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Divagações Japão

Em busca de uma vida mais simples… E plena

As estações no Japão costumam ser bem definidas e, para quem tem filhos, a troca de estação é hora de separar as peças que não servem mais, guardar as roupas ou objetos que não serão mais usados e tornar o ambiente mais limpo, organizado e simples. É também o momento de aproveitar para fazer uma reflexão sobre nosso estilo de vida e nossos hábitos de consumo.

Moro em uma quitinete com minha filha e quem conhece os imóveis japoneses sabe que eu estou falando de um espaço MUITO pequeno (minha máquina de lavar roupa, por exemplo, fica na varanda e nem queiram saber a tristeza de usá-la quando chove ou durante o inverno). Algumas pessoas inclusive ganharam certa notoriedade na internet ao mostrar como viviam em seus microapartamentos, surfando na onda minimalista de uma vida mais enxuta, a exemplo de nomes como Marie Kondo. Considerada a fada da arrumação japonesa, ela inspira famílias a organizarem os armários e as próprias vidas, abordando não só roupas e sapatos, mas a relação das pessoas com o seu lar e a dinâmica familiar. E eis que você decide que chegou a sua vez de repaginar sua vida, começando pela mudança de país.

Fazendo as malas

Todos nós que decidimos por isso sabemos o que é recomeçar longe de casa e da família, muitas vezes com apenas aquilo que trazemos na mala junto com muita esperança, expectativas e coragem. Até mesmo antes disso, enquanto decidimos o que carregar conosco fazemos, a cada peça, uma pequena escolha do que queremos manter, inclusive em nossos corações. É quando muitas vezes aprendemos o valor do desapego, do que de fato importa. E talvez aí resida o grande segredo da técnica de Marie em busca do autoconhecimento: compreender que a bagagem deve se tornar mais leve e que o essencial ganha um novo significado com a perspectiva sob um novo ângulo.

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Da primeira vez em que morei no Japão, como muitas pessoas, me entusiasmei com o poder de compra que adquirimos aqui (note-se que eram outros tempos inclusive em termos de impostos), a velocidade frenética de lançamentos de novas tecnologias, de infinitas possibilidades de conforto e entretenimento. E confesso que materialmente falando eu realizei muitos desejos. Mas a vida passa e com as experiências adquiridas eu comecei a entender que nada daquilo me preenchia, que a satisfação era momentânea e que na verdade o que eu vivia era um círculo vicioso onde meu impulso primário, em busca de felicidade e realização, era turbinado pelo stress e o cansaço do trabalho braçal de longas jornadas. Não sei qual foi o momento exato em que a ficha caiu e eu me dei conta de que era preciso romper com isso e buscar uma forma mais rica e sadia de viver minha rotina e de dar um propósito a ela.

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Voltando ao Brasil, quando me especializei em Odontologia do Trabalho, passei a ter um olhar mais atento para questões voltadas à saúde do trabalhador. Meus dias no consultório iam além de ver bocas e dentes, buscava ouvir as histórias que seus donos tinham para contar que me fizessem compreender o que eu via em exames clínicos e radiografias. Foi quando eu vi profissionais da saúde, se sacrificando em uma rotina de caos de longos plantões, em múltiplos locais, sem horário ou condições de manter uma alimentação saudável incluindo hábitos básicos de higiene bucal. Vi professores, bancários e todo tipo de trabalhadores literalmente quebrando seus dentes em manifestações graves de bruxismo ligadas ao stress. Entre tantos conselhos que eu dava aos meus pacientes, passei a questionar quantos deles eu mesma conseguia seguir.

Comecei a entender o impacto ambiental que provocamos no mundo com nossos hábitos, a enxergar a nossa imensa responsabilidade em preservar o que temos, inclusive a nós mesmos, em um sistema baseado no consumo e na venda da nossa força de trabalho para bancar tudo isso. Começava a despertar em mim a consciência, que afinal parece me trazer o verdadeiro preenchimento e paz interior, e o sentimento de uma vida mais plena e rica.

De volta ao Japão, já com a bagagem mais leve e um novo livro em branco para escrever esse capítulo que se iniciou em minha vida, resolvi que era hora de deixar a teoria de lado e colocá-la em prática. Nesse sentido, morar em um espaço tão restrito, ainda que nem sempre fácil (principalmente com uma criança), tem ajudado a me manter fiel a esse propósito. Isso se traduz em evitar compras por impulso, a manter o foco no essencial, a explorar com criatividade o que temos e se reinventar a todo momento. Para quem busca reconstruir sua identidade esse é um tremendo e constante exercício de autoconhecimento, de entender quem você é e do que realmente gosta, muito além das tendências geradas pela mídia e dos padrões impostos pela sociedade.

E uma vez que você passa a entender o que vai dentro da sua alma, estabelecer prioridades se torna mais claro e fácil, ressignificando sua relação com o mundo e o propósito de suas ações, direcionando melhor seus esforços e o que você deseja alcançar.

O mito do minimalismo japonês

É fato que boa parte da população japonesa vive uma rotina de consumo interminável, a despeito de todo o mito em torno do espírito minimalista e ainda que a figura de Marie Kondo e seu apelo de marketing reforcem esse estereótipo. Tanto que, ao contrário do que julga o imaginário popular, muitos vivem abarrotados em seus minúsculos apartamentos. Mesmo esta que vos escreve, apesar do esforço para reeditar esse aspecto de minha vida, vejo o quanto isso pode ser difícil de implementar. Não me imagino, por exemplo, com poucas peças de roupa, pois gosto de expressar meu estado de espírito através delas e suas cores. Além disso algumas pessoas não entendem a forma que tento educar minha filha e não colaboram.

Tento não valorizar bens materiais mas oferecer uma bagagem intelectual, emocional, psicológica e até mesmo física priorizando, no lugar de brinquedos dos quais ela se esquece rapidamente, passeios ao ar livre em parques e lugares históricos, museus e exposições de arte, festivais culturais e tudo o que puder contribuir para que ela desenvolva todo o seu potencial e ferramentas que nada nem ninguém possa tirar dela. Na minha concepção esse é o melhor presente que posso dar a ela, que seguirá em sua vida mesmo quando eu não mais estiver ao seu lado.

Como saldo eu acredito que vamos caminhando para uma vida não apenas mais equilibrada, sustentável tanto financeira quanto ecologicamente, dando o devido valor ao trabalho e ao dinheiro, mas acima de tudo ao tempo, um dos bens mais preciosos que possuímos, que jamais podemos reaver e, se mal investido só nos resta lamentar e procurar fazer melhor uso do que ainda temos. Isso significa dedicá-lo aos seus sonhos para que se tornem realidade, às pessoas que você ama, ao que você acredita, ao que inspira seus dias e faz seus olhos brilharem.  E aí, prontos para começar a arrumação?

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