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Discriminação racial na França

Discriminação racial na França.

Em meu artigo desse mês falo sobre discriminação racial na França e começo meu texto dizendo: “-Não, o Brasil não é o país mais racista do mundo.”

Tratar desta questão é sempre um tanto quanto delicado, pois existe o risco de se cair na mesmice da divisão de opiniões: a vitimização e a omissão.

Eu refleti muito antes de escrever sobre o assunto, relutando para não tocar em certas feridas, em não atacar pessoas, nem fazer um vai e vem histórico, afinal, o que me interessa é o presente e como esta causa precisa ser vista a partir do que estamos vivenciando. O passado é doloroso e já o conhecemos muito bem e, por isso, tento partir de uma outra perspectiva.

Admito também, que tratar este assunto nunca foi fácil para mim. Em primeiro, porque nunca quis me fazer de vítima e considero que, na maioria das vezes, não me sinto como uma. Tive a oportunidade de frequentar ótimas instituições de ensino, falo 4 línguas, tenho 2 mestrados, morei em alguns países por meios próprios e fui até mesmo convidada a visitar alguns. Além de ter conquistado tudo isso sem depender de favores ou algo do tipo. Por isso, me considero uma das exceções, pois sim, meu caso é uma exceção!

Em segundo, porque essa discussão ocorre, geralmente, com etnias diferentes e é difícil conhecer a realidade do outro se não vivermos a experiência, então, a discussão acaba quase sempre com os mesmos argumentos: “você não está na minha posição para entender”. Aliás, para quem interessar entender, recomendo um ótimo livro: Na Pele de um Negro, de John Howard Griffin.

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Mas isso não significa que não tenha enfrentado o racismo. Muito pelo contrário, eu sofri muito no início e ainda enfrento situações constrangedoras e absurdas até hoje, mas aprendi a interiorizar que meu cabelo crespo armado e a minha pele escura não me impediriam de conseguir o que eu quero e o que sou capaz de fazer.

Daí, a gente samba na cara da sociedade! (momento descontração naquele assunto delicado)

Mas afinal, qual é o objetivo de falar sobre isso? O que me levou a querer abordar essa questão considerada por tantos como delicada e incômoda?

Em tempos de proliferações de discursos odiosos, de reaparição de grupos supremacistas brancos e neonazistas, de reações hostis contra imigrantes, acho que precisamos respirar e refletir em qual direção estamos indo, ou melhor, a que queremos ir.

Ser negro na França é tão difícil quanto ser negro no Brasil, nos Estados Unidos, no Marrocos, no Chile, enfim, acredito que isso não é nenhuma novidade, o prenconceito não tem barreiras territoriais. A história e cultura africana é, infelizmente, muito mais retratada pela herança da escravidão do que pelos seus bons feitos e, com isso, veio também a estigmatização.

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Muitos na França criticam o que se passa nos EUA nesse momento. São documentários, artigos incitando à reflexão, mas a verdade é que não precisamos cruzar o oceano para se deparar com tal realidade. É claro, que a situação não vai tão ao extremo, até mesmo porque qualquer ato de incitamento ao ódio racial na França, é passivo de multa e prisão.

Ao contrário dos EUA, por lei, na França não há estatística racial para saber a porcentagem de brancos, negros, pardos ou asiáticos na sociedade, a fim de evitar a discriminação ocorrida com os judeus durante o nazismo. Apesar desta falta de dados, a França é conhecida por ser um dos países europeus com a maior população negra.
Tendo colonizado uma boa parte do continente africano, o elo entre a França e as antigas colônias sempre foi muito forte e isso resultou, consequentemente, em uma imigração massiva da população africana em solo francês. Hoje, a miscigenação é forte, teoricamente, pois o que vemos são: brancos de um lado, negros de outro, e alguns poucos que se misturam, no meio.

A questão do racismo contra os negros estampa frequentemente a mídia na intenção de alertar para o perigo de tal comportamento, como também para identificar algumas questões que continuam no imaginário dos franceses. Afinal, não esqueçamos que a França é um país de brancos.

Isso, consequentemente, influencia o comportamento da população africana, assim como árabe, ou mesmo judaica, que hoje faz parte da nação francesa. Mas voltando a questão dos negros franceses, a estigmatização porta os seus frutos e cria uma divisão sutil entre brancos e negros, o que incita a uma desunião, de modo geral, dentro do país.

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Um dos momentos que pude observar tal feito foi assim que me mudei. Meu cabelo crespo, assumido há 10 anos depois de um longo período de aceitação, causava incômodo mesmo perante à comunidade africana, que não entendia a razão pela qual eu me permitia sair de casa sem uma peruca. E eu me pergunto: em que mundo estou vivendo?! Um mundo onde tenho que me privar da minha identidade para satisfazer o ideal estético de alguém? Em pleno século XXI?

Eu levei um tempo para entender essa questão que, até então, já tinha superado no Brasil. E talvez, isso tenha sido a força motriz que me levou a repensar a minha posição, porque chega uma hora que cansa ter que se desculpar pela cor da sua pele ou pela espessura do seu cabelo…

Dessa forma, esse texto não quer ser apenas mais um dentre os tantos que abordam a discriminação contra negros. Eu não venho aqui reivindicar uma dívida e nem procurar culpados, venho pedir respeito, venho, simplesmente, pedir fraternidade.

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9 comentários

Felipe Novembro 16, 2017 at 9:25 pm

Muito bom o seu argumento. Excelente!

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Amy-Carole Diene Novembro 17, 2017 at 9:35 pm

Oi Felipe, obrigada por acompanhar o BPM e pelo seu comentário!

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Daniela Novembro 18, 2017 at 7:06 am

Senti falta de exemplos de como a descriminao ocorre no seu dia a dia. Qual a diferença do racismo contra o negro no Brasil e aqui na França? Sei por exemplo que aqui o negro nao é visto como bandido como no Brasil.

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Amy-Carole Diene Novembro 30, 2017 at 10:33 pm

Oi Daniela, obrigada pela sua visita!
Eu não gosto muito de fazer comparações, mesmo sabendo que as vezes é inevitável. A questão é que ao contrário do Brasil, o racismo na França é assumido e o preconceito é sentido no quotidiano. Se formos entrar na questão de exemplos, aqui eu preciso colocar a minha foto no cv para uma entrevista de emprego, não é uma regra, mas é mais aceitável se você o fizer, mesmo sabendo que essa foi uma medida tomada visando beneficiar o francês branco de cabelos caucasianos no processo de recrutamento. Além dos comentários clássicos que a gente escuta no trabalho, do tipo “você nunca pensou em alisar os cabelos?”, ou quando o seu colega de trabalho não consegue falar a palavra negro e pensa durante dois segundos para falar “black” (segundo eles menos ofensivo), ou pessoa de cor. A descriminação também se sente quando vc atrai os olhares na rua quando você passeia de mãos dadas com o seu namorado que é francês e branco, pois não é muito comum ver casais inter-raciais, como no Brasil por exemplo. São pouquissímos os negros em cargos de liderança, além da forte estigmatização de que se você é negra você só pode ter vindo do continente africano, mas depois que digo que sou brasileira a feição muda totalmente…

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JAQUELINE VICENTE AMARO Dezembro 15, 2017 at 8:32 pm

Texto interessante e igualmente interessantes os comentários. FArei intercâmbio em Dublin em agosto/18 e aproveitando a oportunidade de já estar na Europa, ficarei 1 semana entre Paris e Roma para realizar o sonho que povoa meu imaginário desde criança até adolescente e após, quando graduada em Letras/Literatura.
Até o momento em que tive conhecimento dos knakers, não tinha parado sequer para imaginar se havia ou não, nem se era comum ou não o preconceito com estrangeiros, especialmente com mulheres, brasileiras e afrodescendentes.
Sonhei minha Eurotrip como algo perfeito tal qual o país de Alice, não passando essas situações pela minha cabeça. Após ser alertada pelos possíveis ataques dos “nanás”, meio que entrei em pânico e de repente me senti o pior dos seres já sofrendo por antecipação algo que, pelo que entendi dos muitos relatos que busquei em blogs e facebook, não é regra; muito embora, possa ser comum em alguns locais.
De qualquer forma, acredito que temos que trabalhar nossos temores e os superarmos. O conhecimento está ao alcance de todos e não devemos nos deixar intimidar. Mas confesso que será sim, tema pra terapia intensiva até a data da viagem… rs
Amy, gostaria muito de poder conhecê-la em Paris!

Resposta
Amy-Carole Diene Dezembro 19, 2017 at 9:27 pm

Oi Jaqueline! Obrigada pela sua visita e pelo seu comentário !
Imagino que algumas questões devem surgir e até mesmo certos receios, mas não deixe de aproveitar a sua tão sonhada viagem por conta disso, de jeito nenhum! 🙂
Problemas desse tipo existem, mas não necessariamente poderão ocorrer com você e a gente também não pode se bloquear só pelo “imaginar” que algo possa acontecer, senão a gente nem levanta da cama… imagina?! rsrs E claro, quando passar por Paris, dê sinal!
Um abraço

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Camila Franzoni Junho 22, 2018 at 9:31 pm

Parabéns pelo texto Amy! Uma reflexão ótima e necessária.

Resposta
Amy-Carole Diene Julho 1, 2018 at 9:21 am

Oi Camila!
Obrigada pela sua visita e pelo comentário 🙂
Um abraço

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MARCUS abrantes FONTENELLE Julho 13, 2018 at 2:19 am

Se a pessoa independente da cor quiser contribuir com a civilização ocidental , não tenho nada contra independente da cor de pele, o mesmo se aplica a pessoas que querem viver ilegais ou a custas do estado , isso acho um absurdo em qualquer país é inaceitável , aos trabalhodores estudiosos que se inserem a civilização ocidental , aprendem a língua e o custume minha admiração , agora aqueles que vão ao país dos outros obrigar os outros a seguirem sua religião , malditos sejam!

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