dependente do meu marido, e começou a me incomodar o fato de não conseguir me locomover sozinha, de não conseguir me expressar, não conseguir resolver as minhas coisas como eu gostaria.

Depois que eu aprendi a falar, (re)aprendi também a ler, comecei a ter contato com outras pessoas, meu círculo de amizades aumentou e foi a partir daí que eu comecei a ver a Alemanha não só de uma forma romântica, mas também de uma forma crítica. Comecei a enxergar que o meu casamento não era tão feliz quanto eu achava, e a questionar quem eu era e o quê eu queria.

Outro motivo era a discussão de ir ao Brasil visitar a minha família. O Brasil sempre ficou em último plano, nós viajávamos muito, mas ele nunca queria ir para lá, pois para ele ir ao Brasil não eram férias e sim visitar a família. O conjunto de todos esses motivos contribuíram para eu ter essa fase depressiva na minha vida.

Leia também: Tudo que você precisa saber para morar na Alemanha

BPM – Quando você passou o período mais difícil da depressão? Quais foram os sintomas?

Os primeiros sintomas começaram no final de 2014, e foi quando eu estava ainda trabalhando e sofri bullying por parte de uma colega de trabalho. O acúmulo de várias funções de mãe, mulher, estudante e profissional foram demais para mim, aos pouco eu perdi a vontade de sair de casa, de fazer atividades em família, chorava muito sem motivo aparente, estava com a sensibilidade à flor da pele, tudo o que as pessoas me falavam eu interpretava de outra maneira, eu comecei a ter dores físicas horríveis e elas não eram de cunho orgânico e sim psicossomático e tudo isso foi se somatizando.

BPM – Quando você percebeu que estava precisando de ajuda?

Quando eu pensei em suicídio. E foi isso que me assustou porque eu tenho dois filhos e eles são a minha vida. Foi nesse momento que eu disse a mim mesma: “Para de ser egoísta. Você precisa de ajuda profissional.” Foi aí que eu comecei a lutar contra a depressão e o que me motivou foi o amor aos meus filhos, esse amor incondicional, que é indescritível. Eu tive medo de causar um trauma na vida deles, foi isso que me fez levantar da cama e sair na rua de olhos inchados de tanto chorar, sem esperança, mas motivada a lutar pela minha vida para cuidar dos meus filhos.

BPM – Como foi o tratamento da doença?

Fui em busca de uma terapeuta para me acompanhar, vimos que somente a terapia não iria funcionar, e eu comecei a tomar os antidepressivos, mesmo assim não estava sendo suficiente. Ela, então, me orientou a pedir ao meu médico um encaminhamento para uma clínica. Fui internada para fazer um tratamento intensivo e as coisas foram melhorando, fui me equilibrando, fui vendo que não era eu o problema, que a minha doença não era o problema, que eu não fiquei doente porque eu quis, foi uma reação em cadeia, porque em várias situações da minha vida eu não soube me posicionar como eu gostaria e essas situações foram se acumulando. Fiquei de janeiro a março de 2016 internada, sem receber muita visita.

Leia também: Depressão no inverno alemão

BPM – E a separação aconteceu no meio desse período depressivo?

A separação aconteceu três meses depois de eu ter alta da clínica. Meu ex-marido chegou para mim e disse que não me amava mais e que queria a separação, que estava muito difícil para ele lidar com a situação. Foi muito difícil enfrentar isso, mas a estrutura que eu tinha tido no hospital me ajudou.

BPM – O que a separação significou para você?

A separação foi um divisor, ela abriu uma nova perspectiva para mim, de eu sair de um relacionamento abusivo, não fisicamente, mas psicologicamente, e tomar conta da minha vida. Foi muito difícil, exigiu muita força de vontade e coragem, mas foi libertador.

Passada a primeira fase de superação, eu comecei a estudar novamente, comecei a fazer um curso profissionalizante como educadora infantil. É puxado, é cansativo, mas também é recompensador. O tempo livre que eu tenho, eu me divido entre meus filhos, os estudos e meu novo namorado.

BPM – Você continua em tratamento?

Continuo fazendo terapia, acho importante ter esse acompanhamento. É um momento de reflexão, onde você é tirado da sua ótica, e vê que os problemas que você acha que são graves, acabam se relativizando. Eu tive alta da medicação há um ano.

BPM – Hoje em dia, depois de quatro anos tratando a doença, você pode se considerar uma vencedora, está fazendo um curso profissionalizante, está namorando. O que te deixa mais feliz e orgulhosa dessa superação?

O que me deixa mais feliz e orgulhosa dessa superação é ver que eu e o meu ex-marido temos um diálogo, nos entendemos, ele continua me ajudando e a gente se respeita. Eu mudei muito, eu sinto isso. O fato de eu ter controle emocional de sentar na frente do grande amor da minha vida, do pai dos meus filhos, e conversar sem que as feridas que ele me causou e que eu causei a ele, interfiram no nosso diálogo, é para mim uma grande conquista. Não é fácil manter esse controle emocional, mas é possível. É preciso em nome do amor aos nossos filhos. Para eles é importante saber que tanto o pai quanto a mãe, apesar de não estarem mais juntos, estão sempre unidos para eles. Isso dá uma segurança enorme para os nossos filhos, e isso é o mais importante. Continuamos fazendo atividades juntos, trilhas, andar de bicicleta, ir ao cinema ou restaurante. Eu tenho muito orgulho de mim hoje em dia, eu me vejo como uma mulher forte, que não precisa ter que estar provando para ninguém que pode, que sabe, eu sei o que eu posso e que eu sou capaz.  Sou muito grata às minhas amizades que me ajudaram nessa fase difícil, e fico muito feliz em escutar quando elas me dizem como estou bem e que sou um exemplo.

BPM – O que você tem a dizer às pessoas que estão passando por essa fase?

Não se envergonhe, fale sobre o assunto e procure ajuda. Você é muito mais do que seu problema! Na Alemanha, a área da saúde mental é bem estruturada, existem muitas maneiras de conseguir ajuda profissional pagas pelo seguro de saúde público.

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4 comentários

Ana Maria Dezembro 20, 2018 at 1:37 am

Que luta! Comovi-me demais. Parabéns… Muita sorte em 2019.

Resposta
Larissa Da Costa Dezembro 20, 2018 at 8:18 am

Olá Ana Maria, obrigada pelo teu comentário. Sim, foi uma grande luta que eu acompanhei de perto. Fico muito feliz por ela ter tido a garra de superar a doença e a coragem de quebrar o tabu e contar sua história. Espero que possamos encorarjar outras mulheres na luta contra a depressão.

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Samantha D'Almeida e Silva Janeiro 6, 2019 at 11:12 pm

Oi, Larissa, adorei o texto. Acabei de descobrir o portal e o título me chamou atenção por já ter passado por algo semelhante.

Não sei se há interesse, mas também poderia dividir a minha experiência. Moro há 2,5 anos em Berlim, mas já tenho um pouco pra contar.

Gostaria de colaborar com o site de alguma forma, apesar de não ter grandes disponibilidades de tempo no momento. Deixo aqui meu contato: [email protected].

Abraço,
Samantha

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Larissa Da Costa Janeiro 7, 2019 at 8:56 am

Olá Samantha, muito obrigada pelo teu comentário. Eu tenho sempre interesse na trajetória de mulheres imigrantes. Vou entrar em contato contigo. Um abraco, Larissa

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