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Dinamarca

Manual de sobrevivência de etiqueta social na Dinamarca

Um dos maiores desafios de morar em outro país é decodificar uma série de regras não-escritas que regem o convívio social e os relacionamentos de toda espécie. Esse processo é particularmente difícil, porque tais “mandamentos sociais” estão de tal forma enraizados na mente e no comportamento da população local que eles raramente param para pensar sobre eles. E, sendo assim, por vezes assumem que todos sabem que nunca se entra de sapatos na casa de alguém, que marido e mulher sentam-se a léguas de distância em jantares ou festas, e que o conceito de pontualidade daqui é tal que já me fez ter que recepcionar convidados vestindo apenas uma toalha de banho, já que eles chegaram 20 minutos antes do horário combinado. Mas não temam, meus caros e caras!

Aqui está o Manual Prático de Sobrevivência de Etiqueta Social Dinamarquesa, contendo valiosas dicas para não cometer todas as gafes que essa que vos fala certamente já cometeu. Que os micos que paguei sirvam para que vocês sejam poupados dos gélidos olhares de reprimenda que já recebi nessa vida nórdica.

Fonte:www.freedigitalphotos.net
Fonte:www.freedigitalphotos.net

As palavrinhas mágicas:

A primeira coisa que aprendi aqui é que a expressão “por favor” não existe em dinamarquês, o que faz com que tudo o que eles falam tenha potencial para soar mais rude do que realmente é. Até meu GPS no carro é uma grossa! Enquanto a versão em inglês educadamente me diz, “por favor, escolha a sua rota”, “por favor, vire à direita” a versão dinamarquesa grita “ESCOLHA!” e“VIRE AGORA!”, com a candura de uma agente penitenciária em Bangu I.

Contudo, se você não usar certas palavrinhas mágicas em determinadas ocasiões, os dinamarqueses acharão você muito rude. Aqui sempre se agradece pela comida após as refeições dizendo “tak for mad”, nem que seja apenas uma pizza delivery. A pessoa pode comer fazendo barulho, cortar a massa com garfo e palitar os dentes na mesa, mas “deusulivre” esquecer esse tak for mad! Aliás, o melhor amigo do “tak for mad” é o “velbekomme”, que significa “bom apetite”, mas que é bem capaz de estragar seu apetite de tantas vezes que é repetido. Se você está sentado almoçando na cantina do trabalho, todo mundo que passar por você vai dizer “velbekomme” e esperar um tratamento análogo. Eu mal consigo mastigar a minha comida aqui, tendo que responder a uns 20 velbekommes por refeição. E a diversão não termina quando a sua refeição acaba, pois é de bom-tom “velbekommear” todo mundo que você encontrar indo pra cantina em seu caminho de volta à sua mesa de trabalho.

Finalmente, nossa última expressãozinha idiomática mágica é um desafio para aqueles que, como eu, sofrem de Alzheimer precoce e não conseguem nem lembrar o que comeram no café da manhã: senhoras e senhores, eu vos apresento o famigerado “tak for sidst”, que significa “obrigada pela última vez” e inicia toda e qualquer comunicação entre pessoas que não se veem diariamente. Vai mandar mensagem para  convidar um amigo para um café? Comece com tak for sidst. Vai ao cinema e encontra aquele primo distante com quem você conversou por 15 minutos em um jantar de família? Meta um tak for sidst. Vai enviar um e-mail para a tia sobre a lista de presentes de Natal? Não esqueça o tak for sidst. Encontrou aquele amigo do amigo do amigo com quem você mal conversou em uma festa há 3 meses? Tak for sidst!

Falou, tá falado!

Há muito tempo atrás, num daqueles domingos chuvosos, vi um filme chamado “The Invention of Lying”, que se passa em um mundo fictício no qual ninguém sabe mentir, e hoje estou convencida de que tal realidade foi inspirada na Dinamarca. Os dinamarqueses costumam ser extremamente sinceros e honestos (sim, claro, sempre há exceções) e, por isso, não prometem o que não pensam em cumprir e, se prometem, cumprem rigorosamente.

Sabe aquele “bom te ver, vamos marcar um café ou alguma coisa” que você solta quando encontra aquele ex-colega de faculdade com quem perdeu contato há anos? Dinamarqueses não se dão ao trabalho de sequer usar essas mentirinhas de polidez. Agora, se você combinou um jantar com eles às 19 h, eles vão esperar que você esteja lá exatamente nesse horário, e que só cancele em caso de calamidade pública. Particularmente, eu admiro isso, afinal, as pessoas investiram tempo e dinheiro preparando algo para você,  talvez tenham deixado de convidar outras pessoas para priorizá-lo, ou mesmo deixaram de aceitar outros convites para vê-lo, e se organizaram para que a comida fosse servida em um certo horário. O mínimo que você pode fazer é a) não inventar desculpa para não ir e b) chegar no horário. Isso vale para todos os outros tipos de compromisso, de uma cerveja com os amigos a uma reunião de trabalho. Desnecessário dizer que aprendi isso na prática e da pior maneira possível, pois convidei uns amigos dinamarqueses para o meu aniversário e, acostumada com o “fuso horário” latino, não esperava que eles fossem chegar até antes, me pegando enrolada em uma toalha e com o cabelo respingando.

Movendo-se em terreno desconhecido:

Aqui na Dinamarca, por questões de higiene sempre se tiram os sapatos antes de entrar na casa de alguém, incluindo em muitas festas. Aham, eu já passei pelo périplo de me emperiquitar pra uma festa, me castigar correndo atrás do ônibus montada num salto 9 em uma noite de neve, resbalar na calçada e me estrebuchar tal qual jaca madura para chegar lá, ter que tirar os sapatos e ficar só de meias (semi-furadas no dedão) me odiando pelo resto da noite.

Além disso, em muitas festas os casais são colocados em lugares distantes nas mesas, então estejam preparados para ir a eventos e mal falar com sua cara-metade a noite toda, o que é particularmente aterrorizante quando não se conhece ninguém mais lá. Falando nisso, os casais aqui são muito independentes e é comum irem a festas ou eventos separadamente. Sei que causa estranheza, mas esposos não são nem cogitados na maioria dos eventos sociais do trabalho, como almoços de Natal, o que é um grande teste para muitos relacionamentos interculturais.

Um outro importante aviso: aqui tudo é caro e medido, então os dinamarqueses não estão acostumados a ter convidados de última hora, pois aqui a lógica do “vamos botar água no feijão” não se aplica. Pergunte sempre e com antecedência ao anfitrião se você pode levar mais alguém, e esteja preparado para ouvir um não como resposta, pois eles não são muito bons em improvisar arranjos, e aqui eu acho que nossa criatividade e “jeitinho” fazem muita falta! Eu sempre dou um jeito de acomodar mais gente, nem que seja sentando no chão, e aos poucos meus amigos e amigas dinamarqueses têm se acostumado com isso.

Espero que este pequeno e modesto manual os poupe de todos os pequenos incidentes de suicídio social pelos quais esta que vos fala passou – e certamente ainda passará! Ao menos, sinto-me mais tranquila ao saber que minhas desventuras por aqui sempre acabam virando matéria-prima para um próximo texto, e se você, assim como eu, já passou por poucas e boas, conte para a gente aqui nos comentários! Abraços e até a próxima… Ou tak for sidst!

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23 comentários

Ana Carina Abril 19, 2016 at 7:47 pm

Nossa Camila! Me vi nesse texto! ????????????
Nunca lembro de “tak for mad”!
“Tak for sidst” então!
Já atendi visita de pijama Pq chegaram antes! E já fiz esperarem 5min pra abrir o portão do prédio então! ???????? sem conta que no começo sempre ia abraçar e dar Bjo.. Agora aprendi a não fazer a “dancinha” estranha de vai e volta no ar! ????

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Camila Abril 19, 2016 at 9:42 pm

Hahahhaahha! Fiquei muito feliz em saber que não estou sozinha, Ana Carina, e realmente esqueci da dancinha do abraço e beijo no vácuo! Seria um bom hit pro Carnaval 🙂

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Leticia Roland Abril 19, 2016 at 8:41 pm

Amei seu texto, Camila… Já passei pelas mesmas coisas!

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jane Abril 19, 2016 at 9:53 pm

Gostei muito bom realmente diferentes culturas

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Camila Vicenci Witt Abril 21, 2016 at 8:37 am

Muito obrigada, Jane 😀

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Camila Vicenci Witt Abril 21, 2016 at 8:39 am

Oi Leticia! Obrigada pelo elogio 🙂 Eu fico feliz em saber que estou conseguindo retratar experiências comuns a todas nós, nem que seja pra gente rir junta, né?

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Lilian Abril 19, 2016 at 9:26 pm

Puxa! Ri muito e ri alto!!! Adorei o texto!!!

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Camila Vicenci Witt Abril 21, 2016 at 8:37 am

Obrigada, Lilian :))))

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Alessandra Abril 19, 2016 at 10:53 pm

Camila, seus textos são ótimos! Você escreve muito bem e é muito divertida. Claro que, depois de 4 anos aqui, vivi coisas muito parecidas.

Uma vez convidei uns amigos pra jantar na minha casa. Fiz uma torta de cebola, especialidade, da minha mae. A comida já estava no forno e eu fui me arrumar. Resolvi colocar um vestido sem manga, já que era primavera e pra ficar em casa não seria frio. Um amigo chegou 20 minutos antes. Justamente quando eu estava com um patch de cera fria debaixo do braço, depilando o sovaco. Imagina a cena, rs.

Foi uma das situaçōes mais inusitadas da minha vida, rs.

Também jà ouvi uns nãos tão doloridos! Quando me mudei pra cá era época de natal. No aeroporto resolvi passar pra Kopenhagen pra comprar uns bombons que o meu então namorado adorava. Vi uns panetones e pensei… aaaah, eu vou levar esses panetones pra familia do Henrik. Eles vao adorar saber o que comemos no Brasil! E ainda mais que a loja se chama Kopenhagen. Eu que nem gosto de panetone, comprei dois: um de frutas e um de chocolate. E saí carregando aquelas latas enormes junto com as minhas 4 malas de mudança. Me imaginei explicando que o nome da marca de chocolates nao tem nada a ver com a Dinamarca, mas que a maioria dos brasileiros acha que tem. E os dinamarqueses rindo e se deliciando com panetone. E eu dizendo, que bom que vcs gostaram, eu não gosto, mas da próxima vez trago mais.

Pois bem… uma semana depois que eu cheguei a minha sogra tinha convidado a familia inteira pra comer aebleskive e tomar gløg e tirar fotos de natal. E eu pensei: aaaah! que ótima oportunidade pra levar os panetones! Eles vão adorar, assim todos vão poder provar!

Falei pro boy e ele, numa reação muito engraçada, foi ligar pra mae e ver se tudo bem… Gente, eu não ia levar um cachorro pra casa dela, ia levar um bolo. Mais supresa ainda eu fiquei com a resposta: não obrigada, já temos comida de sobra aqui.

E eu: Fuen, fuen, fuen, fuen…

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Camila Vicenci Witt Abril 21, 2016 at 8:33 am

Oi Alessandra! Nossa, adorei o seu relato, e fico tão aliviada em saber que não estou sozinha! Sobre os panetones, passei por uma parecida: eu levei uns sabonetes feitos de castanhas brasileiras pra minha futura sogra e cunhada, e meu então namorado, hoje esposo, simplesmente me disse: mas elas não usam isso. Gente, é um presente! A pessoa não está pagando por isso!!!!
Fora a vez em que eu tinha que levar café da manhã no trabalho e eu queria levar pão de queijo, mas fugir do tradicional pão com queijo fedorento e Nutella aqui é pecado capital…pois bem….insisti, levei o café da manhã tradicional e os pães de queijo….e não sobrou nenhum pra contar história 😀

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Milene Abril 20, 2016 at 5:24 am

Camila ,
Não há dúvida que tens o dom para escrever… Amei !!!
Para meu sogro que é um cavalheiro e aguenta meu humor , às vezes quase negro ,
Eu mando logo tak for i dag, i går ou i morgen!
????????

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Camila Vicenci Witt Abril 21, 2016 at 8:28 am

Milinda, eu manifesto meu apoio ao pacote “tak for alt”, que facilitaria nossas vidas 😀 Beijos, amada!

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Ivone Abril 20, 2016 at 6:03 am

Essa de palitar os dentes na mesa nunca vi,moro aqui a 13 anos e a 12 estou trabalho,mas nunca vi isso entre os dinamarqueses do meu convívio.
Adorei o texto????????????????????????????????????

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Camila Vicenci Witt Abril 21, 2016 at 8:25 am

Oi Ivone 🙂 Olha, o palitar de dentes era diário no meu antigo trabalho, mas fico feliz que você tenha sido poupada disso :))))

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Isabela Abril 20, 2016 at 3:27 pm

Ai, eu ri com a parte do GPS !!! Ótimo texto !!

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Camila Vicenci Witt Abril 21, 2016 at 8:26 am

Oi Isabela 🙂 Acho que vou gravar o áudio da senhora do GPS me xingando em dinamarquês pra gente se divertir 😀

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Cristiane Leme Abril 20, 2016 at 11:21 pm

O “tak for sidst” é importante e eu, no começo da minha vida dinamarquesa, não o entendia muito bem e tinha meio que uma relação de amor e ódio com ele. Sobre o fato de não usarem o obrigado, sinceramente, acho um alívio quando penso na questão etimológica da palavra: ‘obrigado’ quer dizer que você está obrigado a retribuir algo que alguém lhe fez, ou seja, a gratidão acaba se tornando uma relação de servidão, no caso. Confesso que sou uma admiradora da forma franca e direta de se expressar do povo aqui do norte, não apenas dos dinamarqueses, aliás. Acho que no Brasil a gente tem muito rapapé e hipocrisia desnecessários, e isso nos impede de sermos objetivos e honestos, na verdade. Tudo bem que a hipocrisia é mãe das relações sociais, mas eu tenho lá minhas ressalvas com ela.

Você também falou de chegar pontualmente, o que é uma constante em vários países do norte europeu (Reino Unido, Alemanha, Áustria e os escandinavos), e falou em chegar antecipadamente; aí lembrei que comigo já aconteceu um fato inusitado. Convidamos um casal de amigos suecos pra almoçar às 14:00. Vimos pela janela da varanda que eles estavam a poucos metros de casa e adiantados uns 15 minutos, porém eles, em vez de tocarem a campainha antecipadamente, deram uma volta a mais no quarteirão e bateram na porta pontualmente às 14 horas!

Sobre o caso do ‘botar água no feijão’, pode parecer incrível mas o meu marido, dinamarquês nascido e criado na Jutlândia, região super conservadora, é um dos entusiastas (até mais que eu) de festas impromptu e de aceitar convidados extras de última hora. Ensinei pra ele que onde comem 5, comem 10, e quando fazemos festa, ou é com fartura ou não tem festa 😀

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Camila Vicenci Witt Abril 21, 2016 at 8:44 am

Oi Cris 🙂
Olha, o “obrigado” até é comum, mas o “por favor” é um unicórnio vernacular 🙂 Fico feliz em saber que seu marido tenha entrado no espírito do improviso, e estava pensando que a gente poderia até escrever um texto falando da diversidade entre os dinamarqueses de diferentes regiões. Meu conhecimento é superficial, mas tenho a impressão de que o povo da Jutlândia é mais sociável do que o de Zealand 🙂 Beijos pra ti e pra princesinha 🙂

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Aline Abril 24, 2016 at 1:09 am

Olá Camila! Sempre me divirto com seus posts e com seu bom humor! Nada como o bom humor para encarar as adversidades proporcionadas por se viver num país que não é o seu. Estou em processo de mudança para a Dinamarca para fazer um Mestrado em Copenhague e tenho certeza de que minha adaptação será muito mais fácil por causa do Brasileiras pelo Mundo. Muito obrigada!

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Ana Paula Lucion Abril 24, 2016 at 12:36 pm

Confesso que a parte do “tirar o sapato” me lembrou uma certa família! Até deveríamos fazer isso em nossas casas, mas festas?? Hummmm…. Na dúvida carregar uma legítima havaiana… Kkkkkk. Amei o texto! Como sempre muito cheio de humor e uma boa escrita

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Alexina Abril 24, 2016 at 10:17 pm

Camila, querida!
Tak for sidst!

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Flávio Junho 18, 2016 at 3:58 pm

Obrigado por compartilhar a experiência e vocês aí na Dinamarca! Tenho muita curiosidade em saber como são as dinamarquesas rsrs embora eu tenha amizade com uma, mas a conheci somente pelo facebook! Virtualmente ele às vezes não se enquadra em alguns costumes típicamente nórdicos! Aqui no Rio nunca tive contato com nenhum dinamarquês, então se vocês tiverem algo mais a compartilhar, já lhes agradeço de antemão!

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Carolina C. Outubro 10, 2018 at 10:23 pm

Olá Camila, tudo bem?

Queria dizer que adorei os seus textos – li quase todos os posts e achei muito legal o seu jeito simples e com bom humor para contar as suas impressões sobre a sua vida aí – e amei ainda mais quando vi que você também é uma louca dos gatos, assim como eu! =)

Acabei chegando até o site por conta de uma viagem de trabalho que vai acontecer agora para um congresso em Copenhague – que está me aterrorizando – , e foi muito legal ter esses insights da “vida dinamarquesa” a partir do ponto de vista brasileiro. Me acalmou um pouquinho…rs

Obrigada, de coração. Ganhou mais uma fã! =)

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