BrasileirasPeloMundo.com
Mestrado e Doutorado Pelo Mundo Universidades pelo Mundo

Dicas para escolher um orientador de Mestrado e Doutorado

Dicas para escolher um orientador de Mestrado e Doutorado.

Se você está pensando em começar seu mestrado, doutorado ou post-doc tanto no Brasil quanto no exterior – ou se você já começou –, eu gostaria muito de conversar com você sobre um assunto que afetará profundamente a sua experiência na pós-graduação e, possivelmente, o resto de sua carreira: orientadores.

Se você não me conhecia até agora, lhe será útil saber de que perspectiva escrevo. Já tenho 11 anos de vida acadêmica, estou no quinto ano de doutorado na Ohio State University, nos Estados Unidos, e me formo em agosto. Iniciarei meu contrato como pesquisadora de pós-doutorado na Holanda em setembro. Quero ser professora-pesquisadora; portanto, orientadora. Escrevo aqui no BPM sobre como fazer pós-graduação no exterior e outros assuntos.

O problema

Começo esta conversa trazendo uma publicação deste ano: Evans e colaboradores apresentaram evidência de que estamos vivendo uma crise de saúde mental global na pós-graduação. Os autores entrevistaram 2.279 estudantes de mestrado e doutorado de 26 países e diversas áreas de estudo, verificando que 41% destes sofriam de transtornos de ansiedade, enquanto 39% de depressão. A proporção foi ainda maior para estudantes mulheres, transgênero e gênero não-binário.

Este é apenas um recente estudo dentre os vários que indicam o mesmo problema: por exemplo, Levecque e outros, em 2017, entrevistaram 3.659 doutorandos na Bélgica e concluíram que 1 a cada 2 doutorandos passa por estresse psicológico, enquanto 1 a cada 3 está em risco de doenças psiquiátricas comuns. Sabemos que esta é também a realidade do Brasil, em que estudantes têm relatado sofrimento e abuso nas instituições acadêmicas. Em 2017, um doutorando da USP se suicidou no laboratório.

Leia também: Vistos para morar nos EUA

Por quê?

As razões pelas quais os estudantes de mestrado e doutorado (e também post-docs) estão com saúde mental precária, argumentam Evans e colaboradores, incluem a cultura acadêmica de pressão por desempenho e publicações, longas horas de trabalho em detrimento da vida pessoal, falta de perspectiva profissional após o término do programa, e orientadores que não dão suporte ou são abusivos.

Por isso, os autores fazem um chamado por ações de mudança cultural nas universidades, tais como oferecer serviços de suporte psicológico e aconselhamento de carreira aos estudantes e oferecer treinamento aos professores para que estes estabeleçam uma quantidade saudável de horas semanais trabalhadas nos seus grupos de pesquisa, diálogo aberto sobre saúde mental e relação de respeito e ética com seus alunos.

Foco: orientadores

Decidi focar na questão dos orientadores porque, na minha experiência pessoal destes 11 anos, observei que, na minha vida e na de dezenas de colegas, a pessoa orientadora é o principal fator determinante da saúde mental e até mesmo da permanência de alunos que queiram seguir carreira acadêmica na academia.

A orientadora tem amplos poderes de estabelecer a cultura do grupo em todos os quesitos já mencionados – pressão por desempenho e publicações, horas de trabalho, aconselhamento de carreira, suporte profissional e pessoal (principalmente de alunos com filhos ou com necessidades especiais), e clima do grupo (cooperação ou competição, estresse ou saúde, rigidez ou flexibilidade). Dependemos de orientadores para trabalhar, publicar, e para obter cartas de recomendação para nossos futuros empregos.

“Como eu gostaria de ter ouvido isso antes de começar a pós-graduação…”

Esta é uma frase que passei a ouvir muito de meus colegas mestrandos, doutorandos, e post-docs. A frase se refere ao seguinte conselho:

“A decisão de quem será seu orientador é a decisão que terá o maior impacto na sua vida acadêmica e, talvez, na sua carreira. Portanto, escolha um orientador com quem você se dá bem, que tem um estilo de trabalho que fecha com o seu. Não priorize uma área de pesquisa. Nós, pesquisadores, aprendemos muito facilmente a gostar de um tópico de pesquisa. Já, de certos orientadores, não.”

Sentada na sala do coordenador do meu programa de doutorado, ouvi este conselho pela primeira vez, dias antes de começar o programa. De certa forma, eu já havia feito isto e tido muita sorte com minhas orientadoras na UFRGS. Mas acredito que naquele dia eu entendi mais profundamente o peso deste conselho, e o segui de coração. Hoje, 5 anos depois, não poderia estar mais feliz e aliviada que tomei esta decisão. A maioria de meus colegas não teve a mesma sorte.

Leia também: Apostila de Haia, onde e como fazê-la

O que venho observando: um mar de orientadores abusivos

Tenho me empenhado em dar suporte aos mestrandos, doutorandos e post-docs da minha vida, que são muitos. Oferecer meus ouvidos para escutar e meu ombro para chorar, além de ajudar com denúncias, virou minha ação pessoal rotineira por uma mudança na cultura acadêmica. Situações que chegaram aos meus ouvidos incluem:

“Minha orientadora me chamou de lixo, gritou comigo, e ameaçou me expulsar do programa se eu não obtiver os resultados que ela quer.” 

“Meu orientador fechou a porta da sala e me assediou sexualmente.”

“Meu orientador passou a me tratar mal depois que falei que quero uma carreira na indústria, pois pensa que a única válida é a acadêmica.”

“Meu orientador requer que eu trabalhe 60 horas por semana, que eu leia artigos de noite em casa, e pergunta onde estou quando não estou no laboratório no final de semana.”

“Minha orientadora me humilhou na frente da minha banca.”

“Depois de 6 meses trabalhando em um projeto, meu orientador disse para eu abandoná-lo porque não serei capaz de realizá-lo. Ele disse isso porque as coisas não saíram exatamente do jeito que ele tinha planejado.”

“Minha orientadora é inacessível; eu praticamente nunca a vejo. Tenho que discutir meus resultados com outras pessoas do laboratório. Faz semanas que pedi para ela revisar meu artigo, mas ela não me dá nenhuma resposta.”

“Meu orientador disse que eu ter um filho durante o doutorado foi um grande erro, e que agora não conseguirei seguir carreira na ciência.”

“Minha orientadora me faz de sua secretária pessoal: eu respondo seus e-mails, agendo seus afazeres, e às vezes dirijo seu carro e tomo conta de sua casa.”

“Eu que escrevo capítulos de livro, reviso artigos e até teses para o meu orientador, mas é o nome dele que vai em tudo, não o meu.”

“Minha orientadora pediu que eu usasse um decote na conferência, para atrair mais colegas masculinos para o meu pôster.”

“Depois que denunciei meu orientador ao departamento por me assediar sexualmente, ele passou a espalhar a mentira de que eu dava em cima dele. Desisti do doutorado quando iria começar a escrever minha tese.”

“Em uma saída de campo, minha orientadora se irritou com a forma como eu coletava amostras e me deu um tapa na cabeça.”

“Meu orientador insiste que meus experimentos não dão certo porque ‘não tenho boa mão’ e não me ouve quando digo que os materiais estão fora do prazo de validade e precisamos de novos. Tenho repetido o mesmo experimento por um ano.”

Estes casos aconteceram nos Estados Unidos e no Brasil.

O que não fazer

Não se comprometa com um orientador aleatoriamente sem conhecê-lo.

O que fazer

Há excelentes orientadores por aí. Escolha um deles! Conforme detalho aqui, converse com as pessoas do grupo antes – principalmente com alunos que já se graduaram e, portanto, podem falar mais abertamente. Ben A. Barres, que foi um homen trans e professor de Stanford (já falecido), escreveu um excelente artigo (com vídeo) que menciona diversos pontos a se considerar nesta escolha. (Se você é post-doc, leia este também.)

Escreva com a sua orientadora um documento que detalha as expectativas na relação entre vocês e que sugere como resolver conflitos quando eles acontecerem – para inspiração, veja aqui e aqui.

Se você já se encontra em uma situação de falta de ética, considere uma conversa aberta e honesta com seu orientador. Se isto não for viável, este artigo traz alternativas. Resumidamente, você pode conversar com outros professores para obter o apoio ou orientação deles, trocar de orientadora e até mesmo denunciar o orientador tanto na universidade quanto na polícia, dependendo do caso.

Sei que tudo isso é muito complicado de se fazer. Contudo, o preço de ficar em uma situação de abuso pode ser a sua saúde mental e o seu futuro profissional. Cuide-se. Converse com seus colegas, familiares e amigos. Busque psicoterapia. Não tem com quem conversar? Mande-me um e-mail.

Estamos juntos para mudar isso!

Related posts

LL.M na Universidade de British Columbia

Ann Moeller

Universidades historicamente negras dos EUA

Cristina Wollenberg

Bolsa de mestrado: Quem paga por você? A Holanda!

Roberta Veronezi Figueiredo

2 comentários

Soyane Novembro 20, 2018 at 2:39 pm

Olá Paula!
Confesso que estou tendo grande dificuldade nesse primeiro passo: entrar em contato com algum orientador. São milhões de dúvidas sobre o que escrever, como escrever… estou pirando na ansiedade. Se for possível um help sobre como fazer esse primeiro contato e, principalmente, o que abordar, fico imensamente agradecida! (:

Resposta

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Este site ou suas ferramentas de terceiros usam cookies Aceitar Consulte Mais Informação