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O amanhecer na Índia

O amanhecer na Índia.

Contemplar o amanhecer é um espetáculo único. Seja num gigantesco deserto de sal, numa geleira, no alto de uma montanha, numa praia deserta ou no parque da cidade, o nascer do sol traz nuances múltiplas de luzes e cores que envolvem qualquer cenário com um toque de beleza e magia, independentemente do ponto de contemplação.

O amanhecer significa esperança, recomeço, um momento tão especial que os gregos instituíram a deusa Eros para representar essa parte do dia. Segundo a mitologia, Eros é responsável pelo brilho do sol e pelas tonalidades do céu, capaz de despertar nos humanos os mais profundos sonhos da alma.

Por sua exuberância, esse fenômeno da natureza ímpar nos leva também à reflexão, até mesmo por sua simbologia dual luz x escuridão. A luz simboliza o conhecimento e a escuridão, a ignorância. Por analogia, o nascer do sol é reverenciado por representar a iluminação, o conhecimento que se busca de modo a atingirmos os ideais mais elevados, o bem maior, o crescimento espiritual. Sob esse enfoque é praticamente imediata a associação que se faz entre a simbologia do amanhecer ao misticismo, à espiritualidade e ao turbilhão de sentimentos e percepções tão marcantes da Índia.

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Fui questionada sobre como é reverenciado ou percebido o amanhecer na Índia e, ao refletir sobre essa questão, considerei oportuno compartilhar neste artigo minhas percepções a respeito, já que há três anos eu “amanheço” imersa nesse contexto.

Definir o momento do “amanhecer” na Índia e por que aqui esse momento merece atenção especial decididamente se traduz numa tarefa bastante complexa pelos contrastes implícitos nela abrangidos. Ora, se o nascer do sol pode significar a expectativa de um recomeço pleno de luz, pode também implicar mais um confronto com a realidade dura que insiste em impor sua crueldade no dia a dia, demonstrada por meio de desigualdade, falta de infraestrutura e poluição, de miséria, de condições desumanas de vida e das limitações evidentes que se contrapõem aos sonhos.

Há que se reconhecer que tal ambivalência obriga qualquer ser humano a olhar para dentro de si para avaliar ou reavaliar próprias forças para lidar com um contexto tão desestruturante relativamente à realização dos objetivos desejados.

Por isso, a meu ver, todos nós temos muito a aprender com a Índia que, com sua cultura milenar e autêntica, constantemente ensina ao mundo diferentes lições de vida. São de indiscutível valor os “produtos” que a Índia exporta para cultura ocidental como, por exemplo, Yoga, técnicas de meditação, a medicina Ayuverda, que ganham cada vez mais adeptos mundo afora. Ressalte-se, contudo, o fato de que, ao chegarem aos países ocidentais, esses “produtos” indianos sofrem uma mutação para serem adaptados culturalmente ao público-alvo e, consequentemente, tal processo acaba por criar uma ilusão que na Índia não há qualquer tipo de problema, já que o país é uma espécie de fast food do equilíbrio espiritual. É claro que isto é um indicativo da imagem socialmente construída pelos agentes sociais que têm por objetivo “divulgar a cultura indiana”. De maneira geral, a Índia é sempre apresentada como um local onde as pessoas podem “experimentar um encontro com o sagrado”, onde é possível “reencontrar” ou “conectar-se”.

De toda forma, somente a Índia poderia sediar um lugar como Auroville, no estado de Tamil Nadur, cujo o nome significa “Cidade do Amanhecer” e que tem por premissa a qualidade de vida. Auroville é uma cidade internacional com 50 mil habitantes, fundada por uma francesa, em 1968, com o propósito de instituir naquela comunidade um modo de vida sustentável e harmonioso baseado no trabalho coletivo e na troca de trabalho por serviços a fim de tornar moedas e cédulas irrelevantes. Vários projetos para se obter uma melhor qualidade de vida são testados nessa cidade, numa busca pelo ideal na forma de viver.

Nesse país tão complexo , ao mesmo tempo em que as cores e a beleza dos saris, da natureza, da comida, dos festivais e dos monumentos nos encantam, a pobreza exacerbada e a falta de empatia com as castas inferiores nos choca profundamente. Ou seja, do amor ao ódio, do encanto ao desencanto, não há mais que um passo e essa ambivalência nos faz questionar sobre os conceitos mais impregnados dentro de nós e repensar valores e princípios alternativos.

Talvez a grande chave da vida na Índia seja aprender a viver com a desestrutura da vida, mantendo o foco no momento vivido, como ensina a prática do Mindfullnes, técnica de meditação, lançada por Budha e cujo ponto principal é a atenção plena no momento vivido, livre de julgamento de certo ou errado, bom ou ruim.

Talvez seja exatamente nesse aspecto que resida a essência da força dos indianos, pois o momento em que a realidade contradiz os projetos de idealização de uma vida constitui-se numa ótima oportunidade para que possamos apreender importantes lições e potencializar nossa crença nas forças sagradas que, de forma conjugada a nossas capacidades humanas, possamos atingir nossos propósitos.

Daí vem a minha grande admiração e respeito por essa gente que, ainda que vivam em condições paupérrimas e, o que ainda é pior, sem possibilidades de melhorar, não deixam de sorrir e estender a mão ao seu próximo com alegria, abnegação e solidariedade.

Por todas essas razões e significados , o nascer do sol é lindo aqui em Bangalore, a cidade em que moro, porque, a meu ver, o sol possui uma força digna dessa cultura, pois é tão forte, intenso, brilhante e marcante como a energia e a garra dos indianos que, mesmo diante das adversidades cotidianas, a cada “amanhecer” se lançam na aventura de realizar seus sonhos com as únicas armas que possuem: fé e sabedoria.

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