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Recuperando a Identidade

Recuperando a Identidade.

Uma vez eu me levantei da cama com o desespero de quem passou a noite em claro. Estava tão escuro lá fora que parecia que eram 3 da madrugada. Na verdade era quase 7 da manhã. Tomei um banho para acordar e, em frente ao espelho, percebi que não havia maquiagem que desse jeito naquela cara de “cruz-credo” , como dizem lá em Minas.

Pensava comigo, “Quem é esta pessoa de pele desbotada que não pega sol há 3 anos? Onde está aquela pessoa extrovertida, interessante, inteligente?”

O sorriso aberto, as gargalhadas que a fazia quase virar do avesso, a sua espontaneidade, sua graça e sua brasilidade, onde estavam?

Naquele momento percebi que a identidade dentro de mim estava em frangalhos, perdida ou mesmo foragida em algum lugar, talvez do outro lado do oceano Atlântico. Senti o nó na garganta. Olhei minha imagem no espelho e não me reconheci. Chorei. Estava infeliz.

Quando eu me mudei para Narvik, uma cidadezinha no norte da Noruega, há quase 10 anos, parte do calor da minha personalidade mudou. Na medida em que eu tentava me adaptar à vida acima do Círculo Polar Ártico eu me tornei menos social e mais introvertida. De repente, percebi que as pessoas se assustavam com um abraço espontâneo, sem razão aparente. No trabalho, eu fui apelidada de klemming jente (menina dos abraços). Muitas vezes, gestos de simpatia eram interpretados de forma errônea por outros.

Antes de deixar o nosso país, a estrutura que construímos ao nosso redor e na qual estávamos tão confortáveis e adaptados perde sua força, já que em outros países a cultura e os valores são outros, por mais que sejam parecidas. Enquanto, por exemplo, uma personalidade extrovertida é valorizada em uma cultura, ser reservado pode ser mais valorizado em outra.

Aprender um novo idioma, adaptar-se a uma nova cultura e a uma nova maneira de agir socialmente, somados  à perda de interações regulares com amigos e familiares no Brasil e as barreiras linguísticas são razões comuns pelas quais muitos fazem da introspecção um refúgio. Afinal de contas, a minha língua, o português, é uma parte forte da minha identidade.

A longo prazo, isso tem consequências. E mesmo estando consciente desse choque cultural eu me esforçava para não perder de vista a pessoa que eu era, à medida que situações novas ocorriam na minha vida. Só sei que no meio desse caminho eu me perdi. Havia algo de errado comigo. Bem, vocês com certeza já ouviram o termo “crise de identidade”; ela pode ocorrer a qualquer momento na vida adulta, quando você se depara com um desafio para com seu “eu verdadeiro”.

 Foto: Christopher Campbell https://unsplash.com
Foto: Christopher Campbell
https://unsplash.com

Ao tentarmos nos adaptar a essa nova vida fora do país, geralmente queremos ser gentis, agradáveis, compreendidos, aceitos, inclusos na sociedade, valorizados e, acima de tudo, sentir que somos respeitados. E, para obter isso, passamos um longo período representando uma personagem que não somos, apenas para agradar aos outros e devido a situações que, anteriormente, desestabilizam a nossa auto estima e auto confiança.

Muitas vezes desejamos e esperamos um retorno imediato desse esforço que, com o passar do tempo, se torna exaustivo e nos faz começar a questionar nossa necessidade de mudança interior,  esta que só ocorre quando descobrimos que o que estamos sendo no momento não corresponde com a forma como identificamos a nós mesmos.

Isso cria um dilema interior que desafia nosso mecanismo de defesa, mas ao mesmo tempo este dilema pode ser visto como uma oportunidade para que possamos nos equilibrar como um todo; porém, quando o nosso senso de identidade é desafiado, como podemos usá-lo a nosso favor?

Talvez eu não tenha a resposta certa, pois a experiência de cada ser humano é única. No entanto, eu posso dividir com vocês o que aprendi durante esses anos:

  • Conheça a si mesmo. Reflita. Analise suas atitudes, emoções e tente se entender. Todos temos altos e baixos nessa jornada, então tente estar ciente das partes de sua personalidade que você considera importantes e não deixe que essas qualidades escapem de você.
  • Seja fiel a você mesmo. Isso significa fazer as coisas que gosta, ser honesto e sincero com as pessoas com quem se relaciona independentemente da reação delas, seja na sua casa com seu companheiro, ou com amigos, ou no trabalho. O que as pessoas pensam de você é o menos importante, contanto que você esteja bem consigo e considere suas ações fiéis aos seus valores pessoais e ao que você pensa e acredita.
  • Aceite que você não é mais a mesma pessoa de antes. O que somos é um resultado das nossas experiências na vida. Aceite as suas experiências e esse processo como um aprendizado. Não seja duro consigo. Esse processo é lento e dolorido, mas é fantástico e corajoso.

A identidade não é “absoluta”: ela se desenvolve a cada experiência nova, seja ela boa ou ruim. Temos, então, a oportunidade de nos redescobrir, recriar, redefinir e chegar a um equilíbrio. O auto conhecimento aumenta a nossa auto-estima, reduz a depressão e a ansiedade. Quando entendemos o poder de sermos nós mesmos, de fazermos o que amamos, ambos com alegria e satisfação, somos pessoas felizes.

Na frente daquele espelho, naquela manhã, fiz perguntas que ninguém, senão eu mesma, poderia responder. Compreendi com o tempo que somente eu posso definir que sou, e mais ninguém.

Sou brasileira, carioca, mineira de coração, radicada na Noruega, mulher e apaixonada por se descobrir a cada dia. Com muito orgulho e muito amor. E mais – Não desisto nunca. Muito mais do que uma pele bronzeada, um samba no pé, um talento no futebol… É preciso coragem para caramba para sair do seu país, da sua zona de conforto, recomeçar, batalhar, viver, saber de onde você veio, onde quer chegar e, acima de tudo, amar-se e orgulhar-se da pessoa que você se tornou ao longo dessa jornada.

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27 comentários

Léo, Macaé ;) Novembro 17, 2015 at 4:06 pm

Excelente mineira. Parabéns pelo texto e pela mulher que vc é.
Muito sucesso.
Beijo grande.

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Wendy Dantas Novembro 18, 2015 at 7:46 am

Querido Leo, obrigada por ler o artigo e ainda mais por ser essa pessoa maravilhosa que voce sempre foi! Agradeço do fundo do coração! Muita paz, amor e sucesso pra você sempre! “Erguei as mãos!!” 😀 beijos!

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Ana Raquel Abril 11, 2016 at 12:37 am

Nossa!! As vésperas de deixar o Rio de Janeiro e ir morar na Noruega , largar um emprego publico , e outras coisas e ler isso é muito tocante…para refletir…obrigada mesmo pondo texto.

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Wendy Dantas Abril 11, 2016 at 8:12 pm

Muito obrigada, Ana Raquel! 🙂 Fico feliz que tenha gostado do texto. Desejo toda sorte do mundo, grandes descobertas e felicidade nessa nova jornada na sua vida! Estamos aqui se tiver qualquer dúvida quando chegar no solo Escandinavo! Um grande abraço!

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Thaís Novembro 18, 2015 at 12:10 pm

Parabéns amiga! Lindo texto! Muito orgulho de ser amiga desta mulher linda e guerreira que vc é! sucesso… Vc é merecedora! Beijão!

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Wendy Dantas Novembro 18, 2015 at 1:57 pm

Querida Thaís! Você e tantos outros amigos que fazem parte da construção de quem sou hoje. Obrigada de coração pelo apoio! Beijos!

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Tábata Senna Novembro 18, 2015 at 1:03 pm

Lindo texto! É exatamente assim que me sinto, mas ainda estou no turbilhão das mudanças, tentando me encontrar (completamente perdida). Parabéns, beijos.

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Wendy Dantas Novembro 18, 2015 at 2:09 pm

Querida Tábata,
Estou muito feliz que você tenha se identificado com as palavras do texto. Saiba que você não está sozinha nesse processo. Espero que possa ajudar você durante essa fase de mudanças na sua vida. Fique tranquila, você logo vai encontrar as respostas que precisa! 😉 Beijão!

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Danyella Proença Novembro 18, 2015 at 4:13 pm

Wendy, seu texto me emocionou muito. Estou há pouco mais de um ano nas Filipinas e tive meu bebê aqui. Passados os três primeiros meses, também me olhei no espelho um belo dia e não me reconheci. Não era pelas olheiras, pelos quilos a mais e sono a menos trazidos pela maternidade. Era, sobretudo, pela questão da identidade. Eu sempre me vi como uma mulher independente, alegre, solar, apaixonada por carnaval, que dançava frevo, que tocava maracatu, cheia de amigos espontâneos com quem eu adorava passar horas jogando conversa fora em mesa de bar. De repente, me vi em outro país, com outros códigos, em outro círculo social em que eu não achava espaço ainda para ser exatamente quem eu achava que eu era e me sentia constantemente sendo “outra coisa”. Um dia percebi que essa “outra coisa” que eu via como uma máscara na verdade era a minha nova identidade. Sem dor. A maternidade e o novo país trazem mudanças, é claro! Como você disse – a identidade não é absoluta! O importante é fica atento para quando esse novo rosto no espelho vira algo embotado, onde não há alegria nem entusiasmo. É assim que a depressão se avizinha. No meu caso, fiz essa reflexão que você sugeriu e vi que o essencial permanece. Ninguém atravessa duas vezes o mesmo rio, não é? Um grande abraço e parabéns pelo texto e pela jornada!

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Wendy Dantas Novembro 18, 2015 at 9:09 pm

Querida Danyella,
Primeiro gostaria de dizer obrigada por trazer tanta sensibilidade para o meu dia hoje. O seu depoimento me emocionou muito. E é incrível como a distância é irrelevante entre as pessoas quando as experiências, sensações, emoções se identificam e somam, como nesse depoimento fantástico e franco que você deu. Depois da dádiva que recebi de ser mäe é que fui entender o poder da maternidade na nossa vida e como ela nos transforma. Você, graciosamente, acrescentou com suas palavras o que faltava no texto. Estou muito feliz das minhas palavras terem chegado até você e eu sou eternamente grata pelas suas palavras terem chegado até a mim. Um abraço apertado para você!

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Denia Novembro 18, 2015 at 9:41 pm

Me identifiquei muito com seu texto. Também moro na Noruega, só que em Oslo, mas pra mim todas essas diferenças e desafios me fazem querer voltar… talvez eu ainda aprenda a lidar. De qualquer forma, foi muito bom ler seu texto, é como se vc tivesse verbalizado boa parte do que sinto.
Obrigada 🙂

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Wendy Dantas Novembro 19, 2015 at 12:52 pm

Querida Denia,
Não desista. Você tem uma coragem e uma forca dentro de você imensa. Chegamos até aqui. Somos todos brasileiros e brasileiras, mas acima de tudo somos nós mesmos. Esses desafios existem para nos tornar mais fortes, para nos dar uma oportunidade de nos conhecer melhor e tornar uma melhor versão de nós mesmos. Tenha paciência e acredite em você. Beijos, linda!

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Conceição Do Anselmo Novembro 18, 2015 at 9:58 pm

Caramba que texto lindo! Me deixou emocionada. Deus te abençoe!

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Wendy Dantas Novembro 19, 2015 at 12:45 pm

Muito obrigada pelo carinho, querida Conceição! Um grande abraço pra você!

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Renata Salas Collazo Novembro 19, 2015 at 1:10 am

Bem vinda ao BPM Wendy…. acho que todas nos, brasileiras, nos sentimos representadas no seu texto. De uma forma ou de outra sempre passamos por esse processo e o melhor: sempre sobrevivemos!!! Parabens!!

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Wendy Dantas Novembro 19, 2015 at 12:43 pm

Querida Renata, muito obrigada! Eu me sinto muito bem recebida aqui por esse time de mulheres fortes, corajosas, pensadoras e incríveis! Quero aprender mais com vocês e acrescentar para o time! Eu estou muito feliz de estar aqui! Um beijo grande!

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Marcio Pereira Novembro 19, 2015 at 2:18 pm

Este novo momento em sua vida, minha amiga, nos dará oportunidade de conhecer ainda mais esta pessoa maravilhosa que você é. Ótimo e revelador texto. Te amo muito, Wendy. Beijos e saudades!

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Wendy Dantas Novembro 19, 2015 at 7:24 pm

Querido amigo Marcio,
Eu digo aqui, novamente, que eu me sinto lisonjeada, feliz e agradecida por ter você, essa pessoa tão maravilhosa, em minha vida! Muito obrigada!

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Marcio Pereira Novembro 21, 2015 at 8:24 pm

Eu que agradeço. Uma grande força espiritual fez com que nos encontrássemos. Amigos para sempre!

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Bia Dantas Novembro 19, 2015 at 10:08 pm

Sempre me orgulhei de voce, filha , emocionada e me sentindo a mãe mais realizada do mundo. Voce é merecedora de cada momento de felicidade, uma guerreira nata, uma mulher inigualável. Parabéns, filha amada!

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Sabrina Dantas Novembro 19, 2015 at 11:34 pm

Você é incrivelmente maravilhosa e eu tenho orgulho em dizer que é minha única e verdadeira amiga. As experiencias fazem parte, mas você decidiu usa-las de forma positiva para superar tamanho desafio e essa atitude poucos têm. Penso que muitas vezes precisamos nos perder para nos redescobrir de maneira sólida. Continue nessa trilha, minha irmã, pois você brilha, continue brilhando para nós, seus amores. Brilhe para todos que te admiram e brilhe também para os “desalumiados”, porque seu brilho basta menina! Eu te amo você!

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Alana Albuquerque Novembro 20, 2015 at 11:47 am

E isso ai, se conhecer e o segredo.

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joao oliveira Janeiro 19, 2016 at 12:18 am

Muito bom ! Poxa, eu tirei este tempinho para ler as suas postagens e adorei todas, e deixando essa aqui por ultimo me deu mais vontade de realizar um dos meus sonhos. E esse final até me emocionou um pouco.
Queria lhe agradecer por poder ter compartilhado seus conhecimentos e vivencias que tive.

Vlw ! =D

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Ludmilla Maio 17, 2016 at 9:27 pm

Super encantada nos seus textos! É de emocionar mesmo! Que garra e coragem! Você merece tudo de melhor! Beijos!

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Wendy Dantas Maio 21, 2016 at 3:28 pm

Muito obrigada Ludmilla! 🙂 Eu fico muito feliz em poder levar paras as pessoas os melhores sentimentos através das palavras. Um grande abraço!

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Farah Santos Outubro 31, 2016 at 1:32 pm

Nossa Wendy, me identifiquei muito com seu texto mesmo não estando morando em outro pais.
Me encontro nesse momento completamente apaixonada pela Noruega e sonho em um dia poder morar lá…Mas seu texto , no meu ponto de vista , se encaixa perfeitamente em alguns momentos da minha vida. É sempre bom parar para refletir ( tentar se analisar ) , se dar uma puxão de orelha e não se cobrar tanto. Amei seu blog, seus outros textos e suas dicas. Um grande abraço.

Resposta
Wendy Dantas Outubro 31, 2016 at 9:34 pm

Querida Farah! Muito obrigada pelo seu comentário! Acho que, independente de onde estamos no momentos, passamos todos por esse momento de desconstrução e reconstrução! O importante é permanecer fiel a si mesmo. Um beijo grande pra você! ????

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