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De publicitária no Brasil à babá na Alemanha

De publicitária no Brasil à babá na Alemanha.

Hallo, mulherada querida, tudo bem com vocês? Hoje vou falar um pouquinho da minha experiência pessoal, de quando eu quando vim morar fora. Precisei me reinventar a cada dia, principalmente no lado profissional, descobrir e encontrar um novo trabalho, um novo ramo, aprender uma língua do zero, e até duas. Constatar como a arte da humildade é fundamental nesse processo todo, para que possamos realmente notar que estamos TODOS, sem exceção, no mesmo barco nessa vida, independente do que fazemos ou com o que trabalhamos. Vamos comigo nessa jornada meio profunda?

Pois bem, começar dizendo que vim para a Alemanha sem muita pretensão é um pouco sem noção, né? Mas é a verdade. Eu vim de fato com o coração muito aberto a todas as oportunidades que poderiam aparecer. Não estava esperando chegar aqui e achar um trabalho na minha área (no Brasil, trabalhava com publicidade há mais de 8 anos), até porque meu nível de inglês não era suficiente para isso, e meu nível de alemão não existia, era zero menos zero mesmo! rs

Quando pisamos em terras germânicas, meu marido já chegou trabalhando. Ficou apenas uns 2 dias e já começou no trabalho. E eu, sozinha (na época dona Nina não tinha chegado ainda. Conto mais sobre isso aqui), me vi pela primeira vez na vida, em mais de 10 anos, sem ter o que fazer, de trabalho, logicamente, e me deu uma pane na cabeça. MEU DEUS, E AGORA?

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Respirei fundo e comecei a ver o que poderia fazer sem falar a língua, sem ter um inglês muito bom e que eu gostasse. Pensando assim é quase impossível, né? Mas não era só isso que pegava não, era a pressão social toda que estava fixada na minha cabeça desde que eu era pequeninha. No Brasil temos muito forte que só é bem sucedido quem trabalha na própria área que estudou, quem fez faculdade e tem um cargo de gerência, chefia, ou algo assim. No Brasil, a gente não valoriza o garçom, a babá, o caixa do supermercado, o entregador de comida, o lixeiro, o padeiro. Só é bom no Brasil quem é chefe em uma empresa, dono de alguma coisa, quem tem cargo com nome em inglês no crachá. Triste, eu sei, mas é a realidade que vivemos lá. E aqui a coisa é diferente, ao menos aos meus olhos.

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Aqui o salário do garçom não é melhor que o salário do engenheiro, mas é justo. O entregador de comida consegue viver e se sustentar, e ninguém olha para ele com desdém, entende? A babá (aí é a parte que me encaixo com muito orgulho e amor!) é super valorizada e bem tratada, até de uma forma que nunca pensei que pudesse ser, pois aqui eles enxergam que todas as profissões são importantes. O que seriam dos grandes nomes importantes se não houvesse os pequenos? A mão de obra é tão ou mais importante que o chefão. Eu acredito! E no meio dessa loucura toda na minha cabeça, eu tive um estalo: crianças, eu amo crianças! Vou tentar algo como babá, ou fazer babysitter como chamam aqui.

O que no Brasil seria um absurdo, já que lá eu era uma publicitária, para que eu iria trabalhar como babá, não é mesmo? Aqui eu era simplesmente uma estrangeira, uma imigrante que não falava a língua e queria um emprego. E lá fui eu. Guardei o currículo na gaveta, peguei a humildade e coloquei estampada na cara, e fui tentar a sorte em uma profissão que cada dia admiro e respeito mais.

Meu primeiro emprego como babysitter foi com uma família que na época tinha 2 bebês.  Encontrei o anúncio para vaga em um grupo do Facebook, me candidatei e fui, nervosa que só, pois nunca tinha feito uma entrevista para ser babá. Deu tudo certo na entrevista, me saí bem (acredito que em função de eu ter estampado a humildade na cara e vontade de trabalhar em algo que amo!). Consegui a vaga e comecei a cuidar dos bebês. Fiquei quase todo período em que morei em Hamburgo com essa família, que, no final das contas, se tornou um pouco minha também, e que eu sou e serei eternamente grata. Mas isso é assunto para outro texto, pois se sair falando dessa minha familhinha alemã, eu escrevo um livro de tanto amor e admiração.

Depois de um tempo, conheci outra mãe alemã incrível e comecei a ajudar o filho dela de 5 anos a falar o português. Segui nesses 1 ano e 8 meses em Hamburgo trabalhando nessas duas casas de mulheres fortes e maravilhosas, que me tratavam tão bem e eram tão gratas pelo meu trabalho, que eu nem sabia como retribuir, cês entendem? Eu realmente me senti importante, valorizada, tendo retornos diários de como meu trabalho estava sendo produtivo. Nunca tive retornos tão incríveis em toda minha carreira de publicitária, quanto tive em quase 2 anos de babá. Cada sorriso, palavra nova que eles aprendiam, cada abraço, para mim valia muito mais do que os euros que eu estava ganhando. Mas juntos, o salário e essa sensação maravilhosa de estar fazendo algo que realmente amo, ajudando essas mães, despertaram em mim um lado de gratidão eterna mesmo.

É isso é que eu queria que todos imigrantes sentissem. Sei que nem todos os trabalhos são felizes e alegres, mas que sentissem que todos são dignos, necessários, não só para gente ganhar dinheiro, mas para as pessoas que veem, para sociedade, para todos.

Posso dizer que segue sendo um aprendizado para mim essa nova “profissão”. Eu amo cada dia mais cuidar, ensinar e estar com esses bebês amados, mas também, às vezes, me questiono se farei isso “pra sempre”. E digo pra vocês que, sinceramente, hoje não me importo. Vou seguir aprendendo a língua (hoje estudo alemão e inglês), trabalhando com bebês (já estou empregada aqui em Berlim também) e buscando me redescobrir a cada dia nesse país tão diferente do nosso.

Desejo sorte e muita humildade para todos que migram e imigram. Não é fácil, eu sei. Mas o caminho percorrido, às vezes, tem tantos aprendizados e alegrias que o final (se é que existe) nem importa. Sigamos juntos nesse barco da vida, cada um na profissão que for, fazendo o que ama ou não, mas nos respeitando e sendo seres humanos dignos, pois isso é o que realmente importa.

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16 comentários

Liliane Oliveira Abril 23, 2018 at 1:50 pm

Olá Marcela,
Tudo bem?
Sou a Lili, sua colega aqui no BPM 🙂
Ao ler seu artigo me identifiquei muito contigo, pois no Brasil, trabalhava na área de Pesquisa de Mercado (vou brincar aqui que é uma área prima-irmã da publicidade) Hehehehe. Moro com meu marido aqui nos EUA e daqui faço freelas para alguns Institutos de Pesquisa no Brasil e também tenho um trabalho part time como babysitter. Assim como você, tenho achado a experiência enriquecedora. Me sinto valorizada, respeitada e sigo aprendendo diariamente – isso não tem preço!
Parabéns e boa sorte!
Bjs,
Lili

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Marcela Vieira Abril 24, 2018 at 6:54 pm

Oii Lili! Muito prazer!💕 Nossa eu ja fiz e participei de algumas varias pesquisas de mercado no Brasil heheheh Tudo na área mesmo! Que coisa boa saber que também sente o mesmo! Que sigamos aprendendo sempre e sendo felizes! Sorte pra nós! Obrigada por ler e comentar! Um beijo

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Giovanna Andriani Abril 25, 2018 at 11:46 am

Muito bom! Trabalho hoje como caixa de supermercado na Irlanda e foi o trabalho onde me vi mais valorizada. A relação dos europeus com o trabalho abriu a minha cabeça para muitas coisas, principalmente para o fato de que eu não preciso seguir alguma carreira em escritório para ter uma vida digna e com oportunidades. Meus colegas de trabalho são pais e mães de família, dão boa educação para os filhos, viajam para outros países durante as férias e não se consideram inferiores do que os outros. E vc tem razão em um ponto bem especial: humildade é tudo, com certeza o mais valioso valor que aprendi a cultivar e admirar aqui. Parabéns pelo texto 🙂

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Marcela Vieira Janeiro 8, 2019 at 10:15 am

Oiii Giovanna! Que massa saber tua história! É isso aí, nossa humildade e resiliência nos leva longe! Super boa sorte na tua jornada e muitas alegrias sempre! Obrigada mesmo por ler e comentar! Um beijão Mah

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Gislaine Abril 25, 2018 at 6:15 pm

Marcela
tudo bom?
Não imaginava o quanto era, o respeito por essa profissão.
Aqui no Brasil só ricos tem babá e com indicações.

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Marcela Vieira Abril 26, 2018 at 3:06 pm

Oi Gislaine! Pois é, estamos acostumadas com a cultura do Brasil, por aqui é super comum ter babysitter, principalmente para poucas horas, tipo como faço. E claro, falo pela minha experiência que foi e é mega positiva.Obrigada por ler e comentar. Um beijo

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Natalia Maio 2, 2018 at 5:59 pm

Oi, Marcela! Bem legal a sua experiencia como baba. Eu moro na França e tambem mudei de area de trabalho aqui, e, inclusive, trabalhei como baba o ano passado. Descobri que adoro crianças. So nao pude continuar como baba porque eu trabalhava pouco por semana. Tenho a sensaçao de que esse trabalho nao é tao valorizado aqui, infelizmente, mas foi bem gratificante ter tido essa experiencia. Eu tambem tenho uma Nega. rs Linda a sua Nina Nega!

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Marcela Vieira Janeiro 8, 2019 at 10:17 am

Oii Natalia! Pois é guria, já ouvi falar que os franceses não tem esse costume mesmo. Coisa de cultura né? Aiiii tu também tem uma Nega? Então um lambeijo de Nega pra Nega! E toda sorte e alegrias do mundo pra nós! Obrigada pelo carinho, por ler e comentar! Um beijão Mah e Nina

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Dalva Huttunen Maio 7, 2018 at 6:03 pm

Ola Marcela! Foi legal ler o seu texto! Entendi que voce também desconbriu que em um pais novo, parece estranho muitas coisas e às coisas boas como o sentimento de sentir que independemente de que trabalho agente faz, sente-se como um cidadao como outro. Eu vivo aqui ná Suécia por 43 anos! Tive oportunidade de trabalhar como babá. aqui também. Depois de um ano com às criancas, que hoje tem 44 anos e o menino 42! Ainda tenho contado com eles e com à mae deles, Deois disso minha vida deus muitas voltas, estudei ná Universidade em Lund, Socionom, no Brasil seria Assistente Social? Trabalhei em uma fábrica, dei aula de portugues para pessoas que foram como turistas e trabalhadores de organisacoes para ajudar os paises de terceiro mundo! Durante 30 anos trabalhei como assistente social ná mesma organisacao, dá tipo prefeitura`Kommun. Agora sou aposentada faz um ano, Amo ler Brasileiras Pelo Mundo e amei ler seu texto, descobri que nós seres humanos somos capaz de reeducarmos, reaprendermos, amar, dár muito de nós mesmo! Recebemos também muito. até o ponto que derepente agente comeca sentir saudades do Brasil! Más descobri também que nao é do Brasil de hoje que sinto saudades, más sim do Brasil que deixei em 1975! Boa sorte Marcela nos anor que ainda virao!

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Marcela Vieira Janeiro 8, 2019 at 10:22 am

Oii Dalva! Nossa, que história linda a tua! 43 anos? UAU!!! Eu imagino tudo que tu já deve ter passado! Incrível saber que tu estudou e trabalhou com assistência social aí, um trabalho lindo, parabéns! Inspiração tu hein? Obrigada de ❤️ por compartilhar um pouquinho comigo, por ler e comentar! Siga com muita alegria e amor na tua vida! Um beijão Mah

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Raiane Julho 26, 2018 at 1:51 pm

Amei tudo!!!
Fiquei super motivada depois de ler seu texto.
Meu namorado mora na Alemanha e eu me mudo em Dezembro, mas estou morrendo de medo de não encontrar um emprego, sempre gostei muito de crianças e queria fazer aupair nos Estados Unidos antes de conhece-lo e decidir me mudar pra Alemanha.
Espero conseguir um emprego com crianças assim como você conseguiu.

Beijos td de bom 🙂

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Marcela Vieira Janeiro 8, 2019 at 10:23 am

Oii Raiane! Guria, se tu quer vai conseguir! Acredita!!! E se já vem com esse foco então tudo vai dar certo! Muito boa sorte pra ti nessa nova jornada louca e linda! Torcendo aqui! Obrigada por ler e comentar! Um beijão Mah

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Leliane Elenita Sgrott Setembro 5, 2018 at 12:31 am

Oi Marcela tudo bem? então gostei do seu texto… eu estou decidida a ir morar na Alemanha, estou estudando a língua, aprendendo com livros, vídeos, assistindo séries e filmes e ouvindo músicas Alemãs.. pretendo entrar num curso de Alemão.. minha meta aprender… e vou conseguir…
Estou me formando em Pedagogia e trabalho bastante tempo com crianças e amo trabalhar com elas… trabalhei de babá também, tenho experiência com crianças… Meu irmão mora na Alemanha a alguns anos… eu tenho Cidadania Européia,Italiana… estou me planejando bem antes de ir, com relação a dinheiro, saber o Alemão etc… no começo eu sei que talvez não consiga algo na área da Pedagogia, da educação… eu trabalho com Educação Infantil, mas se conseguisse no inicio como babá á valendo…. por que pelo que li vou ter que fazer algum curso a mais ai pra trabalhar numa Kindergarten o Jardim de Infância Alemão… Bom tenho os pés no chão e sei que preciso me planejar… a decisão está tomada… quero ir morar na Alemanha…. agora é correr atrás das metas… obrigada…

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Marcela Vieira Janeiro 8, 2019 at 10:27 am

Oii Leliane! Guria, se tu tá decidida, já foi atrás de informação, tem passaporte italiano então tu tá com o caminho todo pronto, só se jogar! Que legal! Esse curso pra trabalhar em Kita é muito bacana, já vi muita gente fazer, e ao menos aqui em Berlim ouvi dizer que sempre precisam de gente! Siga com foco que tu vai conseguir tudo que quer! Só te desejo muita sorte e alegrias nessa futura jornada! Obrigada por ler e comentar! Um beijão Mah

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Ney Mello Março 21, 2019 at 4:51 pm

Olá, Mah. Tudo bem? Adoramos o seu relato. Estamos procurando babysitter para ficar com nosso pequeno em abril em Berlim por um ou dois dias. Pode nos ajudar? Como encontramos?

Abraços,
Mari e Ney, pais do Miguel.

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Gleici Vieira Abril 30, 2019 at 1:10 am

Moin Moin! Achei linda sua história de vida. Obrigada por compartilhar conosco. 🙂 Bem, eu gostaria de saber se tem uma idade limite para ter babysitter aí. Porque para aupair tem um limite. Beijão:*

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