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Índia

Do Brasil para Bangalore

“Afinal, se coisas boas se vão é para que coisas melhores possam vir. Esqueça o passado, desapego é o segredo!”. Fernando Pessoa

Moro em Bangalore, na Índia, com minha família há mais de 1 ano. Nós sempre tivemos vontade de viver em outro país, embora nunca tivéssemos imaginado residir algum dia na Índia.

A surpresa foi grande e nos despertou diferentes sentimentos em etapas distintas: inicialmente, sofremos pelo “luto” da idealização de nos mudar para um país desenvolvido, o que não era o caso; em seguida, vivenciamos a aceitação do fato e, por fim, passamos a curtir a expectativa da novidade. Posso afirmar que esse processo contribuiu consideravelmente para nosso bem- estar emocional no novo país, pois cada etapa consolidou gradativamente nossa decisão sobre o assunto, dando-nos a sensação de poder sobre essa escolha. Assim, a possibilidade de vivenciar nesse universo enigmático que é a Índia passou a ser percebida como uma conquista.

Sabe-se que toda mudança nos exige adaptações em várias frentes, todavia, alguns aspectos são muito delicados e difíceis de se tratar. No meu caso não foi diferente, pois meu filho mais velho não quis nos acompanhar à Índia. Até tentamos que ele viesse conosco, mas foram muitas as dificuldades e, por isso, acatamos a vontade dele que ficou morando sozinho no Brasil, ou seja, quem saiu de casa fomos nós, os pais.

Realmente, é muito difícil e dolorido aceitar e conviver com essa situação e afastamento. Inicialmente, concebi a mudança como um período sabático, dar um “break” na vida que havia construído no Brasil, com o propósito de refletir sobre minha vida em suas variadas matizes.

Decidi, então, fazer um diário desse período, um espaço exclusivo com a intimidade que um diário possibilita e, de fato, tenho dedicado parte de meu tempo à reflexão. Ao mesmo tempo, percebi crescer em mim a necessidade de compreender melhor esse país, essa cultura e toda a vida local.

É incrível se dar conta de como esse cenário mexe com o inconsciente dos ocidentais, pois tudo aqui é muito forte e intenso, desde as cores, os sabores, as vestimentas, até a religião, as crenças e os padrões sociais mantidos há milênios.

Assim, hoje meu diário reúne textos sobre meu dia a dia nesta cidade exótica, reflexões sobre o desapego para vir à Índia, a abertura para o novo, o fato de sermos pais que “saímos de casa” sem o filho, a reação das visitas que recebemos no nosso novo lar, a expectativa de estabelecer vínculos de amizade, a forma de lidarmos com nossos preconceitos nessa cultura e, sobretudo, a ansiedade para aproveitar esse tempo que tem prazo de validade.

Esse é nosso primeiro projeto na vida que tem data definida para acabar e, por isso, tudo é vivido como se não houvesse amanhã. Eu já havia me mudado de cidade no Brasil, passando por três diferentes estados, e tinha consciência da energia que uma mudança demanda. Mas agora é diferente: atravessamos continentes e oceanos para imergir numa cultura enigmática e desconhecida.

Bangalore tem aproximadamente 9 milhões de habitantes, sendo a terceira cidade mais populosa da Índia, capital do estado de Karnataka, sul do país. Conhecida como o Vale do Silício asiático, o desenvolvimento da cidade tem-se dado, principalmente, em função do polo de tecnologia e telecomunicações que ela abriga e que tem atraído a instalação de grandes multinacionais na região.

Há uma enorme comunidade de expatriados de todos os lugares do mundo em Bangalore, com cerca de 25 famílias brasileiras de diferentes estados.

Tão logo chegamos, buscamos explorar o ambiente para conhecer tudo que nos fosse importante e interessante. Visitamos templos hindus, centros de meditação, a famosa Comercial Street, restaurantes de diferentes culinárias, shoppings e lojas de comércio locais – inclusive para avaliar se havia estabelecimentos que pudessem atender a demanda de uma família brasileira; cidades vizinhas, enfim, tudo aquilo que agregasse valor à nossa estadia.

Esse levantamento é importante, principalmente num país com costumes tão diferentes. Bem, descobrimos que a maioria dos supermercados vendem produtos locais e os restaurantes usam a famosa pimenta em excesso. De toda forma, a adaptação foi se dando gradativamente, passo a passo, enquanto nos desapegamos pouco a pouco do conhecido para mergulharmos no novo. Tanto é que, hoje, já temos nossos lugares prediletos que já nos são praticamente “familiares”.

Quanto à escolha da escola para meu filho mais novo, decidimos por uma instituição que comportasse o maior número de expatriados possíveis, que usasse o método IB (International Baccalaureate) e que permitisse maior mobilidade para outros países sem provocar tanto impacto.

Ao escolhermos nossa casa, optamos por um condomínio que comporta um “gueto de expatriados” e fica próximo ao trabalho de meu marido.

Fica claro que as escolhas foram pautadas no sentimento de pertencimento, pois quando estamos inseridos em comunidades que se assemelham à nossa história, nos sentimos emocionalmente confortáveis e melhor acolhidos, inclusive pela maior possibilidade de troca de experiências e percepções, fundamentais e ainda mais necessárias nessas circunstâncias.

É incrível a proximidade e a convergência entre os brasileiros que aqui estão, bem como o sentimento de “cidadania local” que compartilhamos. Circular entre esses mundos dentro da mesma cidade é o jogo dessa experiência. A consciência de que nascemos e crescemos em outro universo nos oportuniza um olhar mais rico e intenso sobre a Índia.

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21 comentários

Juliana Paula Março 2, 2017 at 4:08 pm

Ola, Rachel! Gostei muito de saber que ha 25 familias brasileiras instaladas em Bangalore. Moro em Mumbai ha 4 anos, mas no final deste mes estou sendo transferida para Bangalore. Ja estive na cidade duas vezes a trabalho, mas desta vez, vou de mala e cuia! Um abraco e tudo de bom para voce e sua familia ai em Bangalore.

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Rachel tardin Março 8, 2017 at 4:32 am

Oi Juliana, me adicione no face para que consiga te incluir na comunidade aqui!!! Bem vinda!

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Danielle Cabral Março 2, 2017 at 8:31 pm

Raquel, adorei o texto. Parabéns! Aproveite ao maximo esta experiência…nem sempre é facil, mas nos torna mais ricos.

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Rachel tardin Março 8, 2017 at 4:33 am

Que bom! Obrigada pelo comentário!

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Raquel Siller Março 3, 2017 at 12:55 pm

Que belo artigo, vendo a Índia pela ótica da autora nos desperta o desejo de também conhecer e vivenciar a realidade desse povo.

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Rachel tardin Março 8, 2017 at 4:43 am

Estou te esperando!!

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SOLANGE BRASIL D ARINOS SILVA Março 21, 2017 at 3:45 am

Parabéns, Rachel!! Amiga, texto excelente, adorei! Que bom ter uma amiga que também nos enriquece, à distância, com sentimentos, sensações e experiências novas! Estou amando viajar pela India com vocês ????.
As fotos e vídeos , que você compartilhou comigo, mata um pouco o desejo de conhecer este lugar tão especial. Fico feliz que, agora , esta experiência possa ser “vivenciada” por muito mais pessoas.
Valeu, amiga do ❤️!??

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SOLANGE BRASIL Março 21, 2017 at 3:47 am

*matam

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Rachel Tardin Março 21, 2017 at 4:08 am

Obrigada Solange!! Seu feedback é sempre muito especial!!! I miss you!!

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MARILIA PEREIRA Setembro 25, 2017 at 10:44 pm

Que texto maravilhoso. Irei passar um tempo em Bangalore no próximo mês. Estou meio assustada mas com vontade de conhecer logo a Índia. Que bom saber que tem uma comunidade brasileira, gostaria de conhecer também.

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Rachel Tardin Setembro 27, 2017 at 10:37 am

Oi Marilia, na pagina do Facebook tem um grupo que Brasileiros em Bangalore, você pode entrar e também me procure por aqui. Ate mais,

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Tainá Dezembro 13, 2017 at 5:44 am

Oi Rachel, ano que vem vou para a India e um dos lugares que vou passar será Bangalore, gostaria de saber sobre o bairro de Rajajinagar… pensei em me hospedar lá.. ele fica muito longe do centro? É um bairro tranquilo? Etc. Obrigada

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Rachel Tardin Dezembro 14, 2017 at 4:10 am

Oi Tainá, eus não conheço esse bairro, dei uma olhada no mapa e fica no lado oposto que eu moro. Por isso, não consigo te dar uma informação precisa do local. Eu disponível para demais duvidas.

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silvia Dezembro 28, 2017 at 10:45 pm

Ola Rachel, eu morei dois anos em Bangalore, no Indian Institute of Science no malleshwaram. Gostaria de poder conversar com voce! Abraco!
Voltei ao Brasil em novembro desse ano.

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Rachel Tardin Janeiro 9, 2018 at 1:08 pm

Oi Silvia, podemos conversar sim, meu email [email protected]

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Maria Rosa Silva Fevereiro 27, 2018 at 2:20 am

Ola . Rachel Tardin tenho uma imensa vontade de ter o enorme prazer de conhecer esse pais fascinante que muitos ficam encantados, comigo não podia ser diferente! Porém…minha grande preocupação é porque sou sozinha e tenho receio de ir ao pais onde são muito rígidos com as mulheres. Mais um dia terei o prazer de conhecer e saber mais de seus povos, sua cultura e todo fascínio. Alguém um dia me disse que eu tenho um pé na índia! Perguntei, por quê? Eu ainda não obtive resposta.

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Rachel Tardin Março 3, 2018 at 4:28 am

Oi Maria,
A India é tudo isso que você descreve e tudo vivido de forma muito intensa.

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Bianca Barros Maio 22, 2018 at 4:25 am

Olá Raquel, adorei suas palavras com relação a mudança de Pais,gostaria de poder conversar mais com vc sobre as escolas e a convivência em outro pais mesmo,estamos de mudança para Bangalore e nao vou mentir estou com medo….me ajude por favor…abraços

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Rachel Tardin Maio 30, 2018 at 7:42 am

Oi Bianca, podemos conversar sim!!! Pode me adicionar no facebook.

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Krishina Outubro 28, 2018 at 7:22 pm

Olá Rachel, tudo bem. Meu pai está querendo ir morar em Bangalore e ele já é um pouco idoso, será que posso te adicionar no facebook para tirar umas dúvidas sobre documentos, vistos e coisas do tipo?

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Liliane Oliveira Outubro 29, 2018 at 1:22 pm

Olá Krishina,
A Rachel Tardin, infelizmente parou de colaborar conosco.
Obrigada,
Edição BPM

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